Quando Michael Jackson ‘salvou’ a indústria da música…

15 11 2010

…ou se hoje o ‘inimigo’ é a internet, ontem era a fita cassete

Não é segredo para ninguém que nos últimos anos as grandes gravadoras foram obrigadas a reinventar o seu modelo de negócios para sobreviver na era da música digital. E, a internet e as novas tecnologias são frequentemente apontadas como as grandes responsáveis pela – atual – crise. Atual, porque as crises na indústria fonográfica são na verdade uma constante.

No final da década de 70, início dos anos 80, foi a vez de uma outra tecnologia, a fita cassete – acredite –, ser apontada como “culpada” pela retração nas vendas. Em 1981, quando as vendas despencaram 11,4% (e havia rumores de que no ano seguinte a queda seria ainda maior), os grandes selos afirmaram que o seu ponto de vista havia sido, enfim, comprovado.

Mesmo antes, entretanto, a indústria musical já se esforçava para estigmatizar a prática crescente de se gravar músicas em fita cassete. O auge dessas ações se deu com uma vasta campanha de publicidade que incluía o uso de uma caveira em forma de fita cassete e a frase: “A gravação caseira está matando a música. E isto é ilegal”. Leia mais sobre essa campanha aqui e veja paródias aqui eaqui.

Como um estudo da Cap Gemini Ernst & Young, de 2003, afirmou, “em vez de tirar proveito dessa tecnologia nova e popular, as gravadoras lutaram contra ela”. Quer dizer, se hoje o “inimigo” é a internet, na época era a fita cassete. Entretanto, para muitos analistas a queda nas vendas era em grande parte resultado da estagnação criativa dos principais selos.

Disco mais vendido da história
Foi em meio a esse período de crise que, em novembro de 1982, Michael Jackson lançou seu álbum “Thriller”, que se tornou um sucesso instantâneo e até hoje desfruta do título de disco mais vendido da história, com cerca de 100 milhões de cópias. O principal segredo de Jackson para driblar a crise estava em uma nova ferramenta de divulgação que então emergia com a recém nascida MTV e que ele soube usar como ninguém, o videoclipe.

Billie Jean, primeiro vídeo de um artista negro a ser regularmente exibido na MTV

O álbum “Thriller” é considerado o primeiro que usou de forma consciente essa nova mídia de promoção. Na verdade, Michael transformou os videoclipes, que antes eram vídeos meio toscos, em superproduções feitas por diretores famosos. Para (re)ver outros clipes do rei do pop acesse a sua página oficial no YouTube aqui.

Graças à repercussão dos vídeos de Michael, a MTV que era uma pequena emissora de televisão a cabo se tornou muito popular. E, por sua vez, o sucesso da MTV foi fundamental para que a indústria fonográfica tivesse uma retomada recorde nos anos que se seguiram. Assim, o argumento da indústria rapidamente se esvaziou e o congresso norte-americano não chegou a aprovar qualquer restrição do uso das fitas cassete.

Logo, não demorou até que boa parte dos artistas copiasse Jackson e também fizessem clipes mais elaborados. Até hoje, os videoclipes são uma das principais ferramentas de divulgação de um artista de uma grande gravadora. Não por acaso, entre vídeos engraçadinhos e Susan Boyle, os clipes de artistas populares, como Rihanna, Lady Gaga, Britney Spears, aparecem frequentemente entre os vídeos mais vistos do YouTube.

Leia também
A importância de Michael Jackson para a indústria… do cinema

Leia original aqui.

Post publicado no blog do Link do Estadão em 2 de julho de 2009 por brunogalo

Anúncios




Um dia, seu filho vai se sentir como você se sente

15 11 2010

Todas as crianças estão (ou querem estar) na internet e a usam com desenvoltura; daqui para a frente, elas devem transformar esse ambiente

“Se pudesse escolher, adoraria ser criança agora”, suspira o apresentador e blogueiro Marcelo Tas. Observador da relação dos pequenos com as novas tecnologias, ele se diz fascinado com as possibilidades de interação, participação e expressão do mundo atual. Para Tas, a linguagem da rede é muito parecida com o universo das crianças: fragmentado, espontâneo e não-linear pela própria natureza.”Ao contrário dos adultos, que são mais enquadrados pelos vícios e hábitos de linguagem, com os sentidos mais domesticados, as crianças estão abertas às (novas) experiências, sem preconceito”, defende.

