Quando Michael Jackson ‘salvou’ a indústria da música…

15 11 2010

…ou se hoje o ‘inimigo’ é a internet, ontem era a fita cassete

Não é segredo para ninguém que nos últimos anos as grandes gravadoras foram obrigadas a reinventar o seu modelo de negócios para sobreviver na era da música digital. E, a internet e as novas tecnologias são frequentemente apontadas como as grandes responsáveis pela – atual – crise. Atual, porque as crises na indústria fonográfica são na verdade uma constante.

No final da década de 70, início dos anos 80, foi a vez de uma outra tecnologia, a fita cassete – acredite –, ser apontada como “culpada” pela retração nas vendas. Em 1981, quando as vendas despencaram 11,4% (e havia rumores de que no ano seguinte a queda seria ainda maior), os grandes selos afirmaram que o seu ponto de vista havia sido, enfim, comprovado.

Mesmo antes, entretanto, a indústria musical já se esforçava para estigmatizar a prática crescente de se gravar músicas em fita cassete. O auge dessas ações se deu com uma vasta campanha de publicidade que incluía o uso de uma caveira em forma de fita cassete e a frase: “A gravação caseira está matando a música. E isto é ilegal”. Leia mais sobre essa campanha aqui e veja paródias aqui eaqui.

Como um estudo da Cap Gemini Ernst & Young, de 2003, afirmou, “em vez de tirar proveito dessa tecnologia nova e popular, as gravadoras lutaram contra ela”. Quer dizer, se hoje o “inimigo” é a internet, na época era a fita cassete. Entretanto, para muitos analistas a queda nas vendas era em grande parte resultado da estagnação criativa dos principais selos.

Disco mais vendido da história
Foi em meio a esse período de crise que, em novembro de 1982, Michael Jackson lançou seu álbum “Thriller”, que se tornou um sucesso instantâneo e até hoje desfruta do título de disco mais vendido da história, com cerca de 100 milhões de cópias. O principal segredo de Jackson para driblar a crise estava em uma nova ferramenta de divulgação que então emergia com a recém nascida MTV e que ele soube usar como ninguém, o videoclipe.

Billie Jean, primeiro vídeo de um artista negro a ser regularmente exibido na MTV

O álbum “Thriller” é considerado o primeiro que usou de forma consciente essa nova mídia de promoção. Na verdade, Michael transformou os videoclipes, que antes eram vídeos meio toscos, em superproduções feitas por diretores famosos. Para (re)ver outros clipes do rei do pop acesse a sua página oficial no YouTube aqui.

Graças à repercussão dos vídeos de Michael, a MTV que era uma pequena emissora de televisão a cabo se tornou muito popular. E, por sua vez, o sucesso da MTV foi fundamental para que a indústria fonográfica tivesse uma retomada recorde nos anos que se seguiram. Assim, o argumento da indústria rapidamente se esvaziou e o congresso norte-americano não chegou a aprovar qualquer restrição do uso das fitas cassete.

Logo, não demorou até que boa parte dos artistas copiasse Jackson e também fizessem clipes mais elaborados. Até hoje, os videoclipes são uma das principais ferramentas de divulgação de um artista de uma grande gravadora. Não por acaso, entre vídeos engraçadinhos e Susan Boyle, os clipes de artistas populares, como Rihanna, Lady Gaga, Britney Spears, aparecem frequentemente entre os vídeos mais vistos do YouTube.

Leia também
A importância de Michael Jackson para a indústria… do cinema

Leia original aqui.

Post publicado no blog do Link do Estadão em 2 de julho de 2009 por brunogalo

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A volta do bolachão

13 11 2010

Em plena era digital, os velhos LPs de vinil ressurgem com força. No Brasil, a fábrica da Polysom é reaberta e quatro discos são lançados em março

Não poderia ser mais irônico. Ao longo do tempo, desde o fonógrafo até a era digital, com o iPod e os downloads, a história do consumo de música pode ser resumida como uma busca por tornar as canções cada vez mais acessíveis e disseminadas. Mas ao mesmo tempo em que o desgastado CD vive seu crepúsculo, o disco de vinil experimenta uma inesperada ressurreição.

Nos Estados Unidos, o bolachão, como é conhecido, tornou-se o formato que mais cresce na preferência do público. Desde 2006, as vendas praticamente triplicaram. Só no ano passado foram comercializados 2,5 milhões de LPs, o maior número desde que a Nielsen Soundscan iniciou esse acompanhamento em 1991. A partir de março, é a vez de o Brasil entrar nesta onda. A gravadora independente Deckdisc vai lançar quatro LPs. A primeira fornada dos novos vinis traz trabalhos de Pitty, Fernanda Takai, Nação Zumbi e Cachorro Grande.

