Busca-se uma nova forma de literatura

17 08 2010

A editora inglesa Penguin cria projeto que usa ferramentas da web, como o Google Maps, para contar histórias

Blogueiros que se tornam autores. Escritores famosos, como João Ubaldo Ribeiro ou Mario Prata, que se aventuram pela web – ambos já escreveram livros pela rede. Ou até mesmo projetos como o da 20ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o Livro para Todos, são apenas alguns exemplos que mostram como a internet vem desempenhando um papel de destaque na revolução silenciosa que está criando novas formas de consumir e fazer literatura.

Porém, essas iniciativas acabam, em maior ou menor grau, sendo fiel ao modelo tradicional do livro de papel, que por sinal é o formato final desses trabalhos. Mas engana-se quem pensa que a literatura digital limita-se à criação ou reprodução de obras no formato papel.

Foi pensando em quebrar esse paradigma que a tradicional editora inglesa Penguin se uniu à empresa Six to Start, de games de realidade alternativa (ARG), para criar o We Tell Stories (wetellstories.co.uk). O projeto, que teve repercussão mundial, buscava recontar seis clássicos da literatura, entre eles As Mil e uma Noites, usando recursos digitais e da internet, como o Twitter e o Flickr, além de permitir ao leitor definir o rumo da trama, como, por exemplo, em Fairy Tales (conto de fadas).

“Queríamos criar algo inédito que usasse o máximo das possibilidades da internet e que não pudesse ser reproduzido no papel”, explica Jeremy Ettinghausen, editor de projetos digitais da editora.

A primeira história lançada, The 21 Steps (os 21 passos), por exemplo, é toda contada usando o Google Maps. Enquanto você acompanha a história de Rick, uma linha azul mostra os passos do personagem principal pelas ruas de Londres. “Escrever essa história, que foi pensada para ser lida online, foi um exercício fascinante”, conta o escritor escocês Charles Cumming, autor da adaptação de Os 39 Degraus, de John Buchan.

Ficou curioso? Vá até a página do projeto e descubra o por quê da última cena desse suspense online se passar no Rio de Janeiro. Todas as seis histórias – há uma sétima “escondida no site” envolvendo uma menina, chamada Alice, e um coelho – estão disponíveis gratuitamente, em inglês.

Para o jornalista e escritor Sergio Rodrigues, do blog Todo Prosa (www.todoprosa.com.br), o projeto “foi a iniciativa mais avançada na forma de misturar tantos recursos”. Rodrigues destaca entre as criações Your Place and Mine (o seu lugar e o meu). De autoria do casal Nicci Gerrard e Sean French, que trabalha em dupla e assina como Nicci French, o romance foi escrito ao vivo, durante cinco dias, uma hora por dia.

Em entrevista por e-mail, cinco dos autores do projeto disseram que iniciativas como o We Tell Stories não substituem a literatura tradicional e responderam à pergunta: o livro de papel vai morrer?

Entre as respostas: a mais pragmática foi a do inglês Toby Litt, de Slice (fatia). “O livro de papel sim. O livro, nunca.”

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Leia original aqui

Matéria publicada por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 11 de agosto de 2008

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‘A pirataria é sobretudo uma forma de divulgar o trabalho’, diz Paulo Coelho

17 08 2010

“Cibernético”. É assim que o escritor Fernando Morais, autor da biografia O Mago, sobre Paulo Coelho, o define. Em entrevista por e-mail, o escritor, que já vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o mundo, comentou o futuro do livro na era digital.

Como você enxerga a relação entre livros e internet?
Digamos que a internet é um meio onde se lê e se escreve, o que fez com que o livro se tornasse, hoje em dia, o que a música era para a minha juventude: o grande referencial de época.

Essa relação é positiva?
Extremamente. Está obrigando as pessoas a desenvolverem uma nova linguagem, fazendo com que leiam mais, já que precisam escrever. E escrevendo mais, tendo alternativas de publicação, etc.

Como a internet pode influenciar a literatura?
De diversas maneiras. Permitindo que se tenha acesso a muitos trabalhos que normalmente ficariam nas gavetas (hoje estão hospedados em servidores, ou seja, uma “gaveta” que qualquer um pode abrir) e democratizando a literatura, permitindo que todos possam expressar, à sua maneira, o que sentem.

