Todos os caminhos levam à nuvem

27 08 2010

Filmes, livros e músicas disponíveis na hora, no lugar e no aparelho em que você quiser

Hoje, basta um computador com acesso à internet para obter (em muitos casos, de maneira ilegal) praticamente qualquer filme, livro ou música que você quiser. Logo, estes produtos culturais estarão – e em muitos casos já estão – a apenas um clique de distância, sem a necessidade de baixar nada e disponível na hora, no lugar e no gadget com acesso a web que você preferir. E, o melhor, de forma legal e, não raro, gratuita.

Cortesia da nuvem. Mas afinal o que é a nuvem? O mundo da computação pré-internet foi construído sobre a lógica de que tudo devia estar instalado ou armazenado na máquina de cada pessoa. A nuvem rompe com esse conceito. Cada vez mais, tudo que queremos ou precisamos pode ser acessado diretamente pelo navegador de internet. A maior oferta e acesso à banda larga, inclusive móvel, é essencial para o sucesso dessa visão.

“A cultura já está online. Qualquer mídia pode ser digitalizada com vantagens econômicas para a indústria. O que estamos começando a ver agora, é a internet se tornando o principal suporte para termos acesso a cultura e entretenimento”, observa o estudioso norte-americano Nicholas Carr, autor de A Grande Mudança (Editora Landscape), em que defende que a computação em nuvem está mudando a sociedade de forma tão profunda quanto à energia elétrica nos últimos cem anos.

Antes, no entanto, é preciso entender a evolução que permitiu chegarmos aqui. O culto despertado pelo iPod consagrou, na música, o dispositivo pelo qual se acessa o conteúdo, tornando possível hoje, entre outros motivos, a ascensão da música na nuvem. Se desde a virada do século ninguém dava mais muita bola para o desgastado CD, todos queriam ter o seu tocador de MP3, de preferência o iPod. Por sua vez, o sucesso do aparelho, no seu conceito original, só foi possível porque antes a prática de copiar CDs e compartilhar música na rede, simbolizada pela explosão do Napster, havia se disseminado.

O público estava, portanto, sedento por um dispositivo bacana em que pudesse colocar as suas músicas e levá-las consigo para onde quiser. O iPod, por sua vez, tirou vantagem também, do surgimento mais de vinte anos antes do Walkman que levou a música para ser trilha sonora inseparável de milhões – hoje, bilhões – de pessoas em todo o mundo. Na verdade, o que se viu durante toda a história da música como produto – iniciada com o fonógrafo – pode ser resumida como uma busca por ser cada vez mais acessível e disseminada.

Voltando no tempo, depois do fonógrafo levar a música para além das apresentações ao vivo, o rádio espalhou-a por novos ambientes e momentos do dia a dia das pessoas. Além disso, foi ele que introduziu o acesso gratuito as canções. Enquanto, a música transcendeu a barreira do suporte há muito tempo, os livros apenas agora começam a se libertar do papel. Por sua vez, os filmes estão no meio do caminho entre uma coisa e outra. Eis a explicação do motivo da oferta de conteúdo musical por streaming, ou seja, na nuvem, ser tão mais variada.

Os efeitos dessa mudança já podem ser observados como de costume entre a fatia do público mais ávida por música. Tanto nos Estados Unidos, como no Reino Unidos, duas diferentes pesquisas chegaram a mesma conclusão. O consumo de música em sites de streaming aumenta, principalmente entre os mais jovens, ao mesmo tempo, que o uso regular de sites de compartilhamento de músicas cai.

Uma outra clara evidência de que a nuvem veio mesmo para ficar está nos estúdios de cinema. Apesar de viveram as turras com serviços de streaming de filmes, como o Netflix, todos os grandes estúdios de cinema trabalham em serviços baseados na nuvem. A Disney (da qual Steve Jobs, o lendário fundador e CEO da Apple, é o maior acionista individual), por exemplo, desenvolve o Keychest, tecnologia que permitira ao público pagar um preço único pelo acesso permanente a um filme em diferentes plataformas ou aparelhos com acesso a internet, como computador, vídeo game, celulares, etc. Na literatura, as coisas ainda engatinham em menor velocidade.

