Um dia, seu filho vai se sentir como você se sente

15 11 2010

Todas as crianças estão (ou querem estar) na internet e a usam com desenvoltura; daqui para a frente, elas devem transformar esse ambiente

“Se pudesse escolher, adoraria ser criança agora”, suspira o apresentador e blogueiro Marcelo Tas. Observador da relação dos pequenos com as novas tecnologias, ele se diz fascinado com as possibilidades de interação, participação e expressão do mundo atual. Para Tas, a linguagem da rede é muito parecida com o universo das crianças: fragmentado, espontâneo e não-linear pela própria natureza.”Ao contrário dos adultos, que são mais enquadrados pelos vícios e hábitos de linguagem, com os sentidos mais domesticados, as crianças estão abertas às (novas) experiências, sem preconceito”, defende.

Não por acaso, hoje, de um jeito ou de outro, as crianças estão – ou querem estar – na internet. A presença dos pequenos na rede é maciça e não para de crescer. Por aqui, de acordo com uma pesquisa da Turner Brasil Network do ano passado, 51% das crianças e jovens, entre 6 e 14 anos, acessam a web todos os dias. Segundo um estudo recente da Nielsen, nos Estados Unidos, enquanto o número total de usuários cresceu 10% entre 2004 e 2009, o de crianças, entre 2 e 11 anos, subiu 19%.

“Muita gente diz que a internet está nos tornando mais burros. De certa forma, isso é verdade. Desaprendi a decorar telefones, endereços, dados geográficos, datas. Mas tudo bem. Aprendi muitas outras coisas que compensam o que perdi”, diz o educador brasileiro Paulo Blinkstein. “Sempre foi assim na história da humanidade. Lembre-se que houve época que não havia escrita, e o que se valorizava era a memorização pura”, exemplifica.

“Enquanto o adulto vê a internet como um substantivo, a criança a vê como um verbo. Ou seja, uma ferramenta que permite a ela fazer o que deseja. E hoje, para formar uma frase, todos, não só as crianças, precisamos deste verbo”, acredita Volney Faustini, pesquisador da área. Para os pequenos, a tecnologia até parece invisível. O fascínio que elas despertam está muito mais nas suas possibilidades, do que nelas mesmas. Em suma, elas são um meio e não um fim em si. “O adulto é atraído pela ferramentas. A criança, pela história que elas contam”, analisa Tas.

Hoje, no entanto, pesquisar na internet, enviar e-mail, criar blog e postar vídeo no YouTube são coisas que as crianças já fazem e aprendem a fazer sozinhas. É preciso, portanto, estimulá-las a extrapolar esse modelo de publicação e de acesso a informação. Para Blinkstein, que é especialista no uso da tecnologia aplicada à educação, a disponibilidade instantânea de informação está tornando a educação tradicional cada vez mais obsoleta, deixando as crianças à deriva.

“Infelizmente, elas não aprendem a usar o seu tempo online para atividades mais profundas. A internet se vira só um passatempo, o que é trágico”, afirma. “Usar o computador como uma ferramenta de investigação cientifica profunda não é espontâneo, não se aprende sozinho. É preciso ter um professor muito bem preparado, materiais de qualidade e formas de avaliação aprofundadas. E, principalmente, a tecnologia permite centrar a educação no aluno, e não no professor”, explica Blinkstein.


INOVAÇÃO

Ah, sim. Se você chegou até aqui sem entender o porquê do título, responda: você já ficou surpreso – ou até mesmo assustado – com a desenvoltura e naturalidade que seu filho demonstra ao mexer com os equipamentos eletrônicos e o computador na sua casa? Fique tranquilo. Você não está sozinho e nem é o primeiro a ter essa impressão.

“Tudo que existe no mundo antes de nascermos é absolutamente natural. As novidades que surgem enquanto somos jovens são uma oportunidade e, com sorte, uma carreira a seguir. Tudo aquilo que aparece depois que você tem trinta anos, entretanto, é anormal, o fim do mundo como o conhecemos. Isso, até que tenhamos convivido com essa novidade por uns bons dez ou quinze anos, quando, enfim, ela começa a parecer normal”, definiu certa vez – e com rara precisão – Douglas Adams, autor inglês do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias.

