‘Quero provar que não há aluno ruim’

14 08 2010

Brasileiro especialista em tecnologia aplicada à educação, Paulo Blikstein, quer descobrir os talentos não revelados dos estudantes

Ainda criança, o engenheiro e professor paulistano Paulo Blikstein, 36 anos, desmontava todo e qualquer objeto que encontrava pela frente em casa – um radinho de sua mãe costumava ser a vítima preferida. Para sua sorte, seu visionário avô Saulo sempre o incentivou a aprender mais sobre eletrônica, fato que hoje ele considera determinante para sua carreira.

Além disso, ele estudava em uma escola diferente (“da filha do educador brasileiro Paulo Freire, falecido em 1997” – e do qual é devoto) em que os alunos tinham a sua criatividade bastante estimulada. Apenas para se ter uma ideia do quão progressista era o tal colégio, os alunos não faziam prova, sequer tinham nota, e ainda participavam de discussões para combinar a grade curricular.

Aos 15 anos, atraído pelas novas tecnologias que então emergiam, Paulo ganhou de aniversário o livroLogo: Computadores e Educação, do pioneiro educador sul-africano Seymour Papert, em que ele apontava caminhos para o uso dos computadores no ensino.

Mais tarde, enfim, ele resolveu estudar engenharia na USP, decidido a se tornar um inventor de novos aparelhos. Consciente de que a referência de escola que tinha era bastante diferente da de seus colegas, durante a graduação, ele ficou intrigado com o fato de que muitos bons alunos não conseguiam aprender coisas básicas e percebeu que havia algo muito errado com aquele método de ensino, que ele classifica como tradicionalíssimo. “Por que não se poderia ensinar engenharia do jeito do Paulo Freire, do jeito do Seymour Papert?”, se perguntava Paulo, à época.

APRENDER PARA ENSINAR
Movido por esse incômodo, pouco tempo depois da sua formatura, ele se candidatou a uma vaga no grupo do próprio Papert, no Media Lab, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, um dos principais pólos da vanguarda mundial de pesquisa em novas tecnologias.

De lá pra cá, já se vão nove anos desde que Paulo migrou para estudar, sem nunca se esquecer do Brasil. “Meu trabalho só tem sentido se eu puder ajudar a melhorar alguma coisa na educação do nosso País”.

Mas, voltando à pergunta anterior, que jeito de se ensinar diferente seria esse afinal? “Entre outras coisas, Paulo Freire diz que a educação deve levar as pessoas do real para o possível, ou seja, deve ensinar que o conhecimento é uma arma de transformação do mundo. Já o Papert é o grande defensor daquilo que popularmente chamamos de aprender fazendo.”

E continua: “Portanto, em vez de aulas teóricas e de laboratórios com problemas inventados, o ensino de engenharia (mas não só ele) deveria colocar o aluno para resolver problemas reais, desde o primeiro ano. De preferência, problemas socialmente importantes como o saneamento básico, etc.” E conclui: “Daí, as aulas teóricas passam a ter mais sentido na cabeça do aluno. Ele precisa aprender cálculo, por exemplo, para saber dimensionar o novo sistema de esgoto que inventou, e não simplesmente para fazer uma prova.”

Em 2002, durante sua passagem no MIT, que durou três anos e lhe rendeu um mestrado, é que Paulo pôde finalmente colocar em prática algumas de suas ideias. Estimulado a pesquisar sobre educação e novas tecnologias, ele fez do dia-a-dia dos estudantes a base para o ensino de ciências, muitas vezes, afirma ele, ministradas nas escolas – não apenas brasileiras – como a chata continuação de fórmulas desconectadas da realidade. Em uma parceria entre o Media Lab e a Prefeitura de São Paulo, que mais tarde foi replicada em outros países, ele criou experimentos com alunos de escolas públicas, que buscavam resolver problemas da comunidade, como ligações clandestinas de eletricidade.

TODO ALUNO É BOM
Atualmente, após concluir um doutorado na Universidade de Northwestern, em Chicago, e ter sido assediado por algumas das principais universidades dos EUA, dá expediente na Universidade de Stanford, na Califórnia. Em termos de pesquisa, tem se dedicado a criar programas e sistemas que ajudem a “libertar” a criatividade e inventividade das crianças, como placas de robótica educativas, softwares de simulação científica, etc.

