Kindle, da Amazon, inova, mas é barrado a não-americanos

17 08 2010

“As pessoas estão à espera de um ‘iPod para livros’”, diz o diretor executivo da editora Nova Fronteira, Mauro Palermo. “O iPod criou uma ruptura no mercado da música que ainda não aconteceu com os livros.” E o Kindle, da Amazon? “Ele é o walkman dos livros”, brinca.

“O livro do futuro tentará simular o livro como nós o conhecemos e amamos. Nem que seja só para acomodar obsoletos como eu”, disse Luis Fernando Verissimo.

Além de possuir uma tela fosca, que não emite luz e busca reproduzir uma folha de papel – muito diferente da de um laptop –, o Kindle é alimentado pelo vasto acervo da pioneira loja online Amazon, com mais de 145 mil títulos digitais (em inglês).

O aparelhinho, que custa US$ 359, pode guardar até 200 e-books ou audiolivros (o Kindle também permite ouvir as obras).

Mas, além da barreira do idioma, um dos problemas para a disseminação do aparelhinho pelo mundo é que a Amazon comercializa o Kindle apenas em seu site (http://tinyurl.com/thekindle) e para moradores dos EUA (é preciso ter um endereço no país).

Na hora de comprar os livros digitais, pessoas que não moram nos EUA voltam a enfrentar dificuldades. A publisher da “PC World”, Silvia Bassi, que comprou o seu durante uma viagem aos EUA, usa uma artimanha para alimentá-lo.

Ela compra um “gift card” (vale-presente) e presenteia a si mesma. Depois, usa esse crédito para comprar os livros. “A idéia é genial, e a tela é fantástica”, garante.

Especula-se que, em nove meses, 240 mil unidades tenham sido vendidas, embora a Amazon não divulgue números.

Para quem acha que o Kindle ainda não é tudo isso e aguarda o tal “iPod para livros”, uma notícia. No começo do ano, Steve Jobs disse, ao falar sobre o Kindle, que ele nasceu morto, já que, segundo o fundador da Apple, os americanos abandonaram a leitura.

Tratando-se do Sr. Apple, isso pode querer dizer duas coisas: 1) ele acredita no está falando e ponto final ou 2) ele está preparando um e-book reader matador para concorrer com o Kindle.

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Leia original aqui

Matéria publicada por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 11 de agosto de 2008

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Novo tipo de leitor está em formação, diz estudo

17 08 2010

Segundo pesquisa, 7% dos leitores já baixam livros na web, para coordenador é uma nova tendência; autores famosos concordam e divergem

O livro de papel vai acabar? A pergunta parece meio velha, ou pelo menos um lugar-comum, mas, como começo de conversa, é meio inevitável. Já as respostas, embora tenham sido na maioria negativas, podem surpreender: “Se me contassem há dez anos tudo o que temos hoje, eu não acreditaria. É impossível prever o que o futuro nos reserva”, disse ao Link o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro.

Já seu colega entre os imortais, o presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cícero Sandroni, é bem mais cético em relação a eventuais novidades. “O livro de papel continua inabalável em sua força e difusão, em nada incomodado pelas novas tecnologias”, disse.

O escritor paquistanês Mohsin Hamid, que participou do projeto pioneiro de literatura na web We Tell Stories (leia mais na pág. L8), também defende o formato tradicional: “Ele é uma tecnologia perfeita. Barato, durável, fácil de usar e não precisa de bateria.”

Mesmo o blogueiro Alessandro Martins, do site Livros e Afins (www.alessandromartins.com.br), entusiasta dos e-books (livros eletrônicos), reconhece que o papel segue imbatível: “Ainda me parece ser a melhor forma de transportar e consumir literatura.”

UM NOVO TIPO DE LEITOR?
Mas o escritor Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, lembra que vivemos em uma sociedade onde os hábitos e costumes estão em constante transformação. “As crianças se adaptam muito bem à tela do computador. Não me surpreenderia se, em breve, elas lessem livros inteiros no monitor”, observa.

Isso sem falar na possibilidade de consumir e-books em PDAs, celulares, videogames portáteis e, mais do que isso, em dispositivos específicos.

Embora a maioria das editoras brasileiras mais importantes não ofereça e-books, eles já começam a ganhar espaço. Atualmente, no Brasil, 7% das pessoas que costumam ler livros baixam obras gratuitamente da internet. O dado é da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro ao Ibope.

“Apesar de pequeno, esse percentual é surpreendente”, diz Galeno Amorin, diretor do Observatório do Livro e da Leitura e coordenador da pesquisa. “Está em formação um novo tipo de leitor”, analisa.