ENTREVISTA

URS GASSER, professor 

Urs Gasser é professor do centro de Internet e Sociedade da Universidade de Harvard e co-autor do livro Born Digital: Undestanding the First Generation of Digital Natives (Nascidos digitais: entendendo a primeira geração de nativos digitais), amplo estudo sobre aqueles que nasceram após 1980. No geral, o livro é otimista quanto ao futuro da internet, “importante para formar cidadãos globais com espírito de inovação e colaborativismo”, mas critica a falta de segurança dos dados das crianças na rede.

Afinal, o que é um nativo digital?Usamos esse termo em um sentido metafórico. Ele descreve a população de jovens nascidos depois dos anos 1980 e que teve acesso às tecnologias digitais de uma maneira significativa. São as crianças e os adolescentes de hoje, que não conseguem imaginar a vida sem o Google ou a Wikipedia. É importante destacar que nem todas as crianças hoje são nativas digitais, já que existe uma exclusão digital muito grande e nem todas têm a oportunidade (ou a habilidade) de participar do ciberespaço.

A relação da geração pós-Napster com as leis de copyright pode ajudar a atualizar as leis de direitos autorais?
A resposta da Justiça para a cultura de compartilhamento hoje é a repressão. Quando essas crianças envelhecerem, no entanto, essas leis se tornarão mais brandas e se adaptarão a essa nova lógica. A ascensão dos Partidos Piratas na Europa é o começo desse desenvolvimento.

A criatividade das crianças esbarra nos interesses da indústria?
Às vezes. Não sabemos se a internet vai continuar sendo a plataforma aberta que conhecemos hoje, possibilitando a cultura do remix e o compartilhamento, pois há forças significativas que defendem uma versão mais controlada da rede, por causa de seus interesses. Isso sim pode prejudicar a criatividade. Estamos em uma encruzilhada. Não sabemos se a arquitetura da internet continuará a mesma, mas foi ela que propiciou a parte boa da cultura digital.

Com tantas fontes, as crianças digitais são mais críticas com aquilo que consomem?
A criança média, não. Porém, vemos que quanto mais conectada, mais ela está predisposta a checar em mais de uma fonte. Descobrimos uma regra: Quanto mais conectada a criança, mais discernimento ela tem.

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Matéria de 12 de outubro de 2009 a seis mãos: @ana_freitas,@brunogalo@rafael_cabral





O futuro que os pequenos desenham hoje

15 11 2010

Como as crianças nascidas na era digital mudam tudo ao nosso redor

Comunicação
Falar e escrever no celular, usar comunicador instântaneo, ler sites e blogs: tudo isso vai contribuir para o desenvolvimento da inteligência comunicacional nas crianças. Apesar de alguns críticos dizerem que o uso de MSN pode afetar negativamente a capacidade dos pequenos de compreender expressões faciais, os educadores concordam que por causa da internet as crianças estão escrevendo e lendo mais. O caráter colaborativo da rede também incentiva a produção de conteúdo multimídia – teremos crianças escrevendo, gravando áudios e falando para a câmera cada vez mais cedo.

Cultura
O acesso a bens culturais, filmes, livros e músicas caminha para se tornar um serviço e não um produto específico. Para variar, é na música que este processo está mais avançado. Em 2008, 95% das músicas baixadas não tiveram direitos autorais pagos. Mas uma mudança na nossa relação com as canções está em curso neste momento. Em 2008, 52% dos jovens norte-americanos, entre 13 e 17 anos, preferiram ouvir músicas em sites de streaming gratuito, como MySpace, Pandora e Spotify, em que não se precisa baixar nada. Tudo é ouvido online.