“Spotify, Hulu, Google Books, etc. são todos bons exemplos, mas nenhum deles é completo o suficiente. Alguém (adivinhe quem?) precisa se dedicar e juntar tudo isso sob um grande guarda-chuva, com uma única interface e um único lugar em que as pessoas possam administrar todo o seu conteúdo, sejam livros, filmes, músicas, etc. Atualmente  isto é tudo muito fragmentado e essas empresas estão trabalhando em produtos isolados”, afirmou ao Link Steve Jobs, dono da Apple. Quer dizer, o Fake Steve Jobs, personagem criado pelo jornalista norte-americano especializado em mídia e tecnologia Dan Lyons.

É, ele também parece saber muito bem o que diz. Não por acaso, durante um bom tempo houve quem achasse até no Vale do Silício que o Fake (falso, em inglês) era uma brincadeira do original. E o verdadeiro Jobs, o que será que está tramando? Uma pista foi dada no final de semana passado quando a Apple revelou a compra do serviço de streaming de música Lala. Não dúvide: todos os caminhos levam à nuvem.

MÍDIA FÍSICA
Sempre haverá mercado para a mídia física, nem que seja para colecionar. Prova disso é o revival do vinil nos últimos anos. Ainda há muita gente que prefere o suporte físico a uma cópia digital. E não será o streaming e a nuvem a pôr fim nisso. Ao menos, não por enquanto.

DOWNLOAD
Apesar da facilidade do streaming, nada leva a crer que o download acabará de uma hora pra outra. Até porque quase tudo que está na nuvem por ser baixado. E o download, de alguma forma, da às pessoas a sensação de “posse” sobre o produto.

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Leia original aqui ou aqui.

Matéria publicada no caderno Link do Estadão de 6 de dezembro de 2009 feita a quatro mãos por: @brunogalo e @rafael_cabral

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“O neuromarketing é uma revolução genuína para os negócios”

21 08 2010

Não é incomum o dinamarquês Martin Lindstrom (foto), de 40 anos, ser confundido com um jovem. Algo plenamente justificado em virtude das suas feições pueris. Mas o mal-entendido logo se desfaz quando ele, que é um dos mais respeitados consultores de marcas do mundo, começa a falar. Lindstrom foi escolhido pela revista Time, em 2009, uma das 100 pessoas mais influentes do planeta. Com uma lista de clientes como McDonald’s, Nestlé, Nokia e Microsoft, ele atualmente roda o mundo para atender empresas e falar sobre seu último livro A Lógica do Consumo (Buyology, na versão em inglês), em que mergulha na neurociência para descobrir por que afinal compramos algo – ou não. Ele que passa mais de 300 dias por ano longe da sua casa na Austrália, vem ao Brasil falar em um seminário da HSM no final de agosto. Em entrevista exclusiva à DINHEIRO, Lindstrom explica a relação entre marcas e religião e por que, na sua visão, o neuromarketing é uma revolução para empresas, anunciantes e até consumidores.

DINHEIRO – Qual é a lógica do consumo?
MARTIN LINDSTROM – A ideia principal por trás do meu livro é que todos somos consumidores e que quando fazemos algo, seja lá o que for, inclusive comprar, somos, em 85% das vezes, movidos por emoções, medos, pensamentos, necessidades, inseguranças, motivações e desejos subconscientes. Entender essas múltiplas forças que nos motivam a comprar ou não é o que chamo de lógica do consumo.

 

DINHEIRO – Foi por isso que decidiu estudar o cérebro dos consumidores?
LINDSTROM – Como consultor de branding (construção de marcas), estava obcecado por descobrir por que preferimos um determinado chocolate ou refrigerante, um certo modelo de carro ou computador, uma dada marca de roupa ou perfume ou um tipo de xampu ou creme de barbear. E percebi que os métodos tradicionais de pesquisa como observação e entrevistas não estavam funcionando. O problema é que nosso vocabulário é insuficiente para expressar sensações muito interiores. Então, imaginei que essa resposta teria que estar no nosso cérebro. E logo percebi que o neuromarketing, um intrigante casamento entre marketing e ciência, era a janela para a mente dos consumidores que tanto procurava. E descobri, que no fundo, somos ou queremos ser aquilo que compramos.