Leitores de gerações diferentes como Nelson Corrêa, de 49 anos, e Carlos Alberto Correa Filho, de 27 anos, concordam. “Costumo ler cerca de 15 livros por ano no Palm”, diz o primeiro. “Gosto da praticidade de carregar mais de um livro comigo e poder variar a leitura entre eles”, conta o segundo.

Lançado em novembro de 2004, o portal Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br) oferece gratuitamente mais de 75 mil títulos, entre eles clássicos de Machado de Assis e William Shakespeare (em português). Apenas dele já foram baixadas mais de 8,5 milhões de obras. Dante Alighieri, com a Divina Comédia, é o campeão, com mais de 500 mil downloads.

E há sites que disponibilizam gratuitamente – e na maioria das vezes sem autorização – obras escritas recentemente. Entre eles, o Viciados em Livros (www.viciadosemlivros.com.br), que recebe cerca de 80 mil visitas por mês, e o Projeto Democratização da Leitura (www.portaldetonando.com.br).

Lancelot, codinome de um dos fundadores do Viciados em Livros, diz que os livros disponíveis no site são destinados a leitores com baixo poder aquisitivo ou pessoas com deficiência visual, que só conseguem ler livros no computador ou com a ajuda de softwares específicos. “Também oferecemos livros esgotados e obras que não foram traduzidas”, disse.

AUTOPIRATARIA
Enquanto a maioria dos autores critica esse tipo de iniciativa, o mais bem-sucedido entre eles, ao menos em termos de vendagem, vai na direção oposta. Paulo Coelho criou o Pirate Coelho (piratecoelho.wordpress.com), onde disponibiliza arquivos piratas, inclusive traduções de seus best-sellers globais. “Ali coloco todas as traduções de livros meus que encontro na web, facilitando o trabalho de pirateá-los”, explica.

Coelho acredita que a rede “é livre e anárquica” e diz ser ser inútil lutar contra ela. Segundo o autor, a disponibilização gratuita de livros na web não prejudica a venda: “Pelo contrário, é uma forma de divulgar o trabalho.” Para ele, as pessoas podem gostar e, então, decidirem comprar o original na livraria mais próxima.

Mas sua opinião não encontra eco entre a maioria dos autores e editores ouvidos pelo Link. Fernando Morais, por exemplo, que acaba de lançar justamente uma biografia sobre Coelho, a quem classifica de “cibernético”, afirmou: “Eu sou mineiro, sou mais prudente. O Paulo é carioca, é mais atirado. Não faria isso que ele fez sem ter certeza de que não afetaria a venda dos meus livros.”

“O que faz o Paulo Coelho é uma boa idéia, se você for o Paulo Coelho”, disse Luis Fernando Veríssimo.

Para o diretor-geral da editora Planeta, César González de Kehrig, o negócio editorial “vai existir sempre e vamos nos adaptar. O fim do livro de papel seria ruim para as gráficas, não para as editoras”. “Nossa função independe do suporte”, diz o presidente da editora Record, Sérgio Machado. Será?

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Matéria publicada por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 11 de agosto de 2008





Será que o futuro do livro é multimídia?

16 01 2010

Às vésperas da Bienal do Livro, o Link entrevista editores, autores e leitores para saber como cada um deles veem a literatura na era digital

Cícero não abre mão do papel. Já Alessandro é um entusiasta dos e-books. Enquanto Carlos Alberto adora ler no PlayStation Portátil (PSP). E Nelson prefere seu Palm TX. Silvia, por sua vez, apaixonou-se pelo Kindle. E Laurentino gosta de “ouvir” um bom livro em seu iPod.

Todos têm em comum o amor pela literatura, mas cada um a consome por meio de uma tecnologia diferente. A mais antiga delas, o livro de papel, não dá sinais de esgotamento, como aconteceu com o CD. Mas, aos poucos, novas formas de ler e fazer literatura começam a ganhar força.

Apontada como incômoda por muitas pessoas, a leitura de livros em equipamentos eletrônicos não pensados para esse fim já é uma realidade. As pessoas lêem e-books no laptop, no Palm, no PSP e até no celular (o iPhone, por exemplo, possui um aplicativo para esse fim). Isso sem contar os audiobooks e os dispositivos específicos, os “e-books readers”, como o Kindle, da Amazon, e o Sony Reader.

“As pessoas se adaptam à mudança com uma velocidade muito grande. Enquanto o meio demora a percebê-la”, pondera José Alcides Ribeiro, professor do curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e doutor em comunicação e semiótica. É uma revolução silenciosa. Mas que promete transformar o modelo de negócios das editoras. Aqui no Brasil elas parecem pouco se preocupar com essa nova realidade e afirmam que estão bem das pernas.

