O paradoxo da Apple

11 11 2010

A empresa mais inovadora da atualidade faz sempre tudo igual quando lança um novo produto. E o impressionante é que dá certo. Será que vai funcionar agora com o iPad?

Todo ano ele faz tudo sempre igual. A mesma camiseta de gola alta e manga comprida preta, a calça jeans surrada, o tênis New Balance cinza. O mesmo palco, as mesmas luzes, a mesma plateia que o ovaciona e um produto na mão. Esta é a liturgia do profeta da inovação Steve Jobs. Eis o paradoxo da Apple, considerada a empresa mais inovadora da atualidade, mas cuja máquina de marketing vem repetindo a mesma estratégia há anos. Quando subiu ao palco na quarta-feira 27, para anunciar o iPad, um minicomputador com tela sensível ao toque, sem mouse ou teclado, Jobs repetiu este ritual.  Só que desta vez, o produto foi recebido com mais ceticismo. As ações da Apple despencaram mais de 8% no dia seguinte ao anúncio, o que não aconteceu em outros eventos da companhia, como o lançamento do iPhone. Apesar dessa recepção morna do mercado, Jobs foi saudado, mais uma vez, em termos bíblicos.  “A última vez que houve tamanha excitação por causa de uma tábua (tablet, em inglês), ela tinha alguns mandamentos gravados nela”, escreveu com rara ironia e precisão o jornal norte-americano The Wall Street Journal, comparando o criador da Apple a Moisés. A revista inglesa The Economist, dedicou sua capa ao iPad, com o título “O livro de Jobs”, numa referência a Jó e a também um dos alvos do produto – o iPad será um concorrente direto do Kindle.

Nos últimos anos, Steve Jobs vem lapidando quase que à perfeição a estratégia cultuada, mas também conservadora, de lançamento dos seus novos produtos. O absoluto silêncio é sua maior arma. David Yoffie, professor de negócios de Harvard, estimou que nos meses entre o anúncio e a venda do primeiro iPhone em 2007, a Apple conseguiu mais de US$ 400 milhões em propaganda gratuita, apenas se mantendo completamente calada, alimentando o frenesi da mídia mundial. Algo bastante parecido – e em uma escala ainda maior — foi se desenhando nos últimos meses em torno do tablet da Apple. A máquina de marketing da companhia, cuja logomarca é uma maçã, tem uma forma de funcionar que não se altera. O impressionante é que, até agora, tem dado sempre certo. Mas conseguirá, desta vez, fazer o iPad decolar?

“Vejo muito potencial neste produto e não tenho dúvida de que muitos concorrentes irão ser lançados antes do final deste ano”, disse à DINHEIRO Rob Enderle, presidente da consultoria norte-americana Enderle Group. A lógica do marketing da Apple é baseada em algumas regras que contrariam tudo o que é considerado padrão na indústria do Vale do Silício, região dos Estados Unidos, na Califórnia, onde estão localizadas as principais companhias de tecnologia. A primeira delas é o segredo. A empresa guarda seus produtos sob o mais absoluto sigilo. Os funcionários são avisados que não podem comentar os projetos em que estão trabalhando com suas próprias famílias. Os times de hardware e software ficam em prédios separados. E os crachás eletrônicos impedem acessos a determinadas áreas do escritório. Os concorrentes têm táticas diferentes. A Intel, por exemplo, publica regularmente o calendário de lançamento de seus produtos. A Microsoft programa todos os seus lançamentos e cria uma série de fatos até a data do lançamento, antecipando boa parte dos recursos.

O segundo pilar da estratégia da Apple é o controle. O hardware e o software são proprietários. Isso quer dizer que só funcionam em um produto da Apple. Quer rodar o sistema operacional Mac OS? Compre um Mac. O iPod é umbilicalmente ligado à loja online iTunes, que, por sua vez, só pode ser acessada via software. Sabe de quem? Da própria Apple. E, por fim, existe o fator Jobs. Centralizador, ele se preocupa com os mínimos detalhes do produto, microgerenciando tudo. Muitos o consideram tirânico. Seu desempenho no palco também é essencial para o sucesso do produto. Quem não se lembra dele tirando de um envelope o MacBook Air, o então notebook mais fino do mundo? Durante o lançamento do iPad, usou várias frases de efeito, como “produto mágico e revolucionário” ou “ele é muito mais íntimo do que um notebook, muito mais eficiente que um smartphone”.

