Computador não é o limite: YouTube quer TV e celular

30 08 2010

Cofundador do site que se tornou sinônimo de vídeos online, Chad Hurley veio ao Brasil na semana passada e afirma, categórico: “A internet vai matar a TV”

Quinta-feira, 27, no escritório do Google, em São Paulo, Chad Hurley, de 32 anos, co-fundador do YouTube, tem 30 minutos cronometrados para conversar com o Link. No País pela primeira vez, ele disse que veio para “estreitar os laços com o importante mercado brasileiro”.

Sentado no canto de uma sala de reunião, se reclina na cadeira enquanto mexe em um surrado iPhone. Curioso. Afinal, ele é funcionário do Google desde outubro de 2006, quando o gigante da busca pagou US$ 1,65 bilhão pelo então emergente site de compartilhamento de vídeos – e apenas um ano e meio após sua criação. E a companhia, em que trabalha (ele segue como principal executivo do YouTube), desenvolve um sistema operacional já disponível em alguns celulares, o Android. Logo, ele põe o aparelho sobre a imensa mesa que ocupa quase todo o espaço, com sua tela sensível ao toque virada para baixo.

Quer dizer, então, que ele prefere o celular da concorrência? Antes de chegarmos a este ponto, ele começa a falar sobre seus planos para melhorar sua posição no mercado de vídeo online. O YouTube é hoje praticamente sinônimo deste mercado e detém cerca de 70% do segmento, mas ainda não é um negócio rentável.

É difícil acreditar que o YouTube tenha só pouco mais de quatro anos. Nesse período, ele mudou por completo a forma como consumimos vídeo na internet, a ponto de ser difícil lembrar como era antes dele.

Mais importante: deixou de ser conhecido apenas pelos seus vídeos engraçadinhos e se tornou uma – senão a mais – poderosa ferramenta de divulgação e promoção no crescente mercado digital.

“A internet matará a televisão, não o YouTube”. A frase de efeito foi dita no dia anterior, em sua palestra na conferência Digital Age 2.0, que foi realizada em São Paulo na semana passada. “Nos próximos anos, quando todas as TVs estiverem ligadas à internet, a ideia de assistir a um programa no horário determinado pela emissora estará morta”, profetizou antes de dizer que a mídia TV só serviria para veicular eventos ao vivo.

Existe, entretanto, ao menos, um grande problema na trajetória meteórica de sucesso do YouTube. O site, que em sua origem chegou a ser comparado ao Napster, pioneiro na distribuição de conteúdo pela web (no caso, música), simplesmente não dá dinheiro.

Quando isso vai mudar? “Essa é uma grande questão”, sorri. “Mas há muito exagero no que sai na imprensa. Mesmo com a crise econômica, o último trimestre foi o melhor da nossa história”, diz, sem revelar números, o executivo que aposta em uma mistura entre vídeos amadores cada vez melhores e produções profissionais.

Para tornar o YouTube lucrativo, Hurley, que garante não sofrer qualquer tipo de pressão por parte do Google para reverter essa situação, aposta em diferentes modelos de negócio para diferentes tipos de conteúdo. Isso não quer dizer que o site passará a cobrar dos usuários, mas sim criar melhores formas de espalhar a publicidade, tornando-o mais atraente para os anunciantes, bem como servir como plataforma para a compra de alguns vídeos específicos. Dois dias antes, o YouTube havia anunciado que irá começar a compartilhar uma parte da sua receita de publicidade com os usuários que postarem os vídeos mais populares do site.

A iniciativa faz parte de uma estratégia do site para manter sua relevância a longo prazo. “Tenho orgulho do site que ajudei a construir, mas ainda temos bastante a fazer. A experiência de uso do YouTube é muito aleatória, trabalhamos para envolver mais o público, melhorando a interface com o usuário e oferecer uma experiência completa do site em outras plataformas cruzadas , como o celular e a TV”, afirma.

Perto do final da entrevista, a inevitável pergunta sobre seu celular da Apple. Desconfiado, diz: “O iPhone não é ruim. Já o Android ainda é novo e tem muitos fãs no YouTube”, diz. “Pessoalmente, estou sempre conectado, e o iPhone oferece uma experiência mais completa do que os modelos que possuem o Android.” E é um funcionário do Google que diz isso…

Aplicativos

2005
Geotagging, widget para blogs com vídeos de determinadas tags, vídeos públicos e privados e a função ?embedding? foram algumas das funções implantadas.