Aproveitando a 20ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que começa na próxima quinta-feira, dia 14, no Anhembi, o Link foi conferir de perto como anda a relação entre literatura e tecnologia. Entrevistamos autores, editores, especialistas e pesquisadores, além, é claro, de pessoas que adoram ler.

E, por falar em Bienal, ela refletirá as possibilidades abertas pela web. Quem nos conta a novidade é Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que organiza o megaevento. “Criamos para essa edição o Livro de Todos (www.livrodetodos.com.br), com o objetivo de aproximar os internautas, especialmente os jovens, da leitura e da escrita, além de desmistificar a idéia de que internet e livros não combinam”, conta.

O projeto de criação coletiva feito pela web foi acessado por 14 mil pessoas entre os dias 16 de maio e 16 de junho. O resultado final, que contou com a colaboração de 173 autores, pode ser lido no próprio site. A versão em papel será lançada durante a Bienal.

APRENDER COM O ERRO ALHEIO
“A indústria do livro não pode repetir o erro da indústria fonográfica”, afirma o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, que narra de forma jornalística a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, há 200 anos.

Mas, afinal, qual o erro a que Laurentino se refere? Em poucas palavras: subestimar a internet e as novas tecnologias. Nos últimos anos o mercado de música vem sendo obrigado a reinventar o seu modelo de negócio para sobreviver na era da música digital.

Para o diretor-geral da editora Ediouro, Luis Fernando Pedroso, ainda não é a hora de investir em e-books no País. E quando será o momento? “Esperamos estar atentos para identificá-lo”, diz. “Não acredito na leitura de livros tradicionais pelo computador ou celular”, afirma Pedroso, que prepara para a Bienal o lançamento de um novo selo de audiobooks.

Já o diretor-geral da editora Objetiva, Roberto Feith, afirma que “a venda de livros via download é uma possibilidade interessante, que no futuro não muito distante vai conquistar uma fatia do mercado”.

Enquanto, as editoras brasileiras estudam o melhor momento para entrar nesse filão, as gravadoras ainda hoje pagam o preço pela demora em abraçar o digital. Laurentino acredita que as editoras de livros estão de certa forma cometendo o mesmo erro. “Não é mais possível nos comunicarmos por uma única mídia, precisamos ser multimídia”, diz.

E como as editoras podem ser multimídias? Inúmeras são as possibilidades: de audiobooks e marketing na web a e-books e sites que complementam a experiência do leitor do livro de papel.

Um bom exemplo desse último caso é o site do livro Vale Tudo (www.objetiva.com.br/valetudo), sobre Tim Maia, do escritor e produtor musical Nelson Motta. Lá é possível ouvir, nas versões originais, todas as músicas citadas na biografia, vídeos e um álbum de fotos do cantor desde bebê. Tem também uma seção, Tim e Eu, onde as pessoas contam as suas experiências com o cantor. “O site dá vida e brilho ao trabalho”, diz Motta. “Com ele o livro se torna muito mais interessante, acaba sendo uma ‘obra aberta’, sem hora para terminar”, conclui.

Há ainda autores que interagem de forma inédita com o seu público como, por exemplo, Paulo Coelho. Ele afirma passar diariamente cerca de três horas online interagindo com os seus leitores, que chegam a lhe enviar mais de mil e-mails por dia. Leia na página L7 entrevista com o brasileiro que mais vende livros em todo o mundo.

Para o escritor Fernando Morais – autor de Olga, Chatô – O Rei do Brasil e O Mago, o último justamente uma biografia de Paulo Coelho – a principal vantagem da web é a interação com o público. “Antes o autor não tinha um feedback do leitor”, diz Morais (www.fernandomorais.com.br). “A internet aproximou as pessoas.”

ALÉM DO PAPEL
E, para fechar, confira a entrevista com o editor de projetos digitais da editora inglesa Penguim, Jeremy Ettinghausen, que se uniu à empresa Six to Start, de games de realidade alternativa (ARG), para criar o projeto We Tell Stories (wetellstories.co.uk).

A iniciativa, apontada por muitos sites e blogs como inovadora, busca recontar seis clássicos da literatura, entre eles As Mil e uma Noites, usando recursos digitais e da internet. O objetivo é ir além do formato tradicional do livro de papel.

No Japão, país pioneiro na popularização de novas tecnologias, uma das febres atuais é a literatura feita para celulares.

Interessado em saber mais sobre a interação entre tecnologia e literatura? O Link preparou uma reportagem especial sobre o assunto. Boa leitura.

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Matéria de 11 de agosto de 2008 por @brunogalo