Não por acaso, hoje, de um jeito ou de outro, as crianças estão – ou querem estar – na internet. A presença dos pequenos na rede é maciça e não para de crescer. Por aqui, de acordo com uma pesquisa da Turner Brasil Network do ano passado, 51% das crianças e jovens, entre 6 e 14 anos, acessam a web todos os dias. Segundo um estudo recente da Nielsen, nos Estados Unidos, enquanto o número total de usuários cresceu 10% entre 2004 e 2009, o de crianças, entre 2 e 11 anos, subiu 19%.

“Muita gente diz que a internet está nos tornando mais burros. De certa forma, isso é verdade. Desaprendi a decorar telefones, endereços, dados geográficos, datas. Mas tudo bem. Aprendi muitas outras coisas que compensam o que perdi”, diz o educador brasileiro Paulo Blinkstein. “Sempre foi assim na história da humanidade. Lembre-se que houve época que não havia escrita, e o que se valorizava era a memorização pura”, exemplifica.

“Enquanto o adulto vê a internet como um substantivo, a criança a vê como um verbo. Ou seja, uma ferramenta que permite a ela fazer o que deseja. E hoje, para formar uma frase, todos, não só as crianças, precisamos deste verbo”, acredita Volney Faustini, pesquisador da área. Para os pequenos, a tecnologia até parece invisível. O fascínio que elas despertam está muito mais nas suas possibilidades, do que nelas mesmas. Em suma, elas são um meio e não um fim em si. “O adulto é atraído pela ferramentas. A criança, pela história que elas contam”, analisa Tas.

Hoje, no entanto, pesquisar na internet, enviar e-mail, criar blog e postar vídeo no YouTube são coisas que as crianças já fazem e aprendem a fazer sozinhas. É preciso, portanto, estimulá-las a extrapolar esse modelo de publicação e de acesso a informação. Para Blinkstein, que é especialista no uso da tecnologia aplicada à educação, a disponibilidade instantânea de informação está tornando a educação tradicional cada vez mais obsoleta, deixando as crianças à deriva.

“Infelizmente, elas não aprendem a usar o seu tempo online para atividades mais profundas. A internet se vira só um passatempo, o que é trágico”, afirma. “Usar o computador como uma ferramenta de investigação cientifica profunda não é espontâneo, não se aprende sozinho. É preciso ter um professor muito bem preparado, materiais de qualidade e formas de avaliação aprofundadas. E, principalmente, a tecnologia permite centrar a educação no aluno, e não no professor”, explica Blinkstein.


INOVAÇÃO

Ah, sim. Se você chegou até aqui sem entender o porquê do título, responda: você já ficou surpreso – ou até mesmo assustado – com a desenvoltura e naturalidade que seu filho demonstra ao mexer com os equipamentos eletrônicos e o computador na sua casa? Fique tranquilo. Você não está sozinho e nem é o primeiro a ter essa impressão.

“Tudo que existe no mundo antes de nascermos é absolutamente natural. As novidades que surgem enquanto somos jovens são uma oportunidade e, com sorte, uma carreira a seguir. Tudo aquilo que aparece depois que você tem trinta anos, entretanto, é anormal, o fim do mundo como o conhecemos. Isso, até que tenhamos convivido com essa novidade por uns bons dez ou quinze anos, quando, enfim, ela começa a parecer normal”, definiu certa vez – e com rara precisão – Douglas Adams, autor inglês do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias.