O responsável pela volta dos antigos LPs é o empresário João Augusto, dono da Deckdisc e responsável pela reabertura da Polysom, atualmente a única fábrica do gênero na América Latina. Em 1995, João era vice-presidente da EMI e comandou o fim da produção de discos de vinil da gravadora. Agora, ele quer voltar a ganhar dinheiro com os antigos bolachões.

“Vamos atender todas as gravadoras com a fábrica de LPs”, afirma ele. Encomendas do Chile e da Argentina já foram feitas. A EMI, por exemplo, planeja lançar, em 2010, toda a discografia da Legião Urbana em vinil. A capacidade produtiva da fábrica é de até 40 mil unidades por mês, sendo 28 mil LPs e 12 mil compactos. O preço de cada disco deve ficar na casa dos R$ 80. Alto, é verdade.

Mas até agora a única opção era produzir os discos fora do Brasil. Neste caso, o custo para o consumidor ultrapassa os R$ 100. “Hoje em dia, as gravadoras precisam diversificar e se reinventar a todo instante”, acredita João Augusto. Ninguém defende que o vinil voltará a ser o principal suporte para a música desbancando o digital e a internet. Seu futuro, no entanto, parece hoje muito mais garantido e seguro do que o do próprio CD.

Matéria publicada por@brunogalo na revista ISTOÉ Dinheiro em 5 de março de 2010

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Garoto prodígio

12 11 2010

Conheça Ronaldo Lemos, o jovem advogado que faz a cabeça de empresas como a Fiat quando o assunto é direito autoral na web

Ele tem apenas 33 anos e o corpo meio franzino. Mineiro de Araguari, Ronaldo Lemos não é um rosto conhecido do grande público. Discreto, ele é uma das maiores autoridades mundiais em direito autoral e em novos modelos de negócios na era digital. Assuntos que vêm mobilizando governos e tirando o sono de presidentes e acionistas das maiores editoras de livros, gravadoras e estúdios de cinema.

E não é exagero: o futuro jurídico da web brasileira passa por este jovem advogado. Lemos está diretamente envolvido na gestação do Marco Civil da internet brasileira, a primeira legislação do País que vai estabelecer os direitos e deveres da sociedade, empresas e governos na rede.

Ele foi ainda o responsável por trazer para o País as licenças Creative Commons, uma forma mais flexível de licenciar livros, músicas e filmes do que o direito autoral tradicional. Com ela, é o autor quem escolhe quais direitos quer preservar e permite que outros misturem, adaptem e criem trabalhos derivados de outras obras.

O músico e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil está entre os artistas que já licenciaram sua obra no formato. E não é só na área artística que o Creative Commons se faz presente. A Fiat está tocando no Brasil o projeto do Fiat Mio que a montadora apresenta como “o primeiro carro do mundo criado pelos e para os usuários”.

“A batalha contra a pirataria online não vai ser resolvida apenas no campo jurídico, mas também na busca de novos modelos de negócio”, afirma Ronaldo Lemos. Não se trata apenas de discurso. Ele é coautor do livro Tecnobrega: o Pará Reinventando o Negócio da Música (Editora Aeroplano), em que mostra como estratégias criativas podem ser uma solução para a indústria de entretenimento.

Em Belém, sem grandes recursos, a cena tecnobrega desenvolveu uma lucrativa rede de produção e distribuição de música independente, que faz uso até de camelôs para vender seus CDs. A Banda Calypso, uma das mais populares do Brasil, surgida em 1999, é um exemplo deste fenômeno. Sua principal fonte de renda são as apresentações ao vivo e não a venda dos CDs.

Exemplo semelhante, Lemos encontrou na Nigéria, em que 1,2 mil filmes são produzidos por ano de forma independente, mais do que em Hollywood, nos EUA, e em Bollywood, na Índia. “Essas indústrias tratam o direito autoral de uma forma muito mais aberta e flexível do que os modelos tradicionais”, diz Lemos. “Para eles, quanto mais você divulgar o seu produto, maior a chance de você ganhar dinheiro.” É apenas um pouco do que Lemos tem a ensinar ao mercado. E é bom a “velha” indústria prestar atenção no que ele tem a dizer.