Um dia podemos ver o fim do livro de papel?
Depende. Acho que, para a ficção, o livro continuará como a melhor alternativa pelos próximos 50 anos. Para livros técnicos, suportes eletrônicos serão mais usados, sobretudo por causa do peso e da quantidade de informações que pode ser armazenada.

O mercado de livros ainda vai sofrer por causa dessa “pirataria”?
Claro que não. É uma forma de divulgar o trabalho. Com a ajuda dos leitores, criei o site Pirate Coelho, que pode ser acessado do meu blog, http://www.paulocoelhoblog.com. Ali coloco todas as traduções que encontro na internet, facilitando o trabalho de piratear meus livros.

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Entrevista publicada por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 11 de agosto de 2008

Crédito da foto: paulo_coelho





Editores temem disseminação da pirataria na web

17 08 2010

“O grande ponto negativo da internet, no que diz respeito aos livros, é a possibilidade de que pessoas utilizem a rede para praticar a pirataria, violando direitos autorais e desestimulando a criação intelectual e artística.” A afirmação do diretor-geral da editora Objetiva, Roberto Feith, resume a opinião do setor sobre a disponibilização de obras não autorizadas na rede mundial de computadores.

Em contrapartida, o presidente do projeto Creative Commons no Brasil e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ronaldo Lemos, aponta que “a pirataria é um termo que foi apropriado pela indústria do conteúdo, utilizado especialmente como forma de conseguir mais proteção sobre o seu modelo de negócios”.

Quem nos exemplifica essa outra posição é o escritor inglês Matt Mason, autor de ‘The Pirate’s Dilemma: How Youth Culture Reinvented Capitalism’ (o dilema dos piratas: como a cultura jovem reinventou o capitalismo). “Quando surgiu o fonógrafo, os músicos, que ganhavam dinheiro tocando ao vivo, o viram como uma espécie de pirataria”, afirma. “Eles achavam que perderiam o seu ganha-pão com essa nova tecnologia.”

O tempo mostrou que eles estavam errados. Quase 141 anos depois da invenção do fonógrafo por Thomas Edison, a venda de música gravada é de grande importância para as gravadoras, assim como as apresentações ao vivo para os cantores. O livro de Matt Mason, publicado pela Penguin, está disponível para download gratuito no site thepiratesdilemma.com.

Mas é possível então concorrer com a “pirataria”? “A única maneira de combatê-la é fazer um bom produto com um preço justo”, afirma o francês Patrick Osinski, diretor geral da Plugme, selo de audiobooks, que cita como um exemplo bem-sucedido a loja virtual da Apple, a iTunes Store.

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Matéria publicada por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 11 de agosto de 2008





Kindle, da Amazon, inova, mas é barrado a não-americanos

17 08 2010

“As pessoas estão à espera de um ‘iPod para livros’”, diz o diretor executivo da editora Nova Fronteira, Mauro Palermo. “O iPod criou uma ruptura no mercado da música que ainda não aconteceu com os livros.” E o Kindle, da Amazon? “Ele é o walkman dos livros”, brinca.

“O livro do futuro tentará simular o livro como nós o conhecemos e amamos. Nem que seja só para acomodar obsoletos como eu”, disse Luis Fernando Verissimo.

Além de possuir uma tela fosca, que não emite luz e busca reproduzir uma folha de papel – muito diferente da de um laptop –, o Kindle é alimentado pelo vasto acervo da pioneira loja online Amazon, com mais de 145 mil títulos digitais (em inglês).

O aparelhinho, que custa US$ 359, pode guardar até 200 e-books ou audiolivros (o Kindle também permite ouvir as obras).

Mas, além da barreira do idioma, um dos problemas para a disseminação do aparelhinho pelo mundo é que a Amazon comercializa o Kindle apenas em seu site (http://tinyurl.com/thekindle) e para moradores dos EUA (é preciso ter um endereço no país).

Na hora de comprar os livros digitais, pessoas que não moram nos EUA voltam a enfrentar dificuldades. A publisher da “PC World”, Silvia Bassi, que comprou o seu durante uma viagem aos EUA, usa uma artimanha para alimentá-lo.