Além, ainda, da criação de modelos computacionais da cognição humana, que, segundo ele, irão ajudar a entender de forma mais profunda como funciona o aprendizado das crianças. Paulo diz crer que por meio dessas iniciativas conseguirá cumprir seu projeto de vida: “Quero provar que não há alunos ruins. Há apenas alunos com talentos não descobertos.”

EDUCAÇÃO OBSOLETA
Paulo Blikstein não é conciso na hora de falar sobre seus projetos e ideias. Ele fala bastante e lentamente, além de fazer grandes parênteses dentro de cada uma das suas respostas. O que não quer dizer que não valha a pena ouvi-lo – pelo contrário.

Ele acredita que há um descompasso entre as possibilidades abertas pelas novas tecnologias e a forma como elas são usadas nas escolas. “Falta foco na criação de conhecimento”, afirma. “A disponibilidade instantânea de informação está tornando a educação tradicional cada vez mais obsoleta”, conclui. Apesar dos elogios, ele não nutre uma fé cega no novo. “Não podemos nos deslumbrar e achar que a tecnologia é a resposta para todos os problemas”, alerta.   Enquanto isso, Paulo participa de um projeto com jovens de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Toda quarta-feira, ele conversa e orienta jovens de uma oficina de robótica via Skype.

Os encontros ocorrem no colégio Santo Américo, que há cerca de seis anos abre seus laboratórios, entre eles o de robótica sob o comando do professor Fernando dos Santos, para os jovens da comunidade vizinha.   Paulo participa da iniciativa desde 2007. “Os projetos dessas crianças, muitas vezes, são melhores do que aqueles que vejo nas escolas de elite dos EUA”, garante.

Jaíne Roberta dos Santos, de 19 anos, é uma das alunas mais aplicadas da oficina. Balconista, ela agenda suas folgas do trabalho para toda quarta-feira, para assim continuar o desenvolvimento do seu protótipo: um carrinho de bebê que anda sozinho para frente e para trás quando um sensor capta o choro da criança. O objetivo é de simular um balanço.

Paulo tem alguns planos bem ambiciosos, mas enquanto eles ainda não se realizam, ele se contenta com pequenas ações que, na prática, ajudam a alargar os estreitos horizontes de muitos desses jovens.

FOTO: DIVULGAÇÃO

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Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 11 de maio de 2009





Como o computador e a web estão alterando a nossa mente

14 08 2010

O neurocientista e autor de “iBrain – Sobrevivendo à Alteração Tecnológica da Mente Moderna” Gary Small explica

A internet muda nosso cérebro. Eis a conclusão do livro (inédito no Brasil) do neurocientista americano Gary Small, diretor do Centro de Pesquisa em Memória e Envelhecimento da Universidade da Califórnia. Small percebeu que pessoas com pouca experiência na web, quando online, mostravam atividade na linguagem, memória e centros visuais do cérebro, o que é típico de quem está lendo. Já usuários experientes tinham mais atividade nas áreas de tomada de decisão. Após cinco dias seguidos de navegação, a atividade cerebral dos novatos ficou mais parecida à dos veteranos. O cérebro adaptou-se rapidamente ao uso da rede.

Agora, há uma boa e uma má notícia aí: a boa é que, se você for mais velho, navegar pode ajudar a mantê-lo afiado; a má é que os mais experientes têm a capacidade neural muito consumida e sobra pouco para outras habilidades. Isso pode ser um indício do porque é difícil ler quando estamos online. É como ler um livro e fazer palavra-cruzada ao mesmo tempo. Leia entrevista com Small:

Como surgiu a ideia de iBrain?
Passei minha carreira desenvolvendo tecnologias para estudar o cérebro à medida que envelhece. Fiquei impressionado como as novas tecnologias, em especial, a internet, têm um efeito profundo em nossas vidas. Gostaria de saber qual o efeito delas no cérebro.

Por que o cérebro nunca foi afetado de forma tão rápida e drástica?
Acho que por causa da aceleração no ritmo das inovações e da quantidade de tempo que gastamos com estas novas tecnologias.

Como a internet melhora a inteligência das pessoas?
Ela de certa forma cria uma extensão da memória biológica – temos um ‘HD externo’ com imensa quantidade de informações acessível a qualquer momento. Sacrificamos a profundidade pela amplitude.

Qual é o lado positivo e negativo da internet para as crianças?
Os positivos são a possibilidade de se relacionar e colaborar em rede e o acesso instantâneo à informação. Os negativos incluem a o comprometimento da atenção e da dependência da tecnologia.