2006
O site apresenta a possibilidade de assinar RSS por categorias, melhora a busca, permite a personalização de perfis, cria a vídeo-resposta e a conta Director.

2007
Menus ficaram mais práticos e o espaço para vídeos, maior; além de integrar-se ao Google Maps.

2008
Surge a função de subir vídeos em HD, a ?página de confirmação de idade? antes dos vídeos considerados impróprios, as anotações e as legendas em vídeos.

2009
No ano do 3D, o YouTube não poderia ficar de fora. Agora, os usuários podem gravar e fazer upload de vídeos filmados com essa tecnologia.

Destaques

2005
O site é criado em fevereiro. O primeiro vídeo entra no ar em abril. E o serviço é lançado em novembro. Em um mês atinge marca de 3 milhões de vídeos vistos por dia.

2006
É comprado pelo Google por US$ 1,65 bilhão; site é citado como uma das empresas que consagraram a web 2.0 como a “pessoa do ano”, segundo a revista Time.

2007
Segue crescendo mas ano é morno, na opinião de Chad Hurley. O clipe de “Never Gonna Give You Up”, do cantor Rick Astley, torna-se uma pegadinha popular entre internautas.

2008
Vídeo “Yes We Can” feito com discursos de Barack Obama e protagonizado por várias personalidades torna-se um dos primeiros e marcos online da campanha presidencial do então candidato democrata.

2009
Susan Boyle torna-se uma celebridade mundial após ter sua participação em um programa de calouros inglês colocada no site. Uso político do site continua com um enxurrada de vídeos sobre a eleição no Irã.

Foto de Joi no Flickr.

Leia original aqui.

Perfil publicado no caderno do Link do Estadão em 31 de agosto de 2009 por@brunogalo

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Sempre sonhando, sempre conectado

8 07 2010

Um dos principais escritores de sua geração – e autor do livro que deu origem ao filme ‘Coraline’ –, Neil Gaiman é onipresente online

Imagine um sujeito que em meio a um sonho mais interessante pensa, ainda dormindo, como aquela situação merecia um post no seu perfil do Twitter. E, ainda no sonho, começa a procurar pelo seu celular – no caso um G1, da HTC (o primeiro com o festejado sistema operacional desenvolvido pelo Google, o Android. E, que segue ainda inédito no Brasil). Ah, não preciso nem dizer que além de meio “sonhador”, nosso personagem também é super conectado.

E aí, já imaginou? A anedota descrita acima é verdadeira e seu protagonista atende pelo nome de Neil Gaiman, premiado escritor britânico que começou nos quadrinhos e hoje escreve livros e filmes. Sua vasta obra revela um interesse pessoal por temas sombrios e ocultos, mas principalmente uma predileção pelos sonhos. Não por acaso, a cultuada série Sandman, um dos seus trabalhos mais famosos – e primeira obra em quadrinhos a ganhar um prêmio literário, o World Fantasy Award, de 1991 – contava a história de Morpheus, o senhor dos sonhos, aquele que reina no mundo onírico para onde todos vamos quando… sonhamos.

Entretanto, o que seus textos não revelam é que Gaiman é um fanático por gadgets (ele coleciona iPods e computadores, e aposentou o seu iPhone assim que foi lançado o G1, afinal: “todo mundo tem o telefone da Apple, então eu tenho um Google Phone”, justifica). E, muito mais importante do que isso, ele é também um grande entusiasta das inúmeras possibilidades de interação online com seus fãs. “A internet parece criar uma ilusão de que somos todos íntimos e de que estamos mais próximos”, disse Gaiman ao Link, em entrevista por telefone.

O escritor mantém um blog (journal.neilgaiman.com), que recebe mais de um milhão de visitantes únicos por mês, há oito anos. Mas, atualmente, ele anda mesmo impressionado é com o Twitter, onde criou seu perfil em segredo há apenas dois meses e já é seguido, de perto, por mais de 26 mil fiéis: “Percebo que nele (www.twitter.com/neilhimself), eu tenho muito mais poder e responsabilidade do que no meu blog. E isso é algo que eu nunca havia imaginado”, afirmou.

