Quando Michael Jackson ‘salvou’ a indústria da música…

15 11 2010

…ou se hoje o ‘inimigo’ é a internet, ontem era a fita cassete

Não é segredo para ninguém que nos últimos anos as grandes gravadoras foram obrigadas a reinventar o seu modelo de negócios para sobreviver na era da música digital. E, a internet e as novas tecnologias são frequentemente apontadas como as grandes responsáveis pela – atual – crise. Atual, porque as crises na indústria fonográfica são na verdade uma constante.

No final da década de 70, início dos anos 80, foi a vez de uma outra tecnologia, a fita cassete – acredite –, ser apontada como “culpada” pela retração nas vendas. Em 1981, quando as vendas despencaram 11,4% (e havia rumores de que no ano seguinte a queda seria ainda maior), os grandes selos afirmaram que o seu ponto de vista havia sido, enfim, comprovado.

Mesmo antes, entretanto, a indústria musical já se esforçava para estigmatizar a prática crescente de se gravar músicas em fita cassete. O auge dessas ações se deu com uma vasta campanha de publicidade que incluía o uso de uma caveira em forma de fita cassete e a frase: “A gravação caseira está matando a música. E isto é ilegal”. Leia mais sobre essa campanha aqui e veja paródias aqui eaqui.

Como um estudo da Cap Gemini Ernst & Young, de 2003, afirmou, “em vez de tirar proveito dessa tecnologia nova e popular, as gravadoras lutaram contra ela”. Quer dizer, se hoje o “inimigo” é a internet, na época era a fita cassete. Entretanto, para muitos analistas a queda nas vendas era em grande parte resultado da estagnação criativa dos principais selos.

Disco mais vendido da história
Foi em meio a esse período de crise que, em novembro de 1982, Michael Jackson lançou seu álbum “Thriller”, que se tornou um sucesso instantâneo e até hoje desfruta do título de disco mais vendido da história, com cerca de 100 milhões de cópias. O principal segredo de Jackson para driblar a crise estava em uma nova ferramenta de divulgação que então emergia com a recém nascida MTV e que ele soube usar como ninguém, o videoclipe.

Billie Jean, primeiro vídeo de um artista negro a ser regularmente exibido na MTV

O álbum “Thriller” é considerado o primeiro que usou de forma consciente essa nova mídia de promoção. Na verdade, Michael transformou os videoclipes, que antes eram vídeos meio toscos, em superproduções feitas por diretores famosos. Para (re)ver outros clipes do rei do pop acesse a sua página oficial no YouTube aqui.

Graças à repercussão dos vídeos de Michael, a MTV que era uma pequena emissora de televisão a cabo se tornou muito popular. E, por sua vez, o sucesso da MTV foi fundamental para que a indústria fonográfica tivesse uma retomada recorde nos anos que se seguiram. Assim, o argumento da indústria rapidamente se esvaziou e o congresso norte-americano não chegou a aprovar qualquer restrição do uso das fitas cassete.

Logo, não demorou até que boa parte dos artistas copiasse Jackson e também fizessem clipes mais elaborados. Até hoje, os videoclipes são uma das principais ferramentas de divulgação de um artista de uma grande gravadora. Não por acaso, entre vídeos engraçadinhos e Susan Boyle, os clipes de artistas populares, como Rihanna, Lady Gaga, Britney Spears, aparecem frequentemente entre os vídeos mais vistos do YouTube.

Leia também
A importância de Michael Jackson para a indústria… do cinema

Leia original aqui.

Post publicado no blog do Link do Estadão em 2 de julho de 2009 por brunogalo

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Garoto prodígio

12 11 2010

Conheça Ronaldo Lemos, o jovem advogado que faz a cabeça de empresas como a Fiat quando o assunto é direito autoral na web

Ele tem apenas 33 anos e o corpo meio franzino. Mineiro de Araguari, Ronaldo Lemos não é um rosto conhecido do grande público. Discreto, ele é uma das maiores autoridades mundiais em direito autoral e em novos modelos de negócios na era digital. Assuntos que vêm mobilizando governos e tirando o sono de presidentes e acionistas das maiores editoras de livros, gravadoras e estúdios de cinema.

E não é exagero: o futuro jurídico da web brasileira passa por este jovem advogado. Lemos está diretamente envolvido na gestação do Marco Civil da internet brasileira, a primeira legislação do País que vai estabelecer os direitos e deveres da sociedade, empresas e governos na rede.