Como será o cérebro no futuro?
Prevejo que vamos ter implantes de micro-chip no cérebro que nos ligarão a internet e a discos rígidos externos. Não vamos mais usar mouse e teclado. Vamos pensar em algo e instantaneamente isso vai acontecer.

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Entrevista publicada por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 29 de novembro de 2009





Quando uma história é só o começo…

18 01 2010

Com a cultura digital, surge uma nova modalidade de ficção: a ‘narrativa transmídia’

A carinha sorridente amarela respingada com uma gota de sangue é só o ponto de partida. A partir dela, descortina-se não só um universo de super-heróis decadentes e de superpoderes usados como armas militares, como uma série de pequenas histórias paralelas que acontecem independente umas das outras e em formatos diferentes. Juntas, todas essas narrativas contam uma história complexa e multifacetada, que dificilmente teria o mesmo impacto caso contada de forma linear.

Watchmen, a clássica série em quadrinhos cuja aguardada adaptação finalmente chega aos cinemas na próxima sexta-feira, é um dos muitos exemplos de um novo tipo de ficção – a narrativa transmídia. Nem tudo na história original de Alan Moore e Dave Gibbons era contado em forma de quadrinhos – cada episódio terminava com páginas que poderiam trazer um capítulo de um livro fictício, o prontuário médico de um dos personagens, recortes de páginas de jornal.

Mas com a internet e a digitalização das mídias, essa narrativa que acontece em diferentes plataformas aos poucos vem deixando nichos e tomando conta do mercado de entretenimento. Sites, celulares, redes sociais, games, aplicativos e blogs – peças-chave da cultura digital – são hoje responsáveis por expandir universos criados em livros, filmes, histórias em quadrinhos e programas de TV. Mas eles vão além de simplesmente levar uma grife de entretenimento para outras plataformas. Interligando-se com o produto principal, eles criam tramas paralelas e ações fora da internet que expandem ainda mais a história central. Assim, cria-se um novo vínculo com o antigo leitor/espectador/ouvinte, agora convidado a participar da narrativa.

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Matéria de 2 de março de 2009 a seis mãos: @brunogalo@lucpretti e @trabalhosujo





Acredite, sua câmera é capaz de boas fotos

18 01 2010

Digital mudou (quase) tudo na fotografia a ponto de criar uma ‘cultura da câmera’; Link traz dicas para você acertar no clique

As câmeras fotográficas digitais – tradicionais ou em celulares – estão em toda parte: nas ruas, no ônibus, no metrô, no avião, no restaurante, na balada, no colégio ou na faculdade e até em ambientes de trabalho. Não há dúvida, nunca se fotografou tanto como hoje. Assim como, jamais se mostrou tanto o que se clica. Por fim, em tempo algum, o fotógrafo foi tão protagonista de suas próprias imagens. Esses dois últimos exemplos, por sinal, são uma clara cortesia da internet e suas múltiplas redes de relacionamento.

Alguns pesquisadores, como o indiano Ramesh Raskar do MediaLab, laboratório de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos EUA, um dos principais centros da vanguarda mundial de pesquisa em novas tecnologias, têm se dedicado ao estudo do tema. Para Raskar, o que estamos testemunhando é o surgimento de uma “cultura da câmera” (camera culture, em inglês).

Raskar defende que não se trata apenas de uma mera expansão quantitativa das imagens. O fato novo é o relacionamento entre as pessoas, mediado pela internet e baseado cada vez mais no registro e no desejo de se consumir imagens. O digital mudou tudo – ou quase – na fotografia. “Ela extrapolou suas fronteiras com o digital. E o mercado expandiu de tal forma que hoje todo mundo tem interesse nesse assunto”, observa Duda Escobar, show manager da PhotoImage Brazil, maior evento do setor da América Latina, que começa amanhã em São Paulo.

É preciso experimentar
De um jeito ou de outro, a boa notícia é que não importa qual a câmera que você tem ou pretende comprar. Ela é capaz de tirar boas fotos.

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Matéria de 10 de agosto de 2009 a quatro mãos: @brunogalo@joauricchio





A procura pela busca perfeita

16 01 2010

Mecanismos de busca procuram ficar mais inteligentes para facilitar a vida dos usuários

Se estivéssemos em 1996 e você precisasse preparar um doce, iria ao Altavista ou ao Cadê, entraria no diretório “Sociedade” e digitaria: receita de pavê para fazer no natal. Quanto mais palavras, mais chances de achar. Anos depois, com o Google e seu “menos é mais”, a busca se resumiria às palavras “pavê” e “natal”. Era a época em que buscadores ditavam a forma de procurar a informação.