O tablet da Apple não é o primeiro de sua categoria, mas isso também não é um problema. O iPod não inaugurou o mercado de tocadores de música digital, tampouco o iPhone construiu o segmento de smartphones. Ambos, no entanto, tinham características e recursos que os tornavam atraentes. Entre eles, um design sofisticado e uma loja online com músicas e aplicativos. O iPad apesar das suas limitações, aposta em múltiplas funções para atrair o público. Ele é ao mesmo tempo um dispositivo que acessa internet, permite ver vídeos, ouvir músicas, receber e enviar e-mails, organizar fotos, jogar games e – ufa – um leitor de livros eletrônicos. O iPad é também um marco da convergência, que editoras de livros, revistas e jornais, além de estúdios de cinema e emissoras de televisão, esperam que possa esquentar a distribuição digital – e paga – de seu conteúdo, assim como o iPod o fez com a música. A expectativa gerada, desta vez, parece ter sido alta demais.

Os comentários gerais eram de que o iPad era apenas um iPhone gigante. Os usuários fanáticos começaram a fazer listas sobre os itens que faltavam no aparelho. As mais frequentes referiam-se à ausência de uma câmera e capacidade de poder fazer mais de uma aplicação funcionar ao mesmo tempo, chamada de multitarefa. O porta-voz da Apple Brasil, Fábio Ribeiro, garantiu que pelo menos dá para ouvir música e ler um livro ao mesmo tempo. A máquina de marketing da Apple está à prova, embora tenha feito tudo igual novamente.

Matéria publicada por@brunogalo@rmanzoni na revista ISTOÉ Dinheiro em 5 de fevereiro de 2010

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A tábua da salvação?

4 11 2010

Steve Jobs apresenta o iPad e bate de frente com Kindle e netbooks. Aparelho, que promete esquentar o mercado de filmes e livros digitais, aponta para o “fim da era PC”

“A última vez que houve tamanha excitação por causa de uma tábua (tablet, em inglês), ela tinha alguns mandamentos gravados nela”, escreveu com rara ironia e precisão o jornal norte-americano Wall Street Journal, em referência a imensa expectativa despertada por um, até então, não confirmado tablet (um minicomputador com tela sensível ao toque, sem mouse ou teclado) da Apple, no final do ano passado. Um detalhe: como de costume ninguém na empresa, que tem diversos produtos na coleção de design do Museu de Arte Moderna de Nova York, confirmava a existência do aparelho.

Nada disso parecia importar, o histórico de inovações da Apple somados ao culto em torno da sua marca e a sua impressionante ressurreição na última década eram mais do que satisfatórios para justificar o burburinho. Assim, apenas alguns rumores e mais tarde a confirmação de que a Apple faria um anúncio em janeiro deste ano foram suficientes para que as ações da companhia batessem sucessíveis recordes na bolsa eletrônica Nasdaq. Nada de muito diferente por aqui também, nos últimos anos o lendário fundador da Apple, Steve Jobs, vem lapidando quase que a perfeição a estratégia de lançamento dos seus novos produtos. O absoluto silêncio é sua maior arma. David Yoffie, um professor de Harvard, estimou que nos meses entre o anúncio e a venda do primeiro iPhone em 2007, a Apple tenha conseguido mais de US$ 400 milhões em propaganda gratuita, apenas se mantendo completamente calada, alimentando o frenesi da mídia mundial. Algo bastante parecido – e em um escala talvez ainda maior – foi se desenhando nos últimos meses em torno de um tablet da Apple. Mas uma pergunta ao menos continuava sem resposta: tamanha expectativa conseguiria ser saciada?