Gaiman fez essa observação influenciado pela reação inflamada de boa parte de seus seguidores, no popular site de microblog. Isso, após um post seu no Twitter sobre reportagens que colocavam o cineasta Tim Burton (A Fantástica Fábrica de Chocolate) como diretor da animação em “stop-motion” Coraline (que estreou na sexta-feira, 13, no País), baseada em um livro infanto-juvenil de sua autoria. O longa é dirigido, na verdade, pelo americano Henry Selick, do cultuado O Estranho Mundo de Jack, de 1993 – este sim produzido por Burton, o que deve ter originado o tal equívoco. “As pessoas estão vendo tudo e é preciso aprender a usar isso a seu favor”, observou o autor sobre o ocorrido.

ROCK STAR

O investimento maciço e inteligente em ações online fez com que Gaiman se tornasse não só um dos escritores de ficção fantástica mais lidos do mundo, mas também uma espécie de “rockstar” da literatura, capaz de mobilizar uma multidão. Em 2008, na sua última visita ao Brasil, durante a 6ª Festa Literária de Paraty, a Flip, não foi diferente. Por mais de cinco horas, ele atendeu pacientemente cerca de 600 fãs.

Ainda no ano passado, Gaiman convenceu a sua editora a registrar a turnê de divulgação de seu novo livro, The Graveyard Book (ainda não editado no País). Na página há vídeos gratuitos de Gaiman lendo o livro de forma integral (www.mousecircus.com/videotour.aspx). Achou pouco? Ainda, no site da sua editora é possível ler digitalmente cerca de 20% deste e de vários outros dos seus títulos, como Coraline, Deuses Americanos, etc. Este último livro por sinal esteve disponível na íntegra durante um mês, após uma votação popular no site oficial de Gaiman (www.neilgaiman.com). A iniciativa fez a vendagem dos livros de Gaiman crescer.

De alguma forma, Gaiman se assemelha ao brasileiro Paulo Coelho, quando o assunto é afinidade com as novas tecnologias. Coelho foi até um pouco mais além, ao criar um blog em que disponibiliza links para arquivos piratas de toda a sua obra, o Pirate Coelho (piratecoelho.wordpress.com).

O fato é que queiram – ou não – as editoras, os livros de Gaiman e de inúmeros outros autores estão disponíveis na rede – ainda que de forma ilegal. “O perigo não está em livros serem lidos de graça. Mas, neles não serem lidos”, ponderou Gaiman. Sábias palavras.

‘Coraline’ sai do trivial na internet

Atualmente, qualquer filme é divulgado pela web. Por isso, o negócio é saber se diferenciar oferecendo algo novo. A animação em “stop-motion” (técnica que utiliza bonecos, figurinos e cenários reais, mas em miniatura), Coraline se saiu bem no quesito.

Além de ser a primeira produção do gênero feita em 3D, o filme, que conta a mágica e assustadora história de uma corajosa menina de cabelos azuis com apenas 11 anos, soube usar de forma bastante criativa as possibilidades abertas pela rede – mas, não só elas.

De alguma forma, a campanha de marketing precisava mostrar que o filme era muito mais do que apenas uma animação para crianças. Assim, enigmas virtuais, ações interativas em painéis espalhados por metrópoles americanas, banners online hilários, blogs falsos, um site incrível (www.coraline.com), e até um modelo de tênis da Nike exclusivo foi criado, tudo para ajudar na divulgação.

O objetivo nas palavras de Phil Knight, presidente do estúdio Laika, que produziu o filme, era: “reinventar o jeito de se divulgar um filme”. Um vídeo disponível no YouTube em http://tinyurl.com/czchur, ajuda a entender toda a criativa campanha. E, não há como discordar: eles mandaram muito bem. Juntas, todas as ações refletiam a natureza única do projeto.

Não deixe de ver ainda no popular site de vídeos, alguns clipes (destaque para http://tinyurl.com/d4etg8) que ajudam a entender a singularidade dessa bela produção feita de forma artesanal.

Que, na opinião de Neil Gaiman, resultou em “um filme maravilhoso”. E é mesmo.

Leia também aqui.

Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 16 de fevereiro de 2009.