Direito Autoral
Segundo uma pesquisa do canal Cartoon Network, duas em cada cinco crianças já trocaram arquivos pela web. Claro que isso muitas vezes esbarra na questão do copyright. Mas será que essa é uma noção que ainda será usada quando esses pequenos chegarem à vida adulta? Já nascidos digitais, eles são parte de uma geração acostumada à cultura do remix que foi popularizada com a internet e com sites como o pioneiro Napster. Para o pesquisador Urs Gasser, esse comportamento pode mudar não só as leis de direitos autorais, mas também redefinir o que é, afinal, ‘autoria’.

Política
Políticos estão percebendo a eficiência das ferramentas da web 2.0 para fazer campanha de um jeito diferente. Essas plataformas são dominadas pelos jovens, que por causa da troca rápida e multimídia de informações, têm capacidade maior de descobrir verdades e mentiras, se unir contra e a favor daquilo em que acreditam e apoiar candidatos e ideias com os quais se identificam. O primeiro exemplo desse novo engajamento aconteceu nas últimas eleições presidenciais norte-americanas: Barack Obama conseguiu levar às urnas milhões de jovens, num pleito em que o voto é facultativo.

Trabalho
No futuro as empresas serão menores, não existirá mais o conceito de carreira, os empregos vão acabar e o ócio criativo será total: trabalharemos só por prazer. Ao menos é isso que defende o professor Thomas Malone, especialista em trabalho do MIT. Pesquisas já mostram que os jovens estão batendo de frente com seus chefes por causa de diferenças culturais e de comunicação. E diante de funcionários acostumados a opinar livremente, não familiarizados com hierarquias e imposições, as estruturas empresariais serão forçadas a mudar drasticamente.

Cérebro
Pesquisas recentes em neurociência afirmam que a internet está mudando o cérebro das crianças. Apesar de o processo cognitivo que as leva a compreender melhor a linguagem digital ser plenamente entendido (é semelhante ao de aprender a língua mãe), ainda não se sabe exatamente como o uso da web vai mudar a massa cinzenta. De acordo com Gary Small, autor do livro iBrain, sobre as modificações que o cérebro está sofrendo com o uso da internet, fazer buscas no Google ativa uma área mais extensa do cérebro do que os pontos que são estimulados durante a leitura, por exemplo.

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Matéria de 12 de outubro de 2009 a seis mãos: @ana_freitas,@brunogalo@rafael_cabral





Ter ou não ter? Eis a questão que o digital propõe

30 08 2010

“Você pagaria por algo que não vai ser seu?” é uma das questões mais levantadas pelos críticos da nuvem. Afinal, se os arquivos digitais ainda são mal vistos por aqueles que gostam da mídia física, como os puristas do vinil, muita gente também tem um pé atrás com o streaming e com o arquivamento online.

Ao transformar a cultura em serviço, a nuvem tiraria das pessoas a posse de livros, filmes e músicas — uma situação inédita para os consumidores. Mas não é exatamente isso que acontece quando compramos um ingresso de cinema, alugamos um filme na locadora, pagamos a mensalidade da TV a cabo ou sintonizamos o rádio?
“Eu ficaria triste se a mídia parasse de ser produzida em formatos que eu possa colecionar, como o do DVD, mas acredito que as pessoas não vão ter problemas em aceitar serviços que oferecem bibliotecas gigantes de cultura, às quais elas terão acesso irrestrito. Eu pago todo mês um pacote de canais de TV, por exemplo”, exemplifica o pesquisador norte-americano Henry Jenkins.

Já o estudioso da cultura na nuvem Patrik Wikström acha normal que as pessoas fiquem ressabiadas com a mudança. “Nos acostumamos a pensar que somos donos das mídias que consumimos. Como o computador permite que a gente guarde dados de uma maneira semelhante como fazemos com coleções de CDs ou DVDs, essa lógica foi importada para o download. A princípio, isso foi mais fácil de entender tanto pela indústria quanto pelos consumidores”, afirma.