Ele foi ainda o responsável por trazer para o País as licenças Creative Commons, uma forma mais flexível de licenciar livros, músicas e filmes do que o direito autoral tradicional. Com ela, é o autor quem escolhe quais direitos quer preservar e permite que outros misturem, adaptem e criem trabalhos derivados de outras obras.

O músico e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil está entre os artistas que já licenciaram sua obra no formato. E não é só na área artística que o Creative Commons se faz presente. A Fiat está tocando no Brasil o projeto do Fiat Mio que a montadora apresenta como “o primeiro carro do mundo criado pelos e para os usuários”.

“A batalha contra a pirataria online não vai ser resolvida apenas no campo jurídico, mas também na busca de novos modelos de negócio”, afirma Ronaldo Lemos. Não se trata apenas de discurso. Ele é coautor do livro Tecnobrega: o Pará Reinventando o Negócio da Música (Editora Aeroplano), em que mostra como estratégias criativas podem ser uma solução para a indústria de entretenimento.

Em Belém, sem grandes recursos, a cena tecnobrega desenvolveu uma lucrativa rede de produção e distribuição de música independente, que faz uso até de camelôs para vender seus CDs. A Banda Calypso, uma das mais populares do Brasil, surgida em 1999, é um exemplo deste fenômeno. Sua principal fonte de renda são as apresentações ao vivo e não a venda dos CDs.

Exemplo semelhante, Lemos encontrou na Nigéria, em que 1,2 mil filmes são produzidos por ano de forma independente, mais do que em Hollywood, nos EUA, e em Bollywood, na Índia. “Essas indústrias tratam o direito autoral de uma forma muito mais aberta e flexível do que os modelos tradicionais”, diz Lemos. “Para eles, quanto mais você divulgar o seu produto, maior a chance de você ganhar dinheiro.” É apenas um pouco do que Lemos tem a ensinar ao mercado. E é bom a “velha” indústria prestar atenção no que ele tem a dizer.

Matéria publicada por@brunogalo na revista ISTOÉ Dinheiro em 22 de fevereiro de 2010

Leia original aqui





E segue a briga centenária entre música e tecnologia

31 08 2010

Lily Allen é só o capítulo mais recente da longa disputa do velho com o novo na história da indústria da música

Surgida na internet, a cantora inglesa Lily Allen surpreendeu e fez barulho ao pregar contra o download ilegal, durante o mês passado em seu blog no MySpace. Acabou crucificada na web. Mesmo tendo também se posicionado contra a postura passiva das gravadoras com relação à rede e defendido a criação de novos canais para a comercialização de música online. Cansada, ameaçou abandonar a carreira e escreveu em seu Twitter que era uma “neoludita”, em referência ao ludismo, movimento contra a Revolução Industrial. Por enquanto, largou só o Twitter, que passou a semana passada sem atualização.

Foi o capítulo mais recente de uma longa briga entre o velho e o novo na música. E que começou, acredite, muito antes do MP3 ou da internet – precisamente em 1877, ano em que o fonógrafo foi inventado.

O novo equipamento permitia gravar e reproduzir sons e causou chiadeira entre os artistas. Afinal, eles viviam de apresentações ao vivo e receavam que a nova traquitana acabasse com o seu ganha-pão. Por que as pessoas iriam vê-los se agora podiam ouvi-los em casa? O tempo mostrou que eles estavam enganados. Hoje, 142 anos depois da invenção de Thomas Edison, os shows ainda são a principal fonte de renda dos músicos.

Pouco depois, no início do século 20 foi a vez de uma nova tecnologia tirar o sono não só dos artistas, mas também das recém-nascidas gravadoras: o rádio, que durante anos funcionou sem legislação específica. O temor estava na crença de que as pessoas não comprariam mais música, uma vez que poderiam ouvir tudo o que desejassem.

Bastaria apenas uma breve manipulação no dial do rádio para encontrar uma determinada canção. Não foi o que aconteceu. No ano passado, mesmo com a internet, o compartilhamento de música e até a pirataria física, a indústria vendeu mais de 25 milhões de CDs – e isso só no Brasil.