DINHEIRO – Mas como exatamente o neuromarketing captura a atividade cerebral? E como a associa as marcas?
LINDSTROM – Usamos principalmente um aparelho de ressonância magnética. Ele nos permite examinar o cérebro dos consumidores. Ao fazer isso, os neurocientistas podem determinar quais áreas específicas do cérebro estão trabalhando em um dado momento. E a partir de uma série de estudos anteriores, conseguimos identificar o que as pessoas sentem quando pensam ou vêem uma determinada marca ou produto. Isso é possível, pois já sabemos quais são as regiões do cérebro associadas a certos sentimentos, por exemplo.

DINHEIRO – E o que o estudo do cérebro dos consumidores revelou?
LINDSTROM – Muitas coisas. Para começar descobrimos que os consumidores são seduzidos pelos sentidos, muito mais do que imaginávamos. E a audição é o sentido que mais ativa o cérebro das pessoas. Isso é completamente novo. Aprendemos ainda que cada vez mais empresas vão apelar a referências religiosas e simbólicas para fortalecer suas marcas. E o melhor exemplo disso é a Apple, com seus rituais misteriosos, o lançamento de cada novo produto, ou ainda seus templos, as suas próprias lojas, e seu guru, Steve Jobs. Para muitas pessoas, a Apple é realmente como uma religião. Mas outras marcas como Harley Davidson e Disney também tentam fazer isso. Há também, acredito, ao menos, um exemplo brasileiro, a Natura. Ela criou todo um movimento em torno da sua marca, com algumas dezenas de milhares de mulheres vendendo os seus produtos em todo o País.

DINHEIRO – Fale mais sobre a relação entre marcas e religião. Como o senhor chegou a essas conclusões?
LINDSTROM – A pesquisa provou que, quando algumas pessoas quando expostas a marcas ou produtos como iPod, Ferrari, Nike, Guinness e Absolut, têm as mesmas emoções geradas por símbolos religiosos como cruzes, rosários, Buda, a Virgem Maria ou a Bíblia. Isso vai depender, é claro, da crença e fé de cada um. Além disso, essas marcas usam pilares das principais religiões, como rituais, um inimigo, visão clara, símbolos, mistério, apelo sensorial, grandiosidade e uma forte narração de histórias.

DINHEIRO – E por que a audição é tão importante para as marcas?
LINDSTROM – Apesar de estarmos cada vez mais rodeados por tela ou talvez justamente por isso, quando olhamos algo apenas a parte visual do nosso cérebro é ativada. Mas quando escutamos algo, todas as regiões ligadas aos cinco sentidos são ativadas. É por isso que, quando ouvimos uma música da nossa infância, por exemplo, nos voltam a mente tantas recordações visuais. São, sem dúvidas, descobertas revolucionárias para os negócios. A Intel, por exemplo, construiu sua marca em torno de um microjingle, que todos associamos a ela. Já a Microsoft compôs uma melodia que é tocada toda vez que ligamos ou desligamos o computador. E há muitos outros exemplos inesquecíveis de sons associados a marcas.

DINHEIRO – O senhor poderia explicar melhor por que considera o neuromarketing uma revolução para os negócios?
LINDSTROM – Primeiro, as pessoas devem entender que o neuromarketing não é um modismo. Há alguns céticos, é verdade, mas uma boa parte das maiores empresas norte-americanas já estão tirando proveito dessas técnicas de alguma forma. É algo que está se desenvolvendo muito rapidamente e veio para ficar. O neuromarketing é uma revolução genuína para os negócios. Afinal, temos hoje condição de entender o que acontece no nosso cérebro quando somos expostos a uma propaganda, marca ou produto. O cérebro não é mais uma caixa-preta. E isso é bom não só para as empresas, mas para os consumidores também. Quanto mais as empresas souberem a respeito das nossas necessidades e desejos subconscientes mais produtos úteis e significativos elas introduzirão no mercado. Reduzindo o número de fracassos. O mesmo vale para os anunciantes. E nós ao entendermos melhor o nosso comportamento irracional, vamos ter mais controle, e não menos sobre as nossas decisões de compra.