É necessário um bocado de tempo para mudar o comportamento das pessoas e, ainda mais, o do mercado. Serviços que guardam músicas na internet existem pelo menos desde 2002, quando surgiu a Last.fm. Em um primeiro momento, no entanto, a indústria tentou lutar contra a facilidade que sites assim ofereciam. Até então gratuitos, Last.fm e a rádio online Pandora acabaram sofrendo com a pressão das grandes gravadoras e tiveram que começar a cobrar por conteúdo, perdendo grande parte da sua até então fiel base de ouvintes e quase toda sua relevância.

Para Wikström, as pessoas só aceitarão voltar a usar ferramentas de arquivamento online quando estas garantirem que elas terão “acesso irrestrito ao conteúdo, com baixo custo, a qualquer hora”, como se aqueles bens espalhados na nuvem de fato pertencessem a elas. “Acredito que as coisas estão mudando agora que a indústria percebeu que o modelo do iTunes não é o ideal para combater a pirataria e lucrar com a música digital. Já existem serviços na nuvem, como o próprio Grooveshark, que são bons tanto para o mercado quanto para os clientes”, finaliza.

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Matéria publicada no caderno Link do Estadão de 6 de dezembro de 2009 feita a quatro mãos por: @brunogalo e @rafael_cabral





Porque a indústria prefere o streaming ao download

30 08 2010

O mercado de cultura na era digital, pós-Napster, vive hoje sua primeira grande transição. Quando viu seu principal negócio – a venda de CDs – ir por água abaixo por causa da cultura do compartilhamento, a indústria musical a recriminou e, só mais tarde, tentou se adaptar: apostou na trava anticópias (DRM) para barrar a pirataria e, com o modelo de vendas avulsas do iTunes, achou que finalmente lucraria com a internet. Não deu certo.

Se a loja de músicas da Apple até teve seus trunfos (sentidos mais nas vendas de iPods do que no balanço das gravadoras), 95% dos downloads de músicas continuam piratas. Ao completar 10 anos, o mercado parece finalmente ter amadurecido e, aos poucos, renasce. Em vez da venda de arquivos, uma adaptação canhestra da lógica da venda de mídias físicas, a aposta agora é na nuvem – em que filmes, livros e músicas cada vez mais deixam de ser encarados como produtos tradicionais, para ser vistos como serviços.

“É uma mudança de pensamento. Se muitos dos sites de streaming de hoje tendem a morrer, outros (Hulu e Spotify, por exemplo) buscam acordos e terão um futuro brilhante pela frente”, aposta o escritor Patrik Wikström, autor do livro “Music In The Clouds” (´A Música Nas Nuvens´, que será lançado em 2010 nos EUA).

Um dos grandes sinais de que a indústria vê futuro nessa migração para a nuvem está no acordo que a EMI assinou com o até então ilegal Grooveshark, que permite que as pessoas disponibilizem e ouçam todas as músicas que quiserem em streaming. Em vez de processar seus donos, a multinacional decidiu se aliar a eles.

O intuito dos empresários, segundo críticos como o ativista da cultura livre Cory Doctorow, é restituir o controle que tinham antes que a distribuição de bens culturais fosse tomada de assalto por consumidores conectados. “Cobrando por algo que você consegue de graça, investidores sonham em voltar ao lucrativo monopólio que detinham antes de ele ser aniquilado pela hiper-competição da web”, escreveu Doctorow, em artigo publicado no jornal inglês “The Guardian”.

A questão é: e se esse controle for vantajoso para os usuários? A locadora Netflix cobra US$ 9 de seus clientes e deixa que eles assistam a quantos filmes aguentarem na web. Já o Grooveshark, com acervo de mais de 6 milhões de músicas, é gratuito, custeado por publicidade e por aqueles que pagam por um serviço mais completo.

“Acredito que o modelo legal do Spotify vai ser o mais bem sucedido de todos os já tentados. Ele oferece opções de navegação aos usuários, além de ser rápido e fácil”, opina o jornalista Greg Kot, que no livro “Ripped: How the Wired Generation Revolutionized Music (Ripped: Como a Geração Conectada Revolucionou a Música”) trata das mudanças comportamentais que a distribuição P2P causou.