ENTREVISTA

URS GASSER, professor 

Urs Gasser é professor do centro de Internet e Sociedade da Universidade de Harvard e co-autor do livro Born Digital: Undestanding the First Generation of Digital Natives (Nascidos digitais: entendendo a primeira geração de nativos digitais), amplo estudo sobre aqueles que nasceram após 1980. No geral, o livro é otimista quanto ao futuro da internet, “importante para formar cidadãos globais com espírito de inovação e colaborativismo”, mas critica a falta de segurança dos dados das crianças na rede.

Afinal, o que é um nativo digital?Usamos esse termo em um sentido metafórico. Ele descreve a população de jovens nascidos depois dos anos 1980 e que teve acesso às tecnologias digitais de uma maneira significativa. São as crianças e os adolescentes de hoje, que não conseguem imaginar a vida sem o Google ou a Wikipedia. É importante destacar que nem todas as crianças hoje são nativas digitais, já que existe uma exclusão digital muito grande e nem todas têm a oportunidade (ou a habilidade) de participar do ciberespaço.

A relação da geração pós-Napster com as leis de copyright pode ajudar a atualizar as leis de direitos autorais?
A resposta da Justiça para a cultura de compartilhamento hoje é a repressão. Quando essas crianças envelhecerem, no entanto, essas leis se tornarão mais brandas e se adaptarão a essa nova lógica. A ascensão dos Partidos Piratas na Europa é o começo desse desenvolvimento.

A criatividade das crianças esbarra nos interesses da indústria?
Às vezes. Não sabemos se a internet vai continuar sendo a plataforma aberta que conhecemos hoje, possibilitando a cultura do remix e o compartilhamento, pois há forças significativas que defendem uma versão mais controlada da rede, por causa de seus interesses. Isso sim pode prejudicar a criatividade. Estamos em uma encruzilhada. Não sabemos se a arquitetura da internet continuará a mesma, mas foi ela que propiciou a parte boa da cultura digital.

Com tantas fontes, as crianças digitais são mais críticas com aquilo que consomem?
A criança média, não. Porém, vemos que quanto mais conectada, mais ela está predisposta a checar em mais de uma fonte. Descobrimos uma regra: Quanto mais conectada a criança, mais discernimento ela tem.

Leia também
A geração que desenha nosso futuro
O futuro que os pequenos desenham hoje
Um dia, seu filho vai se sentir como você se sente

Leia mais aqui ou aqui.

Matéria de 12 de outubro de 2009 a seis mãos: @ana_freitas,@brunogalo@rafael_cabral





O futuro que os pequenos desenham hoje

15 11 2010

Como as crianças nascidas na era digital mudam tudo ao nosso redor

Comunicação
Falar e escrever no celular, usar comunicador instântaneo, ler sites e blogs: tudo isso vai contribuir para o desenvolvimento da inteligência comunicacional nas crianças. Apesar de alguns críticos dizerem que o uso de MSN pode afetar negativamente a capacidade dos pequenos de compreender expressões faciais, os educadores concordam que por causa da internet as crianças estão escrevendo e lendo mais. O caráter colaborativo da rede também incentiva a produção de conteúdo multimídia – teremos crianças escrevendo, gravando áudios e falando para a câmera cada vez mais cedo.

Cultura
O acesso a bens culturais, filmes, livros e músicas caminha para se tornar um serviço e não um produto específico. Para variar, é na música que este processo está mais avançado. Em 2008, 95% das músicas baixadas não tiveram direitos autorais pagos. Mas uma mudança na nossa relação com as canções está em curso neste momento. Em 2008, 52% dos jovens norte-americanos, entre 13 e 17 anos, preferiram ouvir músicas em sites de streaming gratuito, como MySpace, Pandora e Spotify, em que não se precisa baixar nada. Tudo é ouvido online.