Agora, a dinâmica se inverteu. E a busca não é por qualquer pavê natalino, mas pela receita específica, o vídeo tutorial, a dica do chef conhecido. Além disso, o excesso de palavras-chave aleatórias colocadas num site para gerar audiência pode induzir ao erro. A busca mudou: as pessoas ditam como querem buscar informações. E os serviços têm de se adaptar.

GIGANTES
Google e Yahoo, as principais ferramentas de hoje, já estão se mexendo. O Google mostrou as garras na semana passada, num evento que chamou de Searchology, em que discutiu o futuro das buscas. Yahoo já tinha armas mais antigas e pioneiras. É claro que, além de tornar a navegação mais ágil, ambas empresas querem melhorar buscas para tornar a publicidade online – principal fonte de renda deste tipo de site – mais eficaz e lucrativa.

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Matéria de 18 de maio de 2009 a quatro mãos: @brunogalo e @lucpretti





Com tecnologia, deficiente supera limite

16 01 2010

Softwares e aparelhos eletrônicos ajudam pessoas com algum tipo de deficiência a levarem uma vida normal e produtiva

No começo da década de 1980, o aposentado Marco Antonio de Queiroz, o MAQ, leu um artigo da Unesco que o marcou. O texto dizia que os limites de uma pessoa com deficiência dependiam dos limites tecnológicos de seu país. Na época, MAQ, que ficou cego em 1978, diz ter se sentido mais deficiente visual do que um cidadão com a mesma limitação de um país desenvolvido.

Trinta anos após perder a visão, o único indício de que MAQ é cego são os óculos escuros. Ele navega na internet normalmente, envia torpedos pelo celular e mantém um site constantemente atualizado, o Bengala Legal. “A tecnologia desfaz o limite que a minha deficiência me dá”, diz.

Não é de hoje que a tecnologia está a serviço do deficiente – vide a bengala ou o aparelho de surdez. Tecnologias? Sim, de tempos atrás, que tiveram a função de inserir o indivíduo com deficiência na sociedade. Hoje, soluções hi-tech, que podem ser uma tela que lê um site para um cego ou um programa de comando de voz que permite a um tetraplégico escrever um texto no Word, cumprem exatamente o papel que um dia a cadeira de rodas teve. Muito mais do que proporcionar a inclusão digital, essas ferramentas fazem a inclusão social.

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Matéria de 16 de junho de 2008 a quatro mãos:  @brunogalo@gustavomiller





Cadê o DVD que estava aqui?

16 01 2010

Hollywood e videolocadoras apostam na sobrevivência da mídia física, mas a distribuição digital já é uma realidade

Costuma-se medir o sucesso – e o fracasso – de um filme a partir da sua bilheteria nos cinemas. E apesar de todo o estardalhaço que envolve os seus lançamentos, é do discreto entretenimento doméstico (locadoras e varejo) que vem a maior parte do lucro de Hollywood.

Nos últimos anos, entretanto, esta valiosa fonte de renda, que em sua origem era vista com temor e receio pelos estúdios, começou a secar. Afinal, os tempos são outros. A internet permite o acesso imediato e gratuito – ainda que de forma ilegal – às novidades do cinema.

“Vivemos um momento de transição e precisamos ser mais atraente do que a pirataria”, afirma Daniel Topel, principal executivo da brasileira NetMovies, que oferece aluguel de DVDs e Blu-ray pela web e, não por acaso, acaba de lançar um serviço de streaming, como no pioneiro YouTube, só que de longas. “Não podemos cometer o mesmo erro da indústria da música. Não dá para ficar apenas brigando contra a rede”.

Os sinais evidentes do declínio do cinema em casa começaram a aparecer apenas recentemente. No Brasil, nos últimos três anos, o total de DVDs vendidos no País para locadoras caiu 45%. Já nos EUA, a renda do entretenimento doméstico patina há um bom tempo e caiu 22% só no último trimestre.

“Cada vez mais o público irá exigir a possibilidade de consumir filmes e outros produtos culturais da sua preferência, onde, quando e como quiserem”, disse ao Link o teórico norte-americano Henry Jenkins. “E se a indústria não atendê-lo, o pirata fatalmente fará esse papel”.

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Matéria de 31 de agosto de 2009 a seis mãos: @brunogalo@filipeserrano e @rafael_cabral