Mas, para Kot, o streaming só vingará se oferecer mais vantagens do que os downloads ilegais. Ou seja: deve ser mais completo e acessível que os sites de torrent, cobrando nada ou tão pouco quanto. “As pessoas só migrarão se os sites assegurarem que eles terão acesso àquele conteúdo quando quiserem, como quiserem”. Ou seja, o mercado terá que continuar em constante adaptação ao gosto dos usuários. Mesmo se decidirem naufragar os piratas e devolver parte do poder às gravadoras, os clientes continuam sempre com a razão.

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Depois da música, é a vez dos filmes e livros

30 08 2010

Até pouco tempo atrás, YouTube e Vimeo eram praticamente as únicas boas opções de conteúdo audiovisual na nuvem. No entanto, de um tempo para cá, o mercado norte-americano vem apostando na distribuição online de filmes, séries e programas de televisão.

Uma coalizão de estúdios (NBC, Fox, ABC e outros) criou o Hulu, que oferece gratuitamente toda a programação desse canais. Já a Netflix, a maior locadora dos Estados Unidos, lançou um bem-sucedido pacote ilimitado de filmes por streaming a US$ 9 – já adotado por 20% de seus clientes. Ambas as iniciativas trabalham em aplicativos para iPhone e iPod Touch, entre outros dispositivos móveis, e devem influenciar na transição dos aparelhos para a era da computação em nuvem.

Aqui no Brasil, não há nenhum serviço da dimensão dos citados, mas já dá para assistir a parte da programação da Fox no Mundo Fox e a uma boa quantidade de filmes e seriados pelo Terra TV. A locadora Netmovies também inaugurou o seu aluguel de filmes na web, mas o catálogo ainda é bem fraco.

Já o mercado de livros digitais, até então quase inexplorado e pouco atrativo para os leitores, foi aquecido pelo lançamento de dispositivos específicos para a leitura, como o Kindle, e deve ser bastante expandido como ambicioso projeto de digitalização do Google, o Google Books.

Filmes
Alguns serviços de download e streaming de filmes começam a surgir, ainda de forma modesta. Serviços de download têm dificuldade para decolar devido ao alto preço, ao espaço limitado de disco rígido do usuário para armazenar grandes arquivos e a dificuldade em se assistir aquele filme comprado ou alugado em diferentes dispositivos eletrônicos. Já o streaming, apesar de agradar aos usuários pela facilidade e comodidade, ainda é visto com desconfiança pelos estúdios, que não liberam os lançamentos para serem vistos nesse formato. Eles trabalham em uma solução intermediária.

Livros
É o mais atrasado entre os três. Apenas recentemente, com o surgimento do leitor de livros eletrônicos Kindle, da Amazon, e alguns outros e-readers, começou a fazer algum sentido pensar que, um dia, o livro de papel não será o principal suporte para a literatura. Ainda assim, o Kindle tem muito a evoluir, como, por exemplo, permitir o acesso à internet. Enquanto esse dia não chega, ou quem sabe o tablet da Apple venha a suprir essa oportunidade, a bibliteca da nuvem se restringe a pequenas amostras oferecidas por praticamente todas as editoras, além dos já tradicionais Scribd e Google Books.

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Todos os caminhos levam à nuvem

27 08 2010

Filmes, livros e músicas disponíveis na hora, no lugar e no aparelho em que você quiser

Hoje, basta um computador com acesso à internet para obter (em muitos casos, de maneira ilegal) praticamente qualquer filme, livro ou música que você quiser. Logo, estes produtos culturais estarão – e em muitos casos já estão – a apenas um clique de distância, sem a necessidade de baixar nada e disponível na hora, no lugar e no gadget com acesso a web que você preferir. E, o melhor, de forma legal e, não raro, gratuita.