Direito Autoral
Segundo uma pesquisa do canal Cartoon Network, duas em cada cinco crianças já trocaram arquivos pela web. Claro que isso muitas vezes esbarra na questão do copyright. Mas será que essa é uma noção que ainda será usada quando esses pequenos chegarem à vida adulta? Já nascidos digitais, eles são parte de uma geração acostumada à cultura do remix que foi popularizada com a internet e com sites como o pioneiro Napster. Para o pesquisador Urs Gasser, esse comportamento pode mudar não só as leis de direitos autorais, mas também redefinir o que é, afinal, ‘autoria’.

Política
Políticos estão percebendo a eficiência das ferramentas da web 2.0 para fazer campanha de um jeito diferente. Essas plataformas são dominadas pelos jovens, que por causa da troca rápida e multimídia de informações, têm capacidade maior de descobrir verdades e mentiras, se unir contra e a favor daquilo em que acreditam e apoiar candidatos e ideias com os quais se identificam. O primeiro exemplo desse novo engajamento aconteceu nas últimas eleições presidenciais norte-americanas: Barack Obama conseguiu levar às urnas milhões de jovens, num pleito em que o voto é facultativo.

Trabalho
No futuro as empresas serão menores, não existirá mais o conceito de carreira, os empregos vão acabar e o ócio criativo será total: trabalharemos só por prazer. Ao menos é isso que defende o professor Thomas Malone, especialista em trabalho do MIT. Pesquisas já mostram que os jovens estão batendo de frente com seus chefes por causa de diferenças culturais e de comunicação. E diante de funcionários acostumados a opinar livremente, não familiarizados com hierarquias e imposições, as estruturas empresariais serão forçadas a mudar drasticamente.

Cérebro
Pesquisas recentes em neurociência afirmam que a internet está mudando o cérebro das crianças. Apesar de o processo cognitivo que as leva a compreender melhor a linguagem digital ser plenamente entendido (é semelhante ao de aprender a língua mãe), ainda não se sabe exatamente como o uso da web vai mudar a massa cinzenta. De acordo com Gary Small, autor do livro iBrain, sobre as modificações que o cérebro está sofrendo com o uso da internet, fazer buscas no Google ativa uma área mais extensa do cérebro do que os pontos que são estimulados durante a leitura, por exemplo.

Leia também
A geração que desenha nosso futuro
O futuro que os pequenos desenham hoje

Leia mais aqui ou aqui.

Matéria de 12 de outubro de 2009 a seis mãos: @ana_freitas,@brunogalo@rafael_cabral





A volta do bolachão

13 11 2010

Em plena era digital, os velhos LPs de vinil ressurgem com força. No Brasil, a fábrica da Polysom é reaberta e quatro discos são lançados em março

Não poderia ser mais irônico. Ao longo do tempo, desde o fonógrafo até a era digital, com o iPod e os downloads, a história do consumo de música pode ser resumida como uma busca por tornar as canções cada vez mais acessíveis e disseminadas. Mas ao mesmo tempo em que o desgastado CD vive seu crepúsculo, o disco de vinil experimenta uma inesperada ressurreição.

Nos Estados Unidos, o bolachão, como é conhecido, tornou-se o formato que mais cresce na preferência do público. Desde 2006, as vendas praticamente triplicaram. Só no ano passado foram comercializados 2,5 milhões de LPs, o maior número desde que a Nielsen Soundscan iniciou esse acompanhamento em 1991. A partir de março, é a vez de o Brasil entrar nesta onda. A gravadora independente Deckdisc vai lançar quatro LPs. A primeira fornada dos novos vinis traz trabalhos de Pitty, Fernanda Takai, Nação Zumbi e Cachorro Grande.

O responsável pela volta dos antigos LPs é o empresário João Augusto, dono da Deckdisc e responsável pela reabertura da Polysom, atualmente a única fábrica do gênero na América Latina. Em 1995, João era vice-presidente da EMI e comandou o fim da produção de discos de vinil da gravadora. Agora, ele quer voltar a ganhar dinheiro com os antigos bolachões.