Matéria publicada por@brunogalo na revista ISTOÉ Dinheiro em 22 de fevereiro de 2010

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O mundo aos pés da Samsung

12 11 2010

De empresa de “terceira categoria”, a maior companhia de tecnologia do mundo. Como a gigante coreana ultrapassou a HP e se tornou referência mundial em design

Alguma coisa está fora da ordem. No final de janeiro, a Samsung divulgou que seu faturamento global foi de US$ 117,8 bilhões, pouco mais de US$ 3 bilhões à frente da HP, empresa americana fundada pelos lendários Bill Hewlett e David Packard, em uma garagem na Califórnia, nos Estados Unidos.

O resultado cristaliza uma mudança na geografia mundial ao colocar um pequeno país da Ásia, a Coreia do Sul, no centro do desenvolvimento tecnológico mundial e a Samsung como maior empresa de tecnologia do planeta. No passado, a companhia coreana já foi considerada no mercado uma mera copiadora de produtos.

Os seus aparelhos eram vistos pelos consumidores apenas como alternativas de baixo custo. Hoje, ela é referência mundial em design. Mas o que explica essa virada que levou a Samsung ao topo do mundo?

A mudança de posicionamento dessa gigante começou na década de 1990. Ao visitar lojas de eletroeletrônicos em Los Angeles, nos EUA, o então presidente da Samsung, Lee Kun-Hee, surpreendeu-se com a imagem negativa que seus produtos transmitiam aos consumidores. Quando voltou à  Coreia, escreveu um memorando para os principais executivos.

O texto dizia que a Samsung havia se tornado uma companhia de “terceira categoria”. E determinou: “Nossos produtos não podem apenas atender às necessidades dos consumidores, precisamos que eles capturem a imaginação deles”.

Alguns anos e muitos bilhões de dólares investidos em pesquisa e desenvolvimento depois, a Samsung chegou lá. Os produtos da Apple, como o iPod e o iPhone, são grandes referências em design na área de eletrônicos de consumo.

A Samsung, por sua vez, levou esse conceito para sua ampla gama de produtos, que vai de celulares a televisores, passando por notebooks e câmeras digitais. Durante a última década, ganhou mais prêmios da prestigiada Sociedade de Design Industrial da América (IDSA, na sigla em inglês) do que qualquer outra companhia no planeta, inclusive a Apple.

Em um ranking elaborado pela Harvard Business Review, com os 100 CEOs que trouxeram os melhores resultados financeiros para suas empresas na última década, Yun Jong-Yong, que esteve à frente da Samsung Electronics entre 1996 e 2008, ficou em segundo lugar, logo atrás de ninguém menos que Steve Jobs.

Paralelamente ao investimento em desenvolvimento e pesquisa, a Samsung se tornou uma das maiores patrocinadoras no segmento de eletrônicos de consumo, com foco na área esportiva.

“Isso cria uma relação forte e duradoura com os consumidores”, disse à DINHEIRO Willy Shin, professor da escola de negócios de Harvard. Sua marca está na camisa do Chelsea, time de futebol da liga inglesa, desde 2005, e do Palmeiras, desde o ano passado.

A empresa participa ainda de grandes eventos internacionais, como as Olimpíadas. Uma outra jogada que contribuiu para o fortalecimento da sua marca nos últimos anos, e que encontra semelhanças com a Apple, foi a abertura das lojas Samsung Experience.

Nelas, os consumidores podem experimentar toda a linha de produtos da empresa. A primeira delas foi aberta em 2004, em Nova York, apenas três anos depois de Steve Jobs inaugurar na mesma cidade a sua primeira e muito bem-sucedida Apple Store.

“É bom as empresas norte-americanas acordarem”, alerta João Antônio Zuffo, professor da Escola Politécnica da USP. Para ele, a empresa coreana é uma das mais inovadoras do mundo.

No início deste ano, durante a CES, maior feira de eletroeletrônicos do mundo, ela apresentou novidades, como um notebook com tela Oled transparente. Será também uma das primeiras a colocar no mercado tevês com recursos 3D.

Ainda assim, muitos analistas criticam a postura pouco agressiva da Samsung em desenvolver novos mercados e aparelhos revolucionários, como o toca-fitas portátil Walkman e o console de videogames PlayStation, da sua concorrente asiática Sony, ou o videogame Wii, da também nipônica Nintendo. A própria empresa  concorda.

“Precisamos superar nosso medo de ser a primeira a ter uma ideia nova”, disse James Chung, porta-voz da companhia, ao jornal britânico Financial Times. A Samsung não é mais uma empresa de terceira categoria, mas vai precisar inovar ainda mais para permanecer no topo do mundo.