Cortesia da nuvem. Mas afinal o que é a nuvem? O mundo da computação pré-internet foi construído sobre a lógica de que tudo devia estar instalado ou armazenado na máquina de cada pessoa. A nuvem rompe com esse conceito. Cada vez mais, tudo que queremos ou precisamos pode ser acessado diretamente pelo navegador de internet. A maior oferta e acesso à banda larga, inclusive móvel, é essencial para o sucesso dessa visão.

“A cultura já está online. Qualquer mídia pode ser digitalizada com vantagens econômicas para a indústria. O que estamos começando a ver agora, é a internet se tornando o principal suporte para termos acesso a cultura e entretenimento”, observa o estudioso norte-americano Nicholas Carr, autor de A Grande Mudança (Editora Landscape), em que defende que a computação em nuvem está mudando a sociedade de forma tão profunda quanto à energia elétrica nos últimos cem anos.

Antes, no entanto, é preciso entender a evolução que permitiu chegarmos aqui. O culto despertado pelo iPod consagrou, na música, o dispositivo pelo qual se acessa o conteúdo, tornando possível hoje, entre outros motivos, a ascensão da música na nuvem. Se desde a virada do século ninguém dava mais muita bola para o desgastado CD, todos queriam ter o seu tocador de MP3, de preferência o iPod. Por sua vez, o sucesso do aparelho, no seu conceito original, só foi possível porque antes a prática de copiar CDs e compartilhar música na rede, simbolizada pela explosão do Napster, havia se disseminado.

O público estava, portanto, sedento por um dispositivo bacana em que pudesse colocar as suas músicas e levá-las consigo para onde quiser. O iPod, por sua vez, tirou vantagem também, do surgimento mais de vinte anos antes do Walkman que levou a música para ser trilha sonora inseparável de milhões – hoje, bilhões – de pessoas em todo o mundo. Na verdade, o que se viu durante toda a história da música como produto – iniciada com o fonógrafo – pode ser resumida como uma busca por ser cada vez mais acessível e disseminada.

Voltando no tempo, depois do fonógrafo levar a música para além das apresentações ao vivo, o rádio espalhou-a por novos ambientes e momentos do dia a dia das pessoas. Além disso, foi ele que introduziu o acesso gratuito as canções. Enquanto, a música transcendeu a barreira do suporte há muito tempo, os livros apenas agora começam a se libertar do papel. Por sua vez, os filmes estão no meio do caminho entre uma coisa e outra. Eis a explicação do motivo da oferta de conteúdo musical por streaming, ou seja, na nuvem, ser tão mais variada.

Os efeitos dessa mudança já podem ser observados como de costume entre a fatia do público mais ávida por música. Tanto nos Estados Unidos, como no Reino Unidos, duas diferentes pesquisas chegaram a mesma conclusão. O consumo de música em sites de streaming aumenta, principalmente entre os mais jovens, ao mesmo tempo, que o uso regular de sites de compartilhamento de músicas cai.

Uma outra clara evidência de que a nuvem veio mesmo para ficar está nos estúdios de cinema. Apesar de viveram as turras com serviços de streaming de filmes, como o Netflix, todos os grandes estúdios de cinema trabalham em serviços baseados na nuvem. A Disney (da qual Steve Jobs, o lendário fundador e CEO da Apple, é o maior acionista individual), por exemplo, desenvolve o Keychest, tecnologia que permitira ao público pagar um preço único pelo acesso permanente a um filme em diferentes plataformas ou aparelhos com acesso a internet, como computador, vídeo game, celulares, etc. Na literatura, as coisas ainda engatinham em menor velocidade.

“Spotify, Hulu, Google Books, etc. são todos bons exemplos, mas nenhum deles é completo o suficiente. Alguém (adivinhe quem?) precisa se dedicar e juntar tudo isso sob um grande guarda-chuva, com uma única interface e um único lugar em que as pessoas possam administrar todo o seu conteúdo, sejam livros, filmes, músicas, etc. Atualmente  isto é tudo muito fragmentado e essas empresas estão trabalhando em produtos isolados”, afirmou ao Link Steve Jobs, dono da Apple. Quer dizer, o Fake Steve Jobs, personagem criado pelo jornalista norte-americano especializado em mídia e tecnologia Dan Lyons.