Ela compra um “gift card” (vale-presente) e presenteia a si mesma. Depois, usa esse crédito para comprar os livros. “A idéia é genial, e a tela é fantástica”, garante.

Especula-se que, em nove meses, 240 mil unidades tenham sido vendidas, embora a Amazon não divulgue números.

Para quem acha que o Kindle ainda não é tudo isso e aguarda o tal “iPod para livros”, uma notícia. No começo do ano, Steve Jobs disse, ao falar sobre o Kindle, que ele nasceu morto, já que, segundo o fundador da Apple, os americanos abandonaram a leitura.

Tratando-se do Sr. Apple, isso pode querer dizer duas coisas: 1) ele acredita no está falando e ponto final ou 2) ele está preparando um e-book reader matador para concorrer com o Kindle.

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Novo tipo de leitor está em formação, diz estudo

17 08 2010

Segundo pesquisa, 7% dos leitores já baixam livros na web, para coordenador é uma nova tendência; autores famosos concordam e divergem

O livro de papel vai acabar? A pergunta parece meio velha, ou pelo menos um lugar-comum, mas, como começo de conversa, é meio inevitável. Já as respostas, embora tenham sido na maioria negativas, podem surpreender: “Se me contassem há dez anos tudo o que temos hoje, eu não acreditaria. É impossível prever o que o futuro nos reserva”, disse ao Link o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro.

Já seu colega entre os imortais, o presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cícero Sandroni, é bem mais cético em relação a eventuais novidades. “O livro de papel continua inabalável em sua força e difusão, em nada incomodado pelas novas tecnologias”, disse.

O escritor paquistanês Mohsin Hamid, que participou do projeto pioneiro de literatura na web We Tell Stories (leia mais na pág. L8), também defende o formato tradicional: “Ele é uma tecnologia perfeita. Barato, durável, fácil de usar e não precisa de bateria.”

Mesmo o blogueiro Alessandro Martins, do site Livros e Afins (www.alessandromartins.com.br), entusiasta dos e-books (livros eletrônicos), reconhece que o papel segue imbatível: “Ainda me parece ser a melhor forma de transportar e consumir literatura.”

UM NOVO TIPO DE LEITOR?
Mas o escritor Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, lembra que vivemos em uma sociedade onde os hábitos e costumes estão em constante transformação. “As crianças se adaptam muito bem à tela do computador. Não me surpreenderia se, em breve, elas lessem livros inteiros no monitor”, observa.

Isso sem falar na possibilidade de consumir e-books em PDAs, celulares, videogames portáteis e, mais do que isso, em dispositivos específicos.

Embora a maioria das editoras brasileiras mais importantes não ofereça e-books, eles já começam a ganhar espaço. Atualmente, no Brasil, 7% das pessoas que costumam ler livros baixam obras gratuitamente da internet. O dado é da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro ao Ibope.

“Apesar de pequeno, esse percentual é surpreendente”, diz Galeno Amorin, diretor do Observatório do Livro e da Leitura e coordenador da pesquisa. “Está em formação um novo tipo de leitor”, analisa.

Leitores de gerações diferentes como Nelson Corrêa, de 49 anos, e Carlos Alberto Correa Filho, de 27 anos, concordam. “Costumo ler cerca de 15 livros por ano no Palm”, diz o primeiro. “Gosto da praticidade de carregar mais de um livro comigo e poder variar a leitura entre eles”, conta o segundo.

Lançado em novembro de 2004, o portal Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br) oferece gratuitamente mais de 75 mil títulos, entre eles clássicos de Machado de Assis e William Shakespeare (em português). Apenas dele já foram baixadas mais de 8,5 milhões de obras. Dante Alighieri, com a Divina Comédia, é o campeão, com mais de 500 mil downloads.

E há sites que disponibilizam gratuitamente – e na maioria das vezes sem autorização – obras escritas recentemente. Entre eles, o Viciados em Livros (www.viciadosemlivros.com.br), que recebe cerca de 80 mil visitas por mês, e o Projeto Democratização da Leitura (www.portaldetonando.com.br).

Lancelot, codinome de um dos fundadores do Viciados em Livros, diz que os livros disponíveis no site são destinados a leitores com baixo poder aquisitivo ou pessoas com deficiência visual, que só conseguem ler livros no computador ou com a ajuda de softwares específicos. “Também oferecemos livros esgotados e obras que não foram traduzidas”, disse.