Matéria publicada por@brunogalo na revista ISTOÉ Dinheiro em 10 de fevereiro de 2010

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O paradoxo da Apple

11 11 2010

A empresa mais inovadora da atualidade faz sempre tudo igual quando lança um novo produto. E o impressionante é que dá certo. Será que vai funcionar agora com o iPad?

Todo ano ele faz tudo sempre igual. A mesma camiseta de gola alta e manga comprida preta, a calça jeans surrada, o tênis New Balance cinza. O mesmo palco, as mesmas luzes, a mesma plateia que o ovaciona e um produto na mão. Esta é a liturgia do profeta da inovação Steve Jobs. Eis o paradoxo da Apple, considerada a empresa mais inovadora da atualidade, mas cuja máquina de marketing vem repetindo a mesma estratégia há anos. Quando subiu ao palco na quarta-feira 27, para anunciar o iPad, um minicomputador com tela sensível ao toque, sem mouse ou teclado, Jobs repetiu este ritual.  Só que desta vez, o produto foi recebido com mais ceticismo. As ações da Apple despencaram mais de 8% no dia seguinte ao anúncio, o que não aconteceu em outros eventos da companhia, como o lançamento do iPhone. Apesar dessa recepção morna do mercado, Jobs foi saudado, mais uma vez, em termos bíblicos.  “A última vez que houve tamanha excitação por causa de uma tábua (tablet, em inglês), ela tinha alguns mandamentos gravados nela”, escreveu com rara ironia e precisão o jornal norte-americano The Wall Street Journal, comparando o criador da Apple a Moisés. A revista inglesa The Economist, dedicou sua capa ao iPad, com o título “O livro de Jobs”, numa referência a Jó e a também um dos alvos do produto – o iPad será um concorrente direto do Kindle.

Nos últimos anos, Steve Jobs vem lapidando quase que à perfeição a estratégia cultuada, mas também conservadora, de lançamento dos seus novos produtos. O absoluto silêncio é sua maior arma. David Yoffie, professor de negócios de Harvard, estimou que nos meses entre o anúncio e a venda do primeiro iPhone em 2007, a Apple conseguiu mais de US$ 400 milhões em propaganda gratuita, apenas se mantendo completamente calada, alimentando o frenesi da mídia mundial. Algo bastante parecido – e em uma escala ainda maior — foi se desenhando nos últimos meses em torno do tablet da Apple. A máquina de marketing da companhia, cuja logomarca é uma maçã, tem uma forma de funcionar que não se altera. O impressionante é que, até agora, tem dado sempre certo. Mas conseguirá, desta vez, fazer o iPad decolar?

“Vejo muito potencial neste produto e não tenho dúvida de que muitos concorrentes irão ser lançados antes do final deste ano”, disse à DINHEIRO Rob Enderle, presidente da consultoria norte-americana Enderle Group. A lógica do marketing da Apple é baseada em algumas regras que contrariam tudo o que é considerado padrão na indústria do Vale do Silício, região dos Estados Unidos, na Califórnia, onde estão localizadas as principais companhias de tecnologia. A primeira delas é o segredo. A empresa guarda seus produtos sob o mais absoluto sigilo. Os funcionários são avisados que não podem comentar os projetos em que estão trabalhando com suas próprias famílias. Os times de hardware e software ficam em prédios separados. E os crachás eletrônicos impedem acessos a determinadas áreas do escritório. Os concorrentes têm táticas diferentes. A Intel, por exemplo, publica regularmente o calendário de lançamento de seus produtos. A Microsoft programa todos os seus lançamentos e cria uma série de fatos até a data do lançamento, antecipando boa parte dos recursos.

O segundo pilar da estratégia da Apple é o controle. O hardware e o software são proprietários. Isso quer dizer que só funcionam em um produto da Apple. Quer rodar o sistema operacional Mac OS? Compre um Mac. O iPod é umbilicalmente ligado à loja online iTunes, que, por sua vez, só pode ser acessada via software. Sabe de quem? Da própria Apple. E, por fim, existe o fator Jobs. Centralizador, ele se preocupa com os mínimos detalhes do produto, microgerenciando tudo. Muitos o consideram tirânico. Seu desempenho no palco também é essencial para o sucesso do produto. Quem não se lembra dele tirando de um envelope o MacBook Air, o então notebook mais fino do mundo? Durante o lançamento do iPad, usou várias frases de efeito, como “produto mágico e revolucionário” ou “ele é muito mais íntimo do que um notebook, muito mais eficiente que um smartphone”.