Finalmente, na tarde da última quarta-feira, 27 (de janeiro), Jobs subiu ao palco, em São Francisco, ainda magro em decorrência do tratamento de um câncer, para o tão esperado anúncio. Ele vestia seu tradicional uniforme (camiseta gola alta e manga cumprida preta, além de uma surrada calça jeans e um tênis New Balance cinza). Como também lhe é característico, Jobs não poupou adjetivos e elogios ao novo gadget, o iPad, que chega as lojas em 60 dias nos Estados Unidos e outros países. Para o Brasil, não há previsão. Sua primeira frase no evento não deixava dúvidas de que ele queria – mas será que conseguiria? – fazer história novamente: “queremos começar 2010 apresentando um produto verdadeiramente mágico e revolucionário”. Emissoras de televisão nos EUA chegaram a interromper a sua programação normal para mostrar o novo aparelho. Sem fazer muito suspense, algo que não lhe é usual, Jobs perguntou: “Todo mundo usa um smartphone ou um laptop hoje em dia, há espaço para uma terceira categoria de aparelhos entre um e o outro?”

Jobs e toda a indústria de eletrônicos sabem a resposta a essa pergunta desde outubro de 2007, quando a taiwanesa Asus lançou o primeiro netbook, um minilaptop que não servia para fazer quase nada longe da web. Ignorado pela imprensa especializada, o aparelho foi um gigantesco sucesso, copiado por todas as fabricantes, mas solenemente esnobado pela Apple.“Os teclados são apertados, o software é terrível e o hardware podre. Jamais colocaria a nossa marca nisso”, disse, em março do ano passado, Tim Cook, diretor operacional da Apple e na época ocupando interinamente a presidência no lugar de Jobs. Os netbooks, no entanto, tornaram-se um fenômeno de vendas e, entre o pioneiro EeePC e os últimos lançamentos, passaram por mudanças tão profundas que é difícil perceber o que os diferem dos seus irmãos mais velhos, os notebooks.

Hoje, os netbooks atendem com precisão a quem deseja um equipamento mais prático e portátil do que um notebook ou espera mais conforto e facilidade de navegação do que oferece um smartphone. O muito bem-sucedido netbook, no entanto, é um dispositivo voltado principalmente para o trabalho e não para a diversão. Eis o nicho que Jobs torce para ser amplo e com o qual sonha atender com o iPad. “Vejo muito potencial neste produto e não tenho dúvida de que inúmeros concorrentes irão ser lançados antes do final deste ano”, disse à Dinheiro Rob Enderle, presidente da consultoria norte-americana Enderle Group.

Entre as críticas que o aparelho recebeu, as mais freqüentes eram referentes à ausência de uma câmera e de capacidade multitarefa. O iPad apesar das suas limitações, aposta em múltiplas funções para atrair o público. Em setembro do ano passado, ao ser questionado sobre o leitor de livros eletrônicos da Amazon, o Kindle, pelo The New York Times, Jobs disse: “tenho certeza de que sempre haverá dispositivos dedicados (com apenas uma função), e eles podem ter algumas vantagens em fazer apenas uma coisa. Acredito, no entanto, que aparelhos com múltiplas funções vão ganhar o dia, porque as pessoas não vão querer pagar por aparelhos que só servem para fazer uma coisa”.

E é exatamente isso que o iPad é. Ele pode não ser “o” melhor em algumas coisas, como leitura de livros, por exemplo, mas permite ainda navegar na internet, enviar emails, ver filmes, seriados, e ouvir músicas, organizar fotos, jogar games. Embora não faça ligações telefônicas, o Skype é compatível. Enfim, assim como o iPhone e o iPod touch suas grandes inspirações, o iPad é um marco da convergência, que editoras de livros, revistas e jornais, além de estúdios de cinema e emissoras de televisão, esperam possa esquentar a distribuição digital de seu conteúdo (filmes, livros, etc.), assim como o iPod o fez com a música.

E mais: ao contrário de qualquer concorrente que possa surgir, o iPad já nasce com 140 mil aplicativos, desenvolvidos originalmente para os seus irmãos mais velhos, disponíveis. Assim como os netbooks e smartphones, o tablet da Apple traz em sua gênese os principais conceitos da vanguarda de hábitos digitais, como o nomadismo e a computação em nuvem. Enquanto um notebook ou um desktop tradicional são principalmente usados para rodar programas que estão instalados no computador, o tablet aposta na internet e aplicativos leves que não raro são voltados para o uso da web.