AUTOPIRATARIA
Enquanto a maioria dos autores critica esse tipo de iniciativa, o mais bem-sucedido entre eles, ao menos em termos de vendagem, vai na direção oposta. Paulo Coelho criou o Pirate Coelho (piratecoelho.wordpress.com), onde disponibiliza arquivos piratas, inclusive traduções de seus best-sellers globais. “Ali coloco todas as traduções de livros meus que encontro na web, facilitando o trabalho de pirateá-los”, explica.

Coelho acredita que a rede “é livre e anárquica” e diz ser ser inútil lutar contra ela. Segundo o autor, a disponibilização gratuita de livros na web não prejudica a venda: “Pelo contrário, é uma forma de divulgar o trabalho.” Para ele, as pessoas podem gostar e, então, decidirem comprar o original na livraria mais próxima.

Mas sua opinião não encontra eco entre a maioria dos autores e editores ouvidos pelo Link. Fernando Morais, por exemplo, que acaba de lançar justamente uma biografia sobre Coelho, a quem classifica de “cibernético”, afirmou: “Eu sou mineiro, sou mais prudente. O Paulo é carioca, é mais atirado. Não faria isso que ele fez sem ter certeza de que não afetaria a venda dos meus livros.”

“O que faz o Paulo Coelho é uma boa idéia, se você for o Paulo Coelho”, disse Luis Fernando Veríssimo.

Para o diretor-geral da editora Planeta, César González de Kehrig, o negócio editorial “vai existir sempre e vamos nos adaptar. O fim do livro de papel seria ruim para as gráficas, não para as editoras”. “Nossa função independe do suporte”, diz o presidente da editora Record, Sérgio Machado. Será?

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Matéria publicada por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 11 de agosto de 2008





Um homem fascinado pela incrível capacidade humana de inovar

9 08 2010

‘Atrapalhado’ em meio as inovações tecnológicas, bibliófilo José Mindlin aposta na web para despertar jovens para a leitura

José Mindlin tem 94 anos e não passa um dia sem se debruçar sobre um dos livros da sua imensa biblioteca particular, a maior do Brasil. Ele não é um homem conectado, sequer faz uso direto da internet. Mas, reconhece que as novas tecnologias podem ter um papel importante na democratização do conhecimento e no despertar do interesse dos mais jovens pela leitura. Pensando assim, é que ele decidiu doar em 2006 todas as obras brasileiras da vasta coleção à Universidade de São Paulo (USP). A partir de então, ela passou a ser chamada de Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

“Nunca me considerei o dono desta biblioteca. Eu e Guita (esposa já falecida de Mindlin) éramos os guardiães destes livros que são um bem público”, pondera, “não tenho o fetiche da propriedade, tão pouco da exclusividade”. A doação deu origem ao projeto Brasiliana USP (www.brasiliana.usp.br) que apenas este ano começou a ganhar seus contornos mais interessantes com a digitalização dos títulos e sua posterior disponibilização gratuita na web. Assim, desde o mês passado, qualquer pessoa pode ler ou mesmo baixar boa parte do valioso acervo, que inclui obras raras e históricas, como as primeiras edições dos livros de Machado de Assis, que entraram no ar na semana passada.

Mindlin se mostra bastante animado com o avanço do projeto. “Sempre achei o livro um instrumento de formação de pessoas e quanto maior o número de beneficiados pela digitalização, melhor”, afirma. “Cresci com o livro de papel, e no meu caso o livro eletrônico não encontrou eco. Mas acredito que essa iniciativa pode ajudar a despertar o interesse nos leitores mais jovens”, diz, otimista, ele que começou a formar sua biblioteca aos 13 anos, quando adquiriu uma edição de 1740 de Discurso sobre a História Universal, escrito por Jacques-Bénigne Bossuet.

Além disso, atualmente, a USP constrói uma grande biblioteca que irá abrigar todos os mais de 20 mil títulos doados por Mindlin. Graças a internet e ao robô Maria Bonita , o acesso ao raro acervo será universalizado e sua preservação estará garantida.