O tablet da Apple não é o primeiro de sua categoria, mas isso também não é um problema. O iPod não inaugurou o mercado de tocadores de música digital, tampouco o iPhone construiu o segmento de smartphones. Ambos, no entanto, tinham características e recursos que os tornavam atraentes. Entre eles, um design sofisticado e uma loja online com músicas e aplicativos. O iPad apesar das suas limitações, aposta em múltiplas funções para atrair o público. Ele é ao mesmo tempo um dispositivo que acessa internet, permite ver vídeos, ouvir músicas, receber e enviar e-mails, organizar fotos, jogar games e – ufa – um leitor de livros eletrônicos. O iPad é também um marco da convergência, que editoras de livros, revistas e jornais, além de estúdios de cinema e emissoras de televisão, esperam que possa esquentar a distribuição digital – e paga – de seu conteúdo, assim como o iPod o fez com a música. A expectativa gerada, desta vez, parece ter sido alta demais.

Os comentários gerais eram de que o iPad era apenas um iPhone gigante. Os usuários fanáticos começaram a fazer listas sobre os itens que faltavam no aparelho. As mais frequentes referiam-se à ausência de uma câmera e capacidade de poder fazer mais de uma aplicação funcionar ao mesmo tempo, chamada de multitarefa. O porta-voz da Apple Brasil, Fábio Ribeiro, garantiu que pelo menos dá para ouvir música e ler um livro ao mesmo tempo. A máquina de marketing da Apple está à prova, embora tenha feito tudo igual novamente.

Matéria publicada por@brunogalo@rmanzoni na revista ISTOÉ Dinheiro em 5 de fevereiro de 2010

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A tábua da salvação?

4 11 2010

Steve Jobs apresenta o iPad e bate de frente com Kindle e netbooks. Aparelho, que promete esquentar o mercado de filmes e livros digitais, aponta para o “fim da era PC”

“A última vez que houve tamanha excitação por causa de uma tábua (tablet, em inglês), ela tinha alguns mandamentos gravados nela”, escreveu com rara ironia e precisão o jornal norte-americano Wall Street Journal, em referência a imensa expectativa despertada por um, até então, não confirmado tablet (um minicomputador com tela sensível ao toque, sem mouse ou teclado) da Apple, no final do ano passado. Um detalhe: como de costume ninguém na empresa, que tem diversos produtos na coleção de design do Museu de Arte Moderna de Nova York, confirmava a existência do aparelho.

Nada disso parecia importar, o histórico de inovações da Apple somados ao culto em torno da sua marca e a sua impressionante ressurreição na última década eram mais do que satisfatórios para justificar o burburinho. Assim, apenas alguns rumores e mais tarde a confirmação de que a Apple faria um anúncio em janeiro deste ano foram suficientes para que as ações da companhia batessem sucessíveis recordes na bolsa eletrônica Nasdaq. Nada de muito diferente por aqui também, nos últimos anos o lendário fundador da Apple, Steve Jobs, vem lapidando quase que a perfeição a estratégia de lançamento dos seus novos produtos. O absoluto silêncio é sua maior arma. David Yoffie, um professor de Harvard, estimou que nos meses entre o anúncio e a venda do primeiro iPhone em 2007, a Apple tenha conseguido mais de US$ 400 milhões em propaganda gratuita, apenas se mantendo completamente calada, alimentando o frenesi da mídia mundial. Algo bastante parecido – e em um escala talvez ainda maior – foi se desenhando nos últimos meses em torno de um tablet da Apple. Mas uma pergunta ao menos continuava sem resposta: tamanha expectativa conseguiria ser saciada?

Finalmente, na tarde da última quarta-feira, 27 (de janeiro), Jobs subiu ao palco, em São Francisco, ainda magro em decorrência do tratamento de um câncer, para o tão esperado anúncio. Ele vestia seu tradicional uniforme (camiseta gola alta e manga cumprida preta, além de uma surrada calça jeans e um tênis New Balance cinza). Como também lhe é característico, Jobs não poupou adjetivos e elogios ao novo gadget, o iPad, que chega as lojas em 60 dias nos Estados Unidos e outros países. Para o Brasil, não há previsão. Sua primeira frase no evento não deixava dúvidas de que ele queria – mas será que conseguiria? – fazer história novamente: “queremos começar 2010 apresentando um produto verdadeiramente mágico e revolucionário”. Emissoras de televisão nos EUA chegaram a interromper a sua programação normal para mostrar o novo aparelho. Sem fazer muito suspense, algo que não lhe é usual, Jobs perguntou: “Todo mundo usa um smartphone ou um laptop hoje em dia, há espaço para uma terceira categoria de aparelhos entre um e o outro?”