É, ele também parece saber muito bem o que diz. Não por acaso, durante um bom tempo houve quem achasse até no Vale do Silício que o Fake (falso, em inglês) era uma brincadeira do original. E o verdadeiro Jobs, o que será que está tramando? Uma pista foi dada no final de semana passado quando a Apple revelou a compra do serviço de streaming de música Lala. Não dúvide: todos os caminhos levam à nuvem.

MÍDIA FÍSICA
Sempre haverá mercado para a mídia física, nem que seja para colecionar. Prova disso é o revival do vinil nos últimos anos. Ainda há muita gente que prefere o suporte físico a uma cópia digital. E não será o streaming e a nuvem a pôr fim nisso. Ao menos, não por enquanto.

DOWNLOAD
Apesar da facilidade do streaming, nada leva a crer que o download acabará de uma hora pra outra. Até porque quase tudo que está na nuvem por ser baixado. E o download, de alguma forma, da às pessoas a sensação de “posse” sobre o produto.

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Calma, o iPod só morreu como símbolo

27 08 2010

Como o MP3 player da Apple se tornou ícone da primeira década da era digital. E por que lentamente, a “era da nuvem” vai colocando um ponto final na “era do iPod”

Mais de 220 milhões de unidades vendidas. Cerca de 8,5 bilhões de músicas comercializadas na loja online iTunes Store. Tema de diversos livros, o mais famoso deles The Perfect Thing (a coisa perfeita, em inglês), do jornalista norte-americano Steven Levy. Para um aparelhinho que nasceu só para ajudar a vender mais iMacs, os computadores da Apple, e foi recebido com certa desconfiança pelo público e pela imprensa especializada, o iPod e seus indefectíveis fones de ouvido brancos foram – mesmo – bem longe. Nos oito anos seguintes ao lançamento, em 2001, o elegante e cobiçado tocador de MP3 se tornou um ícone cultural, sinônimo de música digital, objeto de desejo e, talvez, maior símbolo da primeira década de um mundo conectado.

Enfim, testemunhamos a “era iPod”, que, com a chegada de uma série de serviços que permitem o streaming ao invés do download, parece ter chegado ao fim. Para Alex Ross, crítico da revista The New Yorker e autor de O Resto é Ruído (Editora Cia. das Letras), em que faz um panorama da história da música no século 20, “um grande número de ouvintes mais jovens pensa do jeito como o iPod pensa. Eles já não veem mais o mundo de uma única maneira”, escreveu, se referindo às milhares de músicas que podem ser armazenadas no aparelho, bem como a função shuffle, que alterna de forma aleatória as músicas tocadas.

Para outros, o iPod não é nenhuma quebra de modelo; é, no fundo, apenas música para os nossos ouvidos. Ele nem foi o primeiro tocador de MP3 (ao contrário do walkman, da Sony, que, em 1979, foi pioneiro da música portátil e móvel). Ainda assim, se tornou um imenso fenômeno. Qual a explicação então para o MP3 player da Apple ter se tornado tão emblemático? “Usar a simplicidade como poder é nosso grande segredo”, arrisca Fábio Ribeiro, porta-voz da Apple no Brasil. “A especificação dos nossos produtos não revela o seu potencial”, conclui.

Simples, bonito e fácil de usar. Basicamente, o iPod empacota esses conceitos, além de trazer consigo a aura inovadora e o poder de atração presentes em todos os apetrechos da empresa de Steve Jobs (ao menos, desde o lançamento do próprio iPod). “Os aparelhos da Apple não são obras de arte, mas são obras de design com relevância museológica”, observa Marcelo Dantas, designer e criador de museus. Não por acaso, diversos gadgets da companhia fazem parte da coleção de design do Museu de Arte Moderna de Nova York. Além de tudo isso, antes do iPhone, cerca de 50% da receita da Apple chegou a vir da venda de iPods.