E o que tudo isso tem a ver com o momento atual da música? Lá atrás, como agora, quem estava estabelecido resistiu – o quanto pode – para não ter seu modelo de negócios alterado. E já faz pouco mais de dez anos que o Napster inaugurou não só o compartilhamento de arquivos de músicas pela internet, mas também as discussões sobre o futuro da indústria fonográfica, que encolheu quase que pela metade neste período.

Durante esse tempo e ainda hoje, as gravadoras seguem firme na briga contra a “pirataria”, seja física ou online. O que a indústria já percebeu, no entanto, é que a solução não está apenas na repressão, é preciso oferecer alternativas atraentes ao consumidor cada vez mais conectado. E os artistas brasileiros, o que acham disso? Também falamos com eles (leia abaixo).

O caminho a seguir ainda não está claro. Gerd Leonhard é otimista. “A solução de todo esse impasse nunca esteve tão próxima”.

OPINIÕES: ARTISTAS & GRAVADORAS

“Dividir o que é seu é direito de todos. Pirataria é outra coisa. É você comercializar o que não lhe pertence. A web ajuda muito na divulgação e é um veículo de comunicação direto e democrático. Artistas novos e estabelecidos podem e devem se adequar a linguagem de comunicação e consumo de sua época.”
Chorão, líder da banda Charlie Brown Jr.

“Eu sinto como se tivéssemos regredido ao estágio tribal. Todos deslumbrados com os novos apetrechos mágicos – espelhos? pólvora? bússolas? Não questionamos nada. O ambiente urbano parece mergulhado numa espécie de fundamentalismo, um culto deslumbrado a qualquer tipo de avanço tecnológico.”
Fred Zero Quatro, líder da banda Mundo Livre S/A

“Estamos aprendendo a utilizar a internet a favor da música. Como toda ferramenta nova, existem abusos e ajustes a serem feitos, tanto de utilização quanto de regulamentação. A pirataria é o lado ruim, mas a divulgação e o contato direto são bons para artistas e para fãs.”
Henrique Portugal, tecladista da banda Skank

“Gravadoras estão se reinventando, adaptando-se a esta nova realidade e a este novo mercado, buscando novos modelos de negócio, além da ‘venda’ de música, como licenciamento, agenciamento de seus artistas, parcerias com patrocinadores, etc.”
Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Discos

“Somos um negócio de gestão de artistas e carreiras, nossas alternativas são ilimitadas. Um momento de transição profunda e histórica como a que estamos vivendo é só a véspera de um novo arsenal de oportunidades que, daqui por diante, vai se transformar sempre de forma vertiginosa.”
Marcelo Castello Branco, presidente da EMI Music Brasil

“O mercado da música sempre vai existir, ele apenas esta passando por uma grande transformação. Estamos vivendo talvez o momento mais excitante de todos. Precisamos de mais canais de vendas e de mais benefícios ao consumidor. O modelo do iTunes é vencedor. Precisamos de mais opções como esta.”
Alexandre Schiavo, presidente da Sony Music Brasil

Foto de musiclikedirt no Flickr.

Leia original aqui.

Matéria publicada no caderno do Link do Estadão em 4 de outubro de 2009 por@brunogalo





“Estamos deslumbrados com o avanço tecnológico. Não questionamos mais nada”, diz Fred 04, do Mundo Livre S/A

30 08 2010

Fred Zero Quatro é vocalista e líder da banda Mundo Livre S/A, que praticamente fundou junto com a Nação Zumbi o movimento mangue beat há 15 anos. A Mundo Livre S/A, que nasceu em 1984, despontou na cola do Nação, em 1994, com o disco ‘Samba Esquema Noise’. Atualmente, Fred trabalha também como assessor técnico da Secretaria da Cultura do Recife. Em entrevista, por e-mail e telefone, Fred se revela pessimista com relação ao futuro da música na era digital e critica o que ele de “um culto deslumbrado a qualquer tipo de avanço tecnológico”. O resultado dessa conversa, você confere aí embaixo:

“Uma coisa bacana do circuito atual (permitido pela internet), é que um artista ou banda com trabalho reconhecido e público fiel não precisa mais se mudar de mala e cuia de sua cidade, abandonar seus amigos e família, pra tocar sua carreira. Já tentei morar em Sampa, fiquei um ano na Vila Madalena, mas não me adaptei. Cresci comendo peixe frito e caranguejo na praia. Hoje a banda mora em Recife e consegue tocar a carreira, com uma agenda permanente de shows em todo o Brasil,” diz.