Jobs e toda a indústria de eletrônicos sabem a resposta a essa pergunta desde outubro de 2007, quando a taiwanesa Asus lançou o primeiro netbook, um minilaptop que não servia para fazer quase nada longe da web. Ignorado pela imprensa especializada, o aparelho foi um gigantesco sucesso, copiado por todas as fabricantes, mas solenemente esnobado pela Apple.“Os teclados são apertados, o software é terrível e o hardware podre. Jamais colocaria a nossa marca nisso”, disse, em março do ano passado, Tim Cook, diretor operacional da Apple e na época ocupando interinamente a presidência no lugar de Jobs. Os netbooks, no entanto, tornaram-se um fenômeno de vendas e, entre o pioneiro EeePC e os últimos lançamentos, passaram por mudanças tão profundas que é difícil perceber o que os diferem dos seus irmãos mais velhos, os notebooks.

Hoje, os netbooks atendem com precisão a quem deseja um equipamento mais prático e portátil do que um notebook ou espera mais conforto e facilidade de navegação do que oferece um smartphone. O muito bem-sucedido netbook, no entanto, é um dispositivo voltado principalmente para o trabalho e não para a diversão. Eis o nicho que Jobs torce para ser amplo e com o qual sonha atender com o iPad. “Vejo muito potencial neste produto e não tenho dúvida de que inúmeros concorrentes irão ser lançados antes do final deste ano”, disse à Dinheiro Rob Enderle, presidente da consultoria norte-americana Enderle Group.

Entre as críticas que o aparelho recebeu, as mais freqüentes eram referentes à ausência de uma câmera e de capacidade multitarefa. O iPad apesar das suas limitações, aposta em múltiplas funções para atrair o público. Em setembro do ano passado, ao ser questionado sobre o leitor de livros eletrônicos da Amazon, o Kindle, pelo The New York Times, Jobs disse: “tenho certeza de que sempre haverá dispositivos dedicados (com apenas uma função), e eles podem ter algumas vantagens em fazer apenas uma coisa. Acredito, no entanto, que aparelhos com múltiplas funções vão ganhar o dia, porque as pessoas não vão querer pagar por aparelhos que só servem para fazer uma coisa”.

E é exatamente isso que o iPad é. Ele pode não ser “o” melhor em algumas coisas, como leitura de livros, por exemplo, mas permite ainda navegar na internet, enviar emails, ver filmes, seriados, e ouvir músicas, organizar fotos, jogar games. Embora não faça ligações telefônicas, o Skype é compatível. Enfim, assim como o iPhone e o iPod touch suas grandes inspirações, o iPad é um marco da convergência, que editoras de livros, revistas e jornais, além de estúdios de cinema e emissoras de televisão, esperam possa esquentar a distribuição digital de seu conteúdo (filmes, livros, etc.), assim como o iPod o fez com a música.

E mais: ao contrário de qualquer concorrente que possa surgir, o iPad já nasce com 140 mil aplicativos, desenvolvidos originalmente para os seus irmãos mais velhos, disponíveis. Assim como os netbooks e smartphones, o tablet da Apple traz em sua gênese os principais conceitos da vanguarda de hábitos digitais, como o nomadismo e a computação em nuvem. Enquanto um notebook ou um desktop tradicional são principalmente usados para rodar programas que estão instalados no computador, o tablet aposta na internet e aplicativos leves que não raro são voltados para o uso da web.

O jornalista norte-americano Nicholas Carr vai mais além. Para ele, “o lançamento do tablet marca o fim da era PC”. Carr é autor do livro A Grande Mudança (Editora Landscape), em que defende que a computação em nuvem está mudando a sociedade de forma tão profunda quanto a energia elétrica nos últimos cem anos. Excessos à parte, Carr argumenta que os velhos PCs se tornaram dinossauros, máquinas muito complicadas para as necessidades básicas das pessoas hoje em dia. Enfim, a expectativa em torno do tablet pode parecer exagerada agora (a queda nas ações da Apple, registradas no dia posterior ao anúncio do aparelho, são o mais claro sinal de que as expectativas geradas eram difíceis, senão impossíveis, de serem alcançadas), mas é nas inúmeras possibilidades que o iPad trás consigo e ainda não podem ser plenamente compreendidas hoje que está o seu eventual potencial revolucionário. “O iPad quer ser o aparelho matador para a era da nuvem, uma máquina que vai definir essa nova era da computação como o Windows definiu a era anterior (a do computador pessoal)”, escreveu Carr, em um artigo publicado na New Republic.