“Vamos atender todas as gravadoras com a fábrica de LPs”, afirma ele. Encomendas do Chile e da Argentina já foram feitas. A EMI, por exemplo, planeja lançar, em 2010, toda a discografia da Legião Urbana em vinil. A capacidade produtiva da fábrica é de até 40 mil unidades por mês, sendo 28 mil LPs e 12 mil compactos. O preço de cada disco deve ficar na casa dos R$ 80. Alto, é verdade.

Mas até agora a única opção era produzir os discos fora do Brasil. Neste caso, o custo para o consumidor ultrapassa os R$ 100. “Hoje em dia, as gravadoras precisam diversificar e se reinventar a todo instante”, acredita João Augusto. Ninguém defende que o vinil voltará a ser o principal suporte para a música desbancando o digital e a internet. Seu futuro, no entanto, parece hoje muito mais garantido e seguro do que o do próprio CD.

Matéria publicada por@brunogalo na revista ISTOÉ Dinheiro em 5 de março de 2010

Leia original aqui





“Estamos deslumbrados com o avanço tecnológico. Não questionamos mais nada”, diz Fred 04, do Mundo Livre S/A

30 08 2010

Fred Zero Quatro é vocalista e líder da banda Mundo Livre S/A, que praticamente fundou junto com a Nação Zumbi o movimento mangue beat há 15 anos. A Mundo Livre S/A, que nasceu em 1984, despontou na cola do Nação, em 1994, com o disco ‘Samba Esquema Noise’. Atualmente, Fred trabalha também como assessor técnico da Secretaria da Cultura do Recife. Em entrevista, por e-mail e telefone, Fred se revela pessimista com relação ao futuro da música na era digital e critica o que ele de “um culto deslumbrado a qualquer tipo de avanço tecnológico”. O resultado dessa conversa, você confere aí embaixo:

“Uma coisa bacana do circuito atual (permitido pela internet), é que um artista ou banda com trabalho reconhecido e público fiel não precisa mais se mudar de mala e cuia de sua cidade, abandonar seus amigos e família, pra tocar sua carreira. Já tentei morar em Sampa, fiquei um ano na Vila Madalena, mas não me adaptei. Cresci comendo peixe frito e caranguejo na praia. Hoje a banda mora em Recife e consegue tocar a carreira, com uma agenda permanente de shows em todo o Brasil,” diz.

“Agora mesmo ganhamos de presente um clipe sensacional de um fã que mora em BH, nunca vimos o cara, que está se formando em um curso de design ou artes visuais, sei lá, com a música “Estela, A Fumaça do Pajé Mitisubixxi”. Ainda não lançamos oficialmente, precisamos da autorização da (gravadora) Deck, mas já tá repercutindo bem no YouTube. Isso é só um exemplo (de como artistas estabelecidos podem tirar proveito das novas tecnologias)”, conta.

“Acho que (a troca de arquivos na rede) é a polêmica mais importante do momento histórico atual, e infelizmente parece que ainda não tem despertado muito interesse no meio intelectual brasileiro. Muitos escritores americanos e europeus têm publicado ensaios importantes, levantando questões urgentes, mas aqui há uma espécie de vazio a respeito. Tenho me sentido como se tivéssemos regredido ao estágio tribal, e estivéssemos todos deslumbrados com os novos apetrechos mágicos (espelhos? pólvora? bússolas?) que o homem branco tem despejado nas vitrines dos nossos shopping centers. Não questionamos nada”, afirma.

E continua: “No meu tempo de faculdade (Fred é jornalista), Marshall McLuhan, Umberto Eco, Jean Baudrillard e outros chacoalhavam as mentes jovens do planeta com reflexões essenciais sobre a aldeia global, a cultura de massa, a sociedade de consumo, etc. Hoje o ambiente urbano parece mergulhado numa espécie de fundamentalismo, um culto deslumbrado a qualquer tipo de avanço tecnológico. Não sei de onde vem esse meu defeito, mas eu nunca consegui me conformar com esse tipo de visão de curto prazo. “Uau, que massa, agora eu posso assistir a todos os filmes, ler todos os jornais e baixar milhares de músicas de graça!”