“Agora mesmo ganhamos de presente um clipe sensacional de um fã que mora em BH, nunca vimos o cara, que está se formando em um curso de design ou artes visuais, sei lá, com a música “Estela, A Fumaça do Pajé Mitisubixxi”. Ainda não lançamos oficialmente, precisamos da autorização da (gravadora) Deck, mas já tá repercutindo bem no YouTube. Isso é só um exemplo (de como artistas estabelecidos podem tirar proveito das novas tecnologias)”, conta.

“Acho que (a troca de arquivos na rede) é a polêmica mais importante do momento histórico atual, e infelizmente parece que ainda não tem despertado muito interesse no meio intelectual brasileiro. Muitos escritores americanos e europeus têm publicado ensaios importantes, levantando questões urgentes, mas aqui há uma espécie de vazio a respeito. Tenho me sentido como se tivéssemos regredido ao estágio tribal, e estivéssemos todos deslumbrados com os novos apetrechos mágicos (espelhos? pólvora? bússolas?) que o homem branco tem despejado nas vitrines dos nossos shopping centers. Não questionamos nada”, afirma.

E continua: “No meu tempo de faculdade (Fred é jornalista), Marshall McLuhan, Umberto Eco, Jean Baudrillard e outros chacoalhavam as mentes jovens do planeta com reflexões essenciais sobre a aldeia global, a cultura de massa, a sociedade de consumo, etc. Hoje o ambiente urbano parece mergulhado numa espécie de fundamentalismo, um culto deslumbrado a qualquer tipo de avanço tecnológico. Não sei de onde vem esse meu defeito, mas eu nunca consegui me conformar com esse tipo de visão de curto prazo. “Uau, que massa, agora eu posso assistir a todos os filmes, ler todos os jornais e baixar milhares de músicas de graça!”

“E as pessoas ainda acham que isso tem a ver com ‘atitude’. Sinceramente, acho paradoxal, justo num momento em que o viés da sustentabilidade alcança status de prioridade absoluta de toda e qualquer agenda global. Alguns fãs da banda começam a me questionar sobre isso na estrada, e eu respondo com uma pergunta simples: com o provável desaparecimento das gravadoras, quem você acha que vai bancar a produção / gravação / mixagem / masterização de nossas novas músicas? O desmantelamento da indústria teria, para os evangelizadores da web, um efeito altamente positivo na medida em que provocasse o fim da parada de sucessos. Será?”

“Agora o Radiohead anuncia algo previsível, que já vinha se delineando como uma tendência óbvia: não pretende mais lançar álbuns, apenas faixas avulsas. Muitos analistas já deduzem, a partir disso, que podemos estar diante da morte do trabalho conceitual ou experimental, ou seja, de agora em diante toda e qualquer música nova tem que ser um novo ‘hit’, pelo menos na web. Isso, para mim, é o equivalente, na música, do que representa o conceito de ‘junkie food’ para a nutrição e a gastronomia.”

“Pirataria é o mesmo que comer num restaurante fino e sair correndo sem pagar a conta. Você se ilude que está sendo um ‘outsider’ ou ‘wildboy’, mas só está mesmo sacaneando com o pobre do garçon”, afirma.

“Existe um movimento por aí intitulado MPB (música para baixar). Acho simplório e equivocado. Não tenho nada contra a pessoa ir para um show, gravar trechos numa câmera qualquer, ou mesmo num celular, depois postar na web. Aí se trata de uma versão caseira e amadora da música. Aliás, esse movimento, se chamasse MDPB (música demo pra baixar), por mim tudo bem. Lembro de quando eu costumava baixar versões demo de jogos e softwares, que eram disponibilizados gratuitamente. Se me interessasse pela versão completa, comprava.”

“Só mais uma coisa sobre a internet: acho que defender o fim da indústria fonográfica equivale a decretar a morte do rock&roll, pelo menos se considerarmos a definição mais clássica do gênero: “uma forma de se ganhar muito dinheiro, em pouquíssimo tempo e com muito estilo”(Malcom Mclaren). Claro, nem todo mundo ficava rico com o rock, mas os que ficavam financiavam a máquina e motivavam a molecada a largar tudo e arriscar”, conclui.

Leia original aqui.