Se a profecia irá se concretizar é cedo para dizer. Por enquanto, como descreveu Steve Jobs, o iPad é apenas “muito mais íntimo do que um notebook, muito mais eficiente que um smartphone e tem uma tela linda”.

Leia também
O paradoxo da Apple

Texto complementar  a matéria publicada por@brunogalo@rmanzoni na revista ISTOÉ Dinheiro em 5 de fevereiro de 2010

Crédito das fotos: turboalieno e jesusbelzunce





A era da convergência

29 10 2010

Disney, Google, Globo, Petrobrás, Coca-Cola, entre outras, apostam em histórias que se desdobram em diferentes mídias, a começar pela web, para fortalecer suas marcas, angariar fãs e vender mais

Está cada dia mais difícil para as velhas mídias disputarem a atenção das pessoas com a aquela que une todas as mídias em uma só, a internet. E também está cada vez mais difícil fazer o público prestar atenção nas tradicionais propagandas. “Os tempos mudaram e as empresas sabem que é preciso inovar para capturar o olhar dos consumidores para seus produtos e marcas”, disse à DINHEIRO Jeff Gomez, fundador da Starlight Runner, que tem entre seus clientes, gigantes como Disney, Coca-Cola, Microsoft, Fox e Mattel.

O que atraiu todas essas empresas foi à capacidade de Gomez de criar histórias que possam ser desdobradas em diferentes mídias, a começar pela internet. E assim, fortalecer suas marcas, angariar fãs e vender mais. Para se ter uma ideia, uma única ideia de Gomez fez as vendas da Coca-Cola crescer 4%. Ele pegou os personagens de uma campanha publicitária da empresa, que viviam dentro de uma máquina de refrigerantes, e os transformou em jogos online. Em recente entrevista, Jonathan Mildenhall, vice-presidente mundial de marketing da Coca-Cola, definiu com eloquência o potencial do ainda novo conceito. “A narrativa transmídia é a mais fértil e lucrativa plataforma de publicidade do mundo”, declarou.

Gomez é um pioneiro na criação de projetos de narrativa transmídia, termo cunhado pelo teórico norte-americano, Henry Jenkins, em 2006, mas cuja aplicação é bem mais antiga. Jenkins diz que, antes, as mídias tradicionais pouco ou nada influenciavam umas as outras. Hoje, elas coexistem. Nos anos 90, a publicidade criou o termo crossmedia para designar a divulgação de produtos e serviços em múltiplas plataformas de mídia. Algo que nasceu com Walt Disney. Não é de hoje, portanto, que se sabe que contar uma boa história pode render também um bom dinheiro. Com o surgimento de novas tecnologias e o avanço da internet, o conceito evoluiu, dando origem ao transmídia. Nele, uma história principal se desdobra em diferentes mídias, de um quadrinho a uma série online, de um filme a um game, ou vice-versa, se expandindo e ganhando, assim, novos contornos e intensidade. Não se iluda, no entanto, por trás desses múltiplos desdobramentos há, é claro, uma lógica de mercado bastante elementar, a de ganhar dinheiro de diferentes formas e maneiras.

Tudo começou na década de 30, com Walt Disney. Enquanto os demais estúdios apostavam exclusivamente na venda de ingressos para ganhar dinheiro, a maior parte da receita de Disney vinha das licenças de uso de Mickey Mouse e outros personagens em toda sorte de brinquedos, além de discos e livros. Quase ninguém percebeu, mas nasceu ali o modelo de negócios que faria a fortuna de pessoas como George Lucas, o criador de Guerra nas Estrelas, de 1977, e que hoje é mimetizado por toda a indústria do entretenimento, vide Harry Potter, Senhor dos Anéis, Homem-Aranha, etc.

E foi justamente Lucas quem deu o passo seguinte rumo à narrativa transmídia com a saga de Darth Vader. A partir da demanda do público, ele transformou a história do filme em uma mitologia complexa com diferentes partes dela sendo contadas em diversas mídias há mais de três décadas. Em 2007, a revista Forbes estimou em mais de US$ 22 bilhões a receita gerada pelo filme, dos quais “apenas” cerca de US$ 4,5 bilhões vieram das bilheterias. O restante veio de games, livros, desenhos animados, além de uma infinidade de produtos associados à marca, de sabres de luz a canecas.

Mas o que até pouco tempo era exceção com a digitalização das mídias e o interesse do público, esses desdobramentos começam a tomar conta do mercado publicitário e do entretenimento. Sites, celulares, redes sociais, games, aplicativos, blogs, ARGs (jogos de realidade alternativa, na sigla, em inglês), são hoje responsáveis por expandir universos criados em programas de televisão, livros, filmes e até produtos e marcas que a princípio nada teriam a contar, como Google e Coca-Cola. Empresas que fazem uso de conceitos associados à narrativa transmídia em suas campanhas de marketing. Ou ainda a Petrobrás, que associou sua marca a um épico transmídia sobre sustentabilidade e a relação do ser humano com o planeta, chamado Five Nations.