“E as pessoas ainda acham que isso tem a ver com ‘atitude’. Sinceramente, acho paradoxal, justo num momento em que o viés da sustentabilidade alcança status de prioridade absoluta de toda e qualquer agenda global. Alguns fãs da banda começam a me questionar sobre isso na estrada, e eu respondo com uma pergunta simples: com o provável desaparecimento das gravadoras, quem você acha que vai bancar a produção / gravação / mixagem / masterização de nossas novas músicas? O desmantelamento da indústria teria, para os evangelizadores da web, um efeito altamente positivo na medida em que provocasse o fim da parada de sucessos. Será?”

“Agora o Radiohead anuncia algo previsível, que já vinha se delineando como uma tendência óbvia: não pretende mais lançar álbuns, apenas faixas avulsas. Muitos analistas já deduzem, a partir disso, que podemos estar diante da morte do trabalho conceitual ou experimental, ou seja, de agora em diante toda e qualquer música nova tem que ser um novo ‘hit’, pelo menos na web. Isso, para mim, é o equivalente, na música, do que representa o conceito de ‘junkie food’ para a nutrição e a gastronomia.”

“Pirataria é o mesmo que comer num restaurante fino e sair correndo sem pagar a conta. Você se ilude que está sendo um ‘outsider’ ou ‘wildboy’, mas só está mesmo sacaneando com o pobre do garçon”, afirma.

“Existe um movimento por aí intitulado MPB (música para baixar). Acho simplório e equivocado. Não tenho nada contra a pessoa ir para um show, gravar trechos numa câmera qualquer, ou mesmo num celular, depois postar na web. Aí se trata de uma versão caseira e amadora da música. Aliás, esse movimento, se chamasse MDPB (música demo pra baixar), por mim tudo bem. Lembro de quando eu costumava baixar versões demo de jogos e softwares, que eram disponibilizados gratuitamente. Se me interessasse pela versão completa, comprava.”

“Só mais uma coisa sobre a internet: acho que defender o fim da indústria fonográfica equivale a decretar a morte do rock&roll, pelo menos se considerarmos a definição mais clássica do gênero: “uma forma de se ganhar muito dinheiro, em pouquíssimo tempo e com muito estilo”(Malcom Mclaren). Claro, nem todo mundo ficava rico com o rock, mas os que ficavam financiavam a máquina e motivavam a molecada a largar tudo e arriscar”, conclui.

Leia original aqui.

Post publicado no blog do Link do Estadão em 5 de outubro de 2009 por @brunogalo





Por que as coisas não mudam? Lawrence Lessig e a corrupção institucional

30 08 2010

Lawrence Lessig foi professor de direito da Universidade de Stanford (atualmente, no entanto, conduz suas pesquisas em Harvard), criador da licença Creative Commons, e uma das maiores autoridades no mundo em direitos autorais na era digital. Autor de livros seminais sobre o momento que testemunhamos, como ‘Cultura Livre’ e ‘Remix’ (inédito no Brasil). Para ele, e inúmeros outros estudiosos, as leis de direitos autorais estão desatualizadas e precisam ser mudadas. E mais: os argumentos que sustentariam essa mudança já estão claros.

“Precisamos atualizar a lei para que ela faça sentido no mundo digital. É isso o que deve ser feito, ao invés dessa guerra extrema contra quem usa as tecnologias digitais”, defendeu Lessig, em entrevista ao Link, no início do ano. Afinal, quando boa parte das pessoas conectadas está na ilegalidade, de quem é a culpa? Para Lessig, a culpa é da lei.

Assim, o interesse público deveria prevalecer sobre o interesse da indústria de conteúdo. Algo, que inclusive, já aconteceu em inúmeras oportunidades no passado. Para ficar em poucos exemplos, basta citar o rádio e o fonógrafo. Apesar de tudo isso, as coisas hoje simplesmente não mudam. Pensando nisso, Lessig conduziu uma ligeira, mas extremamente importante, mudança de rota nos seus estudos. Atualmente, concentra seus esforços em entender e explicar o que ele chama de corrupção institucional ou indústria do lobby. Em sua opinião, é essa a raiz de inúmeros problemas/impasses aparentemente insolúveis, como a questão do direito autoral, mas não só.