Aos 15 anos, pouco depois de comprar o primeiro exemplar que daria origem a sua enorme coleção, Mindlin ingressou no Estado como redator. A partir dos 19 anos, quando entrou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, acabou deixando o jornal.

Hoje ele acompanha com atenção as dificuldades de muitos diários ao redor do mundo. Mindlin acredita que o conteúdo produzido pelos jornais é insubstituível, mas teme que as novas tecnologias possam acabar com as suas versões em papel. Quanto tempo isso ainda vai levar, entretanto, é uma pergunta sem resposta.

Livro, uma tecnologia perfeita
O mesmo vale para o livro de papel que, para Mindlin, é uma das tecnologias mais fascinantes e duradouras criadas pelo homem. Não temos o costume de enxergar os livros dessa forma, afinal ele está aí desde sempre – ou há mais de meio milênio. Sua contribuição para a nossa cultura e sua resistência – até mesmo à era digital – é inegável. Para Mindlin, o livro de papel é uma tecnologia difícil de ser superada: é um objeto relativamente barato, pode ser levado a qualquer lugar, não usa bateria e o manuseio é simples, não requer prática, tão pouco habilidade. Tudo isso, sem falar no prazer de folheá-lo, no fetiche do tato, do cheiro, no encantamento provocado pela parte gráfica, a diagramação, etc.

“Certa vez, uma pessoa insistiu nas inúmeras vantagens que o livro eletrônico oferece, e se propôs a fazer uma demonstração. Ela veio armada de todos os equipamentos necessários, mas quando apertou o botão de ligar, nada aconteceu. Ora, isso não é uma coisa que pode acontecer com o livro de papel”, sorri. “Hoje em dia a gente se sente meio atrapalhado com o volume de inovações que não param de surgir”, afirma, ele que nunca manuseou o leitor de livros eletrônicos da Amazon, o Kindle, mas tem curiosidade de conhecê-lo.

Nas palavras de Mindlin não há uma crítica ao novo, muito pelo contrário, ele se diz fascinado pela incrível capacidade humana de inovar.

E recorda com um misto de saudosismo e admiração quando conheceu o telefone, depois, o rádio e, mais tarde, a televisão. “Todos esses avanços foram para os simples mortais, entre os quais me incluo contra minha vontade, pois gostaria de viver mais, extraordinárias inovações que aboliram as distâncias, algo que antes era inimaginável.”

Maria Bonita, uma ‘leitora’ mais incansável que Mindlin

Enquanto o edifício na Cidade Universitária da USP, em São Paulo, que irá abrigar e preservar a vasta coleção doada por José Mindlin, não está pronto (a inauguração está prevista para julho de 2010), o trabalho de digitalização do acervo ocorre dentro da biblioteca particular do bibliófilo. O robô (na foto sendo observado por Mindlin), apelidado pela equipe de Maria Bonita (para fazer par com o servidor anteriormente nomeado de Lampião), é que toca o trabalho mais pesado e ao mesmo tempo mais cuidadoso.

O robô custou U$S 220 mil e é capaz de folhear e escanear livros raros e delicados sem estragá-los. Ele está trabalhando a todo vapor para que o valioso acervo de José Mindlin esteja o mais breve possível disponível na internet em sua totalidade. A técnica empregada é a mesma de projetos como o Google Books. Maria Bonita digitaliza cerca de 2,4 mil páginas por hora, o que equivale a mais ou menos 40 livros por dia. Há quase três meses repete incansavelmente a rotina. Apesar dos esforços, não há previsão da conclusão dos trabalhos. Mas Pedro Puntoni, coordenador, promete que a cada duas semanas, no máximo, irá mostrar alguma novidade. “Na semana que vem deve entrar no ar todo o acervo ligado ao Correio Braziliense (considerado o primeiro jornal do Brasil, de 1808)”, conta.

Para acompanhar a evolução da digitalização dos títulos acesse o blog da biblioteca em http://www.brasiliana.usp.br/blog. O projeto já digitalizou obras raras, como a terceira edição de Os Sertões, de Euclides da Cunha, os sermões do padre Antônio Vieira (em edições dos séculos XVII e XVIII) e o primeiro dicionário da língua portuguesa (do século XVIII).