Se Guerra nas Estrelas é apontado como pioneiro na construção de uma narrativa transmídia, foi um outro filme, este bem mais modesto, que introduziu o elemento internet nesta equação. Em 1999, muito antes do YouTube e das redes socias, por exemplo, o filme de terror A Bruxa de Blair revelou a força da web para divulgar produtos e desdobrar uma história. A partir do site oficial foi criada uma lenda em torno do longa. A engenhosa história pregava que as imagens a serem mostradas no filme eram reais e que a produção era na verdade um trabalho amador feito por estudantes desaparecidos. Talvez não funcionasse nos dias de hoje, mas em 1999, fez um filme de apenas US$ 60 mil render inacreditáveis US$ 250 milhões. E mais: A Bruxa de Blair tornou as campanhas online padrão em Hollywood e uma das maiores aliadas de quem deseja atrair a atenção do público para um produto – seja ele qual for.

“Este é um novo jeito de se contar histórias permitidas pelas novas tecnologias e adaptado aos anseios do público de hoje”, afirmou à DINHEIRO Henry Jenkins, autor do livro Cultura da Convergência. No passado, os exemplos de narrativa transmídia nasciam da necessidade de encontrar uma forma nova e barata de divulgar um produto ou da demanda do público em conhecer mais daquele universo. “Nos primeiros BBBs, criávamos conteúdo exclusivo para serem veiculadas em colunas de jornais ou programas de rádios bancados por nós”, conta Luis Erlanger, diretor de comunicação da TV Globo, que já na últimas edições aposentou as velhas mídias pela internet. A emissora carioca é uma das empresas brasileiras de comunicação mais atentas ao novo conceito. Nas últimas edições o Big Brother explorou novos caminhos. “Com a transmídia, descobrimos que havia muitas outras possibilidades.” Erlanger conta que os participantes do programa têm blogs, que são acessados por milhares de pessoas. E os fãs do programa podem até ligar para um número e ouvir o que um determinado participante fala. Além de elevar a audiência, a estratégia permite que a emissora lucre com as novas ferramentas.

Desde o fim de 2008, Erlanger conta que a empresa The Alchemists, com escritório no Rio de Janeiro e em Los Angeles, especializada em transmídia e responsável, entre outros projetos, pelo Five Nation, tem mantido uma consultoria permanente para a criação da estratégia de lançamento de novos programas. “Eles são muito criativos”, garante Erlanger, que se refere aos fundadores da empresa, o brasileiro Maurício Mota e o norte-americano Mark Warshaw. Este último, por sinal, tem no currículo, um dos mais bem sucedidos case transmidia da história, o popular seriado Heroes. Ele foi pioneiro, ao combinar marcas e produtos, com os desdobramentos da história do seriado sobre pessoas comuns, que um belo dia, descobrem ter superpoderes. A montadora Nissan começou seu relacionamento com os heróis patrocinando quadrinhos online com os personagens. Depois, a marca passou a fazer parte do enredo do seriado, com um carro se tornando vital para o desenrolar dos episódios.

A estratégia se revelou um sucesso logo de cara. A história em quadrinho criada para contar a vida anterior dos novos super-heróis foi apontada como uma das mais lida da história, o site oficial do seriado recebia 25% do tráfego total da emissora, e a associação com marcas como a Nissan, que lançou um carro a partir dos tais quadrinhos, gerou uma receita adicional superior a US$ 50 milhões para a emissora, em apenas um ano. Mas na mesma velocidade com que o público aderiu a série, imediatamente a partir do segundo ano quando os desdobramentos online e o próprio seriado foram se tornando cada vez mais confusos e repletos de furos de continuidade, uma boa parte da audiência se afastou. “O fã pode ser o maior aliado de uma marca, mas para isso é importante manter a integridade da história principal ou do produto que está sendo oferecido. Só assim o todo pode ser bem sucedido”, alerta Maurício Mota. Quer dizer, a arte de contar boas histórias (e fazer um bom dinheiro com elas) ainda está longe de ser plenamente compreendida e dominada. Um elemento surpresa, a reação do público, segue impossível de se prever.

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Texto complementar  a matéria publicada por@brunogalo na revista ISTOÉ Dinheiro em 30 de abril de 2010.