No vídeo abaixo (em inglês), intitulado ‘Corrupção Institucional’, ele explica de forma extremamente clara todo este impasse, que, segundo Lessig, tem implicações em problemas tão díspares quanto o do meio ambiente e o da saúde pública. Vale uma espiada!

Leia original aqui.

Post publicado no blog do Link do Estadão em 24 de novembro de 2009 por @brunogalo





Ter ou não ter? Eis a questão que o digital propõe

30 08 2010

“Você pagaria por algo que não vai ser seu?” é uma das questões mais levantadas pelos críticos da nuvem. Afinal, se os arquivos digitais ainda são mal vistos por aqueles que gostam da mídia física, como os puristas do vinil, muita gente também tem um pé atrás com o streaming e com o arquivamento online.

Ao transformar a cultura em serviço, a nuvem tiraria das pessoas a posse de livros, filmes e músicas — uma situação inédita para os consumidores. Mas não é exatamente isso que acontece quando compramos um ingresso de cinema, alugamos um filme na locadora, pagamos a mensalidade da TV a cabo ou sintonizamos o rádio?
“Eu ficaria triste se a mídia parasse de ser produzida em formatos que eu possa colecionar, como o do DVD, mas acredito que as pessoas não vão ter problemas em aceitar serviços que oferecem bibliotecas gigantes de cultura, às quais elas terão acesso irrestrito. Eu pago todo mês um pacote de canais de TV, por exemplo”, exemplifica o pesquisador norte-americano Henry Jenkins.

Já o estudioso da cultura na nuvem Patrik Wikström acha normal que as pessoas fiquem ressabiadas com a mudança. “Nos acostumamos a pensar que somos donos das mídias que consumimos. Como o computador permite que a gente guarde dados de uma maneira semelhante como fazemos com coleções de CDs ou DVDs, essa lógica foi importada para o download. A princípio, isso foi mais fácil de entender tanto pela indústria quanto pelos consumidores”, afirma.

É necessário um bocado de tempo para mudar o comportamento das pessoas e, ainda mais, o do mercado. Serviços que guardam músicas na internet existem pelo menos desde 2002, quando surgiu a Last.fm. Em um primeiro momento, no entanto, a indústria tentou lutar contra a facilidade que sites assim ofereciam. Até então gratuitos, Last.fm e a rádio online Pandora acabaram sofrendo com a pressão das grandes gravadoras e tiveram que começar a cobrar por conteúdo, perdendo grande parte da sua até então fiel base de ouvintes e quase toda sua relevância.

Para Wikström, as pessoas só aceitarão voltar a usar ferramentas de arquivamento online quando estas garantirem que elas terão “acesso irrestrito ao conteúdo, com baixo custo, a qualquer hora”, como se aqueles bens espalhados na nuvem de fato pertencessem a elas. “Acredito que as coisas estão mudando agora que a indústria percebeu que o modelo do iTunes não é o ideal para combater a pirataria e lucrar com a música digital. Já existem serviços na nuvem, como o próprio Grooveshark, que são bons tanto para o mercado quanto para os clientes”, finaliza.

LEIA TAMBÉM:
A ‘era iPod’ (2001-2009)

Calma, o iPod só morreu como símbolo

Com a “cloud music”, streaming já é, hoje, o rádio do futuro

Depois da música, é a vez dos filmes e livros

Todos os caminhos levam à nuvem

Porque a indústria prefere o streaming ao download

Ter ou não ter? Eis a questão que o digital propõe

Leia original aqui ou aqui.

Matéria publicada no caderno Link do Estadão de 6 de dezembro de 2009 feita a quatro mãos por: @brunogalo e @rafael_cabral