O jornalista norte-americano Nicholas Carr vai mais além. Para ele, “o lançamento do tablet marca o fim da era PC”. Carr é autor do livro A Grande Mudança (Editora Landscape), em que defende que a computação em nuvem está mudando a sociedade de forma tão profunda quanto a energia elétrica nos últimos cem anos. Excessos à parte, Carr argumenta que os velhos PCs se tornaram dinossauros, máquinas muito complicadas para as necessidades básicas das pessoas hoje em dia. Enfim, a expectativa em torno do tablet pode parecer exagerada agora (a queda nas ações da Apple, registradas no dia posterior ao anúncio do aparelho, são o mais claro sinal de que as expectativas geradas eram difíceis, senão impossíveis, de serem alcançadas), mas é nas inúmeras possibilidades que o iPad trás consigo e ainda não podem ser plenamente compreendidas hoje que está o seu eventual potencial revolucionário. “O iPad quer ser o aparelho matador para a era da nuvem, uma máquina que vai definir essa nova era da computação como o Windows definiu a era anterior (a do computador pessoal)”, escreveu Carr, em um artigo publicado na New Republic.

Se a profecia irá se concretizar é cedo para dizer. Por enquanto, como descreveu Steve Jobs, o iPad é apenas “muito mais íntimo do que um notebook, muito mais eficiente que um smartphone e tem uma tela linda”.

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O paradoxo da Apple

Texto complementar  a matéria publicada por@brunogalo@rmanzoni na revista ISTOÉ Dinheiro em 5 de fevereiro de 2010

Crédito das fotos: turboalieno e jesusbelzunce





Calma, o iPod só morreu como símbolo

27 08 2010

Como o MP3 player da Apple se tornou ícone da primeira década da era digital. E por que lentamente, a “era da nuvem” vai colocando um ponto final na “era do iPod”

Mais de 220 milhões de unidades vendidas. Cerca de 8,5 bilhões de músicas comercializadas na loja online iTunes Store. Tema de diversos livros, o mais famoso deles The Perfect Thing (a coisa perfeita, em inglês), do jornalista norte-americano Steven Levy. Para um aparelhinho que nasceu só para ajudar a vender mais iMacs, os computadores da Apple, e foi recebido com certa desconfiança pelo público e pela imprensa especializada, o iPod e seus indefectíveis fones de ouvido brancos foram – mesmo – bem longe. Nos oito anos seguintes ao lançamento, em 2001, o elegante e cobiçado tocador de MP3 se tornou um ícone cultural, sinônimo de música digital, objeto de desejo e, talvez, maior símbolo da primeira década de um mundo conectado.

Enfim, testemunhamos a “era iPod”, que, com a chegada de uma série de serviços que permitem o streaming ao invés do download, parece ter chegado ao fim. Para Alex Ross, crítico da revista The New Yorker e autor de O Resto é Ruído (Editora Cia. das Letras), em que faz um panorama da história da música no século 20, “um grande número de ouvintes mais jovens pensa do jeito como o iPod pensa. Eles já não veem mais o mundo de uma única maneira”, escreveu, se referindo às milhares de músicas que podem ser armazenadas no aparelho, bem como a função shuffle, que alterna de forma aleatória as músicas tocadas.

Para outros, o iPod não é nenhuma quebra de modelo; é, no fundo, apenas música para os nossos ouvidos. Ele nem foi o primeiro tocador de MP3 (ao contrário do walkman, da Sony, que, em 1979, foi pioneiro da música portátil e móvel). Ainda assim, se tornou um imenso fenômeno. Qual a explicação então para o MP3 player da Apple ter se tornado tão emblemático? “Usar a simplicidade como poder é nosso grande segredo”, arrisca Fábio Ribeiro, porta-voz da Apple no Brasil. “A especificação dos nossos produtos não revela o seu potencial”, conclui.

Simples, bonito e fácil de usar. Basicamente, o iPod empacota esses conceitos, além de trazer consigo a aura inovadora e o poder de atração presentes em todos os apetrechos da empresa de Steve Jobs (ao menos, desde o lançamento do próprio iPod). “Os aparelhos da Apple não são obras de arte, mas são obras de design com relevância museológica”, observa Marcelo Dantas, designer e criador de museus. Não por acaso, diversos gadgets da companhia fazem parte da coleção de design do Museu de Arte Moderna de Nova York. Além de tudo isso, antes do iPhone, cerca de 50% da receita da Apple chegou a vir da venda de iPods.