Post publicado no blog do Link do Estadão em 5 de outubro de 2009 por @brunogalo





Por que as coisas não mudam? Lawrence Lessig e a corrupção institucional

30 08 2010

Lawrence Lessig foi professor de direito da Universidade de Stanford (atualmente, no entanto, conduz suas pesquisas em Harvard), criador da licença Creative Commons, e uma das maiores autoridades no mundo em direitos autorais na era digital. Autor de livros seminais sobre o momento que testemunhamos, como ‘Cultura Livre’ e ‘Remix’ (inédito no Brasil). Para ele, e inúmeros outros estudiosos, as leis de direitos autorais estão desatualizadas e precisam ser mudadas. E mais: os argumentos que sustentariam essa mudança já estão claros.

“Precisamos atualizar a lei para que ela faça sentido no mundo digital. É isso o que deve ser feito, ao invés dessa guerra extrema contra quem usa as tecnologias digitais”, defendeu Lessig, em entrevista ao Link, no início do ano. Afinal, quando boa parte das pessoas conectadas está na ilegalidade, de quem é a culpa? Para Lessig, a culpa é da lei.

Assim, o interesse público deveria prevalecer sobre o interesse da indústria de conteúdo. Algo, que inclusive, já aconteceu em inúmeras oportunidades no passado. Para ficar em poucos exemplos, basta citar o rádio e o fonógrafo. Apesar de tudo isso, as coisas hoje simplesmente não mudam. Pensando nisso, Lessig conduziu uma ligeira, mas extremamente importante, mudança de rota nos seus estudos. Atualmente, concentra seus esforços em entender e explicar o que ele chama de corrupção institucional ou indústria do lobby. Em sua opinião, é essa a raiz de inúmeros problemas/impasses aparentemente insolúveis, como a questão do direito autoral, mas não só.

No vídeo abaixo (em inglês), intitulado ‘Corrupção Institucional’, ele explica de forma extremamente clara todo este impasse, que, segundo Lessig, tem implicações em problemas tão díspares quanto o do meio ambiente e o da saúde pública. Vale uma espiada!

Leia original aqui.

Post publicado no blog do Link do Estadão em 24 de novembro de 2009 por @brunogalo





Porque a cultura não é gratuita, por Andrew Keen

30 08 2010

Andrew Keen é autor de ‘O culto ao amador’, manifesto contra o idealismo da web 2.0. Em setembro, quando esteve de passagem pelo Brasil, ele conversou com o ‘Link’. Leia aqui. Recentemente, Keen escreveu um ensaio intitulado ‘Porque a cultura não é gratuita’ para a ‘DGA Magazine’, revista do sindicato dos diretores de cinema norte-americano.

“Neste ensaio”, escreve a revista, “ele examina como a internet deu origem a uma revolta geracional que está mudando não só a economia da indústria cinematográfica, mas a maneira como o público percebe filmes. O resultado poderia ser uma cacofonia de conteúdo gerado pelo usuário, na qual artistas perdem a sua voz e seu sustento”.

No texto, Keen desfila críticas a jornalistas e pensadores que discordam dele, como Matt MasonLawrence Lessig, David Weinberger, Cory Doctorow, e elogios aqueles que compactuam com a sua visão, neste caso, apenas o diretorMilos Forman é citado. Leia alguns trechos do artigo, que você encontra na integra e em inglês aqui:

“Filmes podem mudar o mundo, mas hoje, na primeira década do século 21, as mudanças globais ameaçam mudar fundamentalmente os filmes. Hoje, há uma rebelião de pessoas de fora contra o sistema. E esta revolução digital é, em parte, uma rebelião contra o homem com a câmera de filmar. É a revolta de uma geração internet ingenuamente idealista contra a mídia tradicional”, afirma.

“Não é apenas a indústria de cinema, é claro, que a revolução digital desafia. Na verdade, essa revolução é um assalto fundamental sobre a autoridade de todos os meios de comunicação desde livros e jornais a música e filmes”, escreve.

“A grande maioria dos ladrões (é como ele se refere as pessoas que compartilham conteúdo na internet) não são heróicos visionários digitais. Eles estão baixando mais o último filme do ‘Harry Potter’ apenas para que eles não precisem pagar por ele”, afirma. E continua: “O que a revolução digital está realmente prometendo entregar são “baratos” e “sujos” vídeos online com audiências infinitesimal”.