A Brasiliana Digital já está no ar com mais de 5 mil títulos disponíveis para consulta ou download. Também é possível realizar buscas por título, nome do autor, data de publicação e, até mesmo, pelo conteúdo. A biblioteca online usa uma tecnologia de reconhecimento de caracteres. “A versão atualmente no ar é de teste, queremos melhorar a navegação com a ajuda das pessoas para torná-la mais estável e rápida”, conta Puntoni.

Após a conclusão da digitalização do acervo doado por José Mindlin, o projeto pretende se expandir para outras bibliotecas.

Leia também aqui.

Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 20 de julho de 2009, sete meses antes da morte de José Mindlin





“Sou a favor da pirataria. É um favor que me fazem”, diz escritor Marcelino Freire

3 08 2010

Marcelino Freire é autor, entre outros, do livro ‘Contos Negreiros’ (vencedor do Prêmio Jabuti 2006). É idealizador e organizador da Balada Literária, evento que reúne quase uma centena de escritores, nacionais e internacionais, pelo bairro paulistano da Vila Madalena e cuja quarta edição acontecerá de 19 a 22 de novembro. Freire mantém o blog eraOdito e também está no Twitter.

Atualmente, entre outras coisas, ele toca no microblog um projeto de twittar mil “contos nanicos”. Por enquanto, só tuitou 31, o último: “Eu nunca chamei minha mu mu mu mulher de vaca. Juro, doutor.” Mas garante que chega lá. Em entrevista, por e-mail, ele disse ser “a favor da pirataria”. E disse: “Quem sou eu para achar que alguém vai roubar um texto meu? É um favor que me fazem”. Alguns dos principais trechos da conversa, você confere aí embaixo:

“De futuro (dos livros) eu não entendo. Tenho preguiça para prever. O futuro é já. Tanta coisa acontecendo. Tantas ferramentas modernas que não dá tempo de acompanhar. Papel e tela, sim, conviverão. Não sou daqueles que espalham o medo e o terror – de que o livro vai acabar, de que a internet vai enterrar de vez a história impressa. Ora essa: vamos à frente, ver o que tem lá adiante. Troco a naftalina pelo que vem, ali, na esquina”, afirmou.

Mudando de assunto, ele disse: “Sou a favor da pirataria, de os livros circularem, de os textos serem lançados a quem quiser. Criação é, assim, patrimônio humano. Quem sou eu para achar que alguém vai roubar um texto meu? Para fazer o que com ele? As editoras que encontrem outras soluções, outros meios de garantir o pão… Por enquanto, pão às massas… Tudo de todos, já. É só apertar um botão. Dar um clique e eis a revolução”.

E continuou: “Quem disse que eu vivo de direitos autorais? Vivo de oficinas literárias que coordeno, de palestras que dou pelo Brasil, de artigos aqui e ali, de curadorias outras, de um ou outro dinheiro que pinga do teatro, etc. Por isso, repito: ‘quanto mais os meus contos circularem por aí, mas serei conhecido, mais as pessoas me chamarão para feiras e festas’. Tenho de lembrar sempre de que sou um autor contemporâneo, em um país em que poucos lêem. Se “roubarem” um conto meu, espalhá-lo por aí, é um favor que estão me fazendo…”.

“Agora, é claro, se eu descubro que uma Volkswagen, que uma Coca-Cola pegou indevidamente um texto meu, será minha glória… Com a indenização, pararei uns tempos só escrevendo coisas para, assim, o povo roubar”, garantiu.

E concluiu: “Quanto mais à literatura sair do casulo, melhor. Quanto mais o escritor sair da redoma, melhor. É preciso a literatura ir além, para fora das academias e agremiações. A literatura tem de estar circulando na rede, se comunicando de forma viva, pulsante. Gosto de ver textos circulando pelos quatro cantos do mundo. De soltar o verbo nos sites, vídeos, celulares… Aí há quem venha criticar: na internet há muito lixo. Se há, é porque produzimos lixo. Há lixo também nas bibliotecas institucionalizadas, nas livrarias, etc. Repito: vamos à frente. Que atrás não vem ninguém. O Machado de Assis agradece!”

Leia também aqui.

Entrevista publicada por @brunogalo no site do Link do Estadão de 10 de novembro de 2009.