Passado o longo encantamento inicial, no entanto, o aparelho – e a própria Apple – precisava evoluir para continuar atual, e foi isso que aconteceu. Em 2003, Jobs deu sua derradeira cartada no mercado fonográfico – e na distribuição de conteúdo legal. Com uma base crescente de fiéis usuários, ele convenceu as gravadoras – atordoadas com o impacto do Napster e o início da pirataria digital – de que o melhor lugar para vender música digitalizada era a Apple. Inaugurada em abril daquele ano, a iTunes Store virou a maior vendedora de música do mundo em apenas cinco anos. Mas esse sucesso todo não resolveu o problema da pirataria. Pelo contrário, ampliou a questão.

Como observa Chris Anderson, editor da revista Wired, em Free (Editora Campus), “o iPod (…) só faz sentido se você não precisar pagar milhares de dólares pela sua biblioteca musical. O que, é claro, muitas pessoas não fazem”. Uma rápida conta – divida o número de músicas vendidas via iTunes pelo de iPods vendidos – comprova a tese. Portanto, como observou ao Link o mídia futurista alemão Gerd Leonhard, “a grande maioria das músicas nos iPods são ilegais”.

Para a Apple, isso não é um grande problema. A sua principal fonte de renda é a venda de hardware (neste caso de iPods) e não de músicas. Assim, nos anos que se seguiram, o gadget foi se transformando. Ainda que a conta-gotas, incorporou novas funções, mais espaço de memória e novas cores. Em 2007, veio a grande transformação. Com o lançamento do iPhone e, pouco depois, do iPod Touch, o aparelho abandona em definitivo sua primeira encarnação – a de um simples tocador de MP3 – para se tornar um marco da convergência. Um único dispositivo para ouvir música, ver filmes, acessar a internet, etc.

“A principal diferença é que no iPod eu colocava conteúdo baixado, enquanto no iPhone eu consigo baixar ou consumir conteúdo diretamente nele”, observa hoje o teórico Henry Jenkins, autor de Cultura da Convergência (editora Aleph). “Foi uma dramática revolução”, conclui.

Apenas no início de 2008, no entanto, com a criação da App Store, loja de aplicativos da Apple (que é modelo para todas as fabricantes e, até para o Google, com o Android) é que a transformação ganhou seus contornos atuais e cristalizou o seu alcance. Uma série de aplicativos para leitura de livros, por exemplo, se popularizam. Em 2009, inúmeros serviços de música baseados na nuvem, ou seja, em que não se precisa baixar nada, como Last.fm e Spotify, lançaram aplicativos para o iPhone e o iPod Touch.

Lentamente, a “era da nuvem” vai colocando um ponto final na “era do iPod”. A queda na venda dos iPods tradicionais é um sinal disso. Mas, atenta, a Apple já reinventou o seu antigo tocador de MP3. Hoje, em sua versão, mais avançada, o iPhone (sim, o smartphone da Apple é hoje o melhor iPod) e o iPod Touch (muito popular com games), ela está pronta para competir com seus incontáveis concorrentes – em suma, todo dispositivo portátil com acesso à internet. Na verdade, talvez até esteja em vantagem. Atualmente, os dois aparelhos são responsáveis pela metade do tráfego de dados por dispositivos móveis no mundo. Ainda assim, a Apple guarda uma carta na manga.

“Tenho certeza de que sempre haverá dispositivos dedicados, e eles podem ter algumas vantagens em fazer apenas uma coisa”, disse Steve Jobs ao The New York Times, em setembro, questionado sobre o Kindle, da Amazon. “Mas acho que aparelhos com múltiplas funções vão ganhar o dia”, concluiu, talvez prenunciando sua próxima cartada, o tão esperado tablet, que, entre outras, promete esquentar o mercado de distribuição de livros e filmes digitais. Um detalhe: ninguém confirma o aparelho, que já se convencionou ser chamado de iPad. Jobs sabe bem o que diz e a discreta morte e a reinvenção do conceito do iPod comprovam isso.

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Matéria publicada no caderno Link do Estadão de 6 de dezembro de 2009 feita a quatro mãos por: @brunogalo e @rafael_cabral