Já perto do final do artigo, ele escreve: “acho que a indústria do cinema tem que pensar de forma mais criativa também, ao invés de confiar apenas no direito de controlar o incontrolável. Como afirmei anteriormente, a história do cinema é toda ligada a história da rebelião. E não há dúvida de que a revolução digital do século 21 roubou este manto de rebelião em um negócio de filme cada vez mais institucionalizado e conservador.”

Este último parágrafo é uma discreta crítica, um contraponto, em um longo e envolvente texto que parece feito para agradar aos seus leitores do sindicato dos diretores de cinema norte-americano.

Leia original aqui.

Post publicado no blog do Link do Estadão em 8 de dezembro de 2009 por @brunogalo





Porque a indústria prefere o streaming ao download

30 08 2010

O mercado de cultura na era digital, pós-Napster, vive hoje sua primeira grande transição. Quando viu seu principal negócio – a venda de CDs – ir por água abaixo por causa da cultura do compartilhamento, a indústria musical a recriminou e, só mais tarde, tentou se adaptar: apostou na trava anticópias (DRM) para barrar a pirataria e, com o modelo de vendas avulsas do iTunes, achou que finalmente lucraria com a internet. Não deu certo.

Se a loja de músicas da Apple até teve seus trunfos (sentidos mais nas vendas de iPods do que no balanço das gravadoras), 95% dos downloads de músicas continuam piratas. Ao completar 10 anos, o mercado parece finalmente ter amadurecido e, aos poucos, renasce. Em vez da venda de arquivos, uma adaptação canhestra da lógica da venda de mídias físicas, a aposta agora é na nuvem – em que filmes, livros e músicas cada vez mais deixam de ser encarados como produtos tradicionais, para ser vistos como serviços.

“É uma mudança de pensamento. Se muitos dos sites de streaming de hoje tendem a morrer, outros (Hulu e Spotify, por exemplo) buscam acordos e terão um futuro brilhante pela frente”, aposta o escritor Patrik Wikström, autor do livro “Music In The Clouds” (´A Música Nas Nuvens´, que será lançado em 2010 nos EUA).

Um dos grandes sinais de que a indústria vê futuro nessa migração para a nuvem está no acordo que a EMI assinou com o até então ilegal Grooveshark, que permite que as pessoas disponibilizem e ouçam todas as músicas que quiserem em streaming. Em vez de processar seus donos, a multinacional decidiu se aliar a eles.

O intuito dos empresários, segundo críticos como o ativista da cultura livre Cory Doctorow, é restituir o controle que tinham antes que a distribuição de bens culturais fosse tomada de assalto por consumidores conectados. “Cobrando por algo que você consegue de graça, investidores sonham em voltar ao lucrativo monopólio que detinham antes de ele ser aniquilado pela hiper-competição da web”, escreveu Doctorow, em artigo publicado no jornal inglês “The Guardian”.

A questão é: e se esse controle for vantajoso para os usuários? A locadora Netflix cobra US$ 9 de seus clientes e deixa que eles assistam a quantos filmes aguentarem na web. Já o Grooveshark, com acervo de mais de 6 milhões de músicas, é gratuito, custeado por publicidade e por aqueles que pagam por um serviço mais completo.

“Acredito que o modelo legal do Spotify vai ser o mais bem sucedido de todos os já tentados. Ele oferece opções de navegação aos usuários, além de ser rápido e fácil”, opina o jornalista Greg Kot, que no livro “Ripped: How the Wired Generation Revolutionized Music (Ripped: Como a Geração Conectada Revolucionou a Música”) trata das mudanças comportamentais que a distribuição P2P causou.

Mas, para Kot, o streaming só vingará se oferecer mais vantagens do que os downloads ilegais. Ou seja: deve ser mais completo e acessível que os sites de torrent, cobrando nada ou tão pouco quanto. “As pessoas só migrarão se os sites assegurarem que eles terão acesso àquele conteúdo quando quiserem, como quiserem”. Ou seja, o mercado terá que continuar em constante adaptação ao gosto dos usuários. Mesmo se decidirem naufragar os piratas e devolver parte do poder às gravadoras, os clientes continuam sempre com a razão.

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Todos os caminhos levam à nuvem

Porque a indústria prefere o streaming ao download

Ter ou não ter? Eis a questão que o digital propõe

Leia original aqui ou aqui.

Matéria publicada no caderno Link do Estadão de 6 de dezembro de 2009 feita a quatro mãos por: @brunogalo e @rafael_cabral