Passado o longo encantamento inicial, no entanto, o aparelho – e a própria Apple – precisava evoluir para continuar atual, e foi isso que aconteceu. Em 2003, Jobs deu sua derradeira cartada no mercado fonográfico – e na distribuição de conteúdo legal. Com uma base crescente de fiéis usuários, ele convenceu as gravadoras – atordoadas com o impacto do Napster e o início da pirataria digital – de que o melhor lugar para vender música digitalizada era a Apple. Inaugurada em abril daquele ano, a iTunes Store virou a maior vendedora de música do mundo em apenas cinco anos. Mas esse sucesso todo não resolveu o problema da pirataria. Pelo contrário, ampliou a questão.

Como observa Chris Anderson, editor da revista Wired, em Free (Editora Campus), “o iPod (…) só faz sentido se você não precisar pagar milhares de dólares pela sua biblioteca musical. O que, é claro, muitas pessoas não fazem”. Uma rápida conta – divida o número de músicas vendidas via iTunes pelo de iPods vendidos – comprova a tese. Portanto, como observou ao Link o mídia futurista alemão Gerd Leonhard, “a grande maioria das músicas nos iPods são ilegais”.

Para a Apple, isso não é um grande problema. A sua principal fonte de renda é a venda de hardware (neste caso de iPods) e não de músicas. Assim, nos anos que se seguiram, o gadget foi se transformando. Ainda que a conta-gotas, incorporou novas funções, mais espaço de memória e novas cores. Em 2007, veio a grande transformação. Com o lançamento do iPhone e, pouco depois, do iPod Touch, o aparelho abandona em definitivo sua primeira encarnação – a de um simples tocador de MP3 – para se tornar um marco da convergência. Um único dispositivo para ouvir música, ver filmes, acessar a internet, etc.

“A principal diferença é que no iPod eu colocava conteúdo baixado, enquanto no iPhone eu consigo baixar ou consumir conteúdo diretamente nele”, observa hoje o teórico Henry Jenkins, autor de Cultura da Convergência (editora Aleph). “Foi uma dramática revolução”, conclui.

Apenas no início de 2008, no entanto, com a criação da App Store, loja de aplicativos da Apple (que é modelo para todas as fabricantes e, até para o Google, com o Android) é que a transformação ganhou seus contornos atuais e cristalizou o seu alcance. Uma série de aplicativos para leitura de livros, por exemplo, se popularizam. Em 2009, inúmeros serviços de música baseados na nuvem, ou seja, em que não se precisa baixar nada, como Last.fm e Spotify, lançaram aplicativos para o iPhone e o iPod Touch.

Lentamente, a “era da nuvem” vai colocando um ponto final na “era do iPod”. A queda na venda dos iPods tradicionais é um sinal disso. Mas, atenta, a Apple já reinventou o seu antigo tocador de MP3. Hoje, em sua versão, mais avançada, o iPhone (sim, o smartphone da Apple é hoje o melhor iPod) e o iPod Touch (muito popular com games), ela está pronta para competir com seus incontáveis concorrentes – em suma, todo dispositivo portátil com acesso à internet. Na verdade, talvez até esteja em vantagem. Atualmente, os dois aparelhos são responsáveis pela metade do tráfego de dados por dispositivos móveis no mundo. Ainda assim, a Apple guarda uma carta na manga.

“Tenho certeza de que sempre haverá dispositivos dedicados, e eles podem ter algumas vantagens em fazer apenas uma coisa”, disse Steve Jobs ao The New York Times, em setembro, questionado sobre o Kindle, da Amazon. “Mas acho que aparelhos com múltiplas funções vão ganhar o dia”, concluiu, talvez prenunciando sua próxima cartada, o tão esperado tablet, que, entre outras, promete esquentar o mercado de distribuição de livros e filmes digitais. Um detalhe: ninguém confirma o aparelho, que já se convencionou ser chamado de iPad. Jobs sabe bem o que diz e a discreta morte e a reinvenção do conceito do iPod comprovam isso.

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