DINHEIRO – O senhor poderia citar mais alguns exemplos interessantes ou curiosos de empresas que entenderam a importância do neuromarketing?
LINDSTROM – Em algumas das suas atrações, a Disney já escaneou o cérebro das pessoas enquanto elas estavam naquelas imensas filas. Com isso a Disney queria desenvolver novas formas de diverti-las, para que elas não se sentissem como se estivem perdendo tempo e mantivessem constantemente um sentimento de felicidade dentro do parque. Outro exemplo é a Mercedes-benz, que ao desenvolver o Mini Cooper queria atingir as mulheres. E quando olhamos para a frente de um automóvel, usamos os mesmos circuitos neurais que processam rostos. Assim, a Mercedes o fez para parecer um rosto de bebê ou um ursinho de pelúcia, coisas com as quais as mulheres se sentem muito bem. E as mulheres realmente amam aquele carro.

DINHEIRO – Mas quais são os pontos negativos do neuromarketing?
LINDSTROM – Vejo o neuromarketing como uma ferramenta, talvez como um martelo que pode ser usado para o bem ou para o mal. O neuromarketing traz consigo o pontencial para o abuso. Por isso, é preciso estar atento para o seu uso político, por exemplo. Muitas empresas e até mesmo o governo usam o medo e nossas inseguranças para nos manipular. E o medo de perder algo importante ou não sermos bons o suficiente sem aquele determinado produto são coisas que funcionam. Mas eu levo tudo isso muito a sério, afinal também sou um consumidor e um cidadão e a última coisa que quero fazer é ajudar as empresas ou o governo a nos manipular ou a controlar nossas mentes. O público deve estar atento aos truques e táticas das empresas e anunciantes e assim se defender deles.

DINHEIRO – O senhor pode nos contar mais algumas verdades e mentiras que descobriu?
LINDSTROM – Claro. O merchandising, por exemplo, raramente funciona. E as logomarcas têm cada vez menos apelo. Já a publicidade subliminar nos influencia constantemente. O sexo dificilmente ajuda a vender. Por sua vez, os avisos nos cigarros sobre os riscos para a saúde, incentivam os fumantes. Ou que uma simples mudança no formato de um vidro de maionese, por exemplo, tornando-o menos gordinho, pode despertar nosso desejo de comprar aquele produto. De cada 100 propagandas, 92 são sumariamente esquecidas. E ainda que a Ford que gastou US$ 26 milhões patrocinando o American Idol (mais popular programa da TV americana) se tornou odiada por parte dos telespectadores. Para eles, ela apenas interrompia o andamento do programa.

DINHEIRO – Como a crise financeira mundial mudou a maneira como as pessoas compram?
LINDSTROM – Na prática, antes de comprar algum produto as pessoas têm procurado promoções e ofertas, Nos Estados Unidos, durante a crise, foi observado um expressivo aumento no acesso dos sites de comércio online. Num primeiro momento achamos estranho aquilo, mas logo descobrimos que as pessoas estavam pesquisando preços e não efetivamente comprando. Hoje os consumidores são muito mais cautelosos e menos gastadores.

DINHEIRO – Alguma empresa soube tirar proveito dessa mudança de comportamento?
LINDSTROM – A montadora coreana Hyundai, que cresceu nos Estados Unidos mesmo em meio a crise, garantiu aos consumidores que devolveria seu dinheiro dentro de um ano se eles fossem demitidos. E as vendas não só cresceram, como até onde sei, nenhum carro foi devolvido. Além disso, como o futuro muitas vezes é incerto, o passado tem se mostrado muito mais seguro. Por isso, marcas tradicionais associadas ao passado, como a Lego ou Louis Vuitton, se fortaleceram neste período.

Íntegra da entrevista publicada por @brunogalo na Revista ISTOÉ Dinheiro de 18 de agosto de 2010