Este garoto é o novo rei da internet

9 10 2010

Andrew Mason levou menos de dois anos para transformar o Groupon, site que iniciou a febre mundial das compras coletivas, na empresa de crescimento mais rápido da história – à frente de Google, Amazon e Facebook. Em entrevista exclusiva, ele fala sobre o sucesso repentino e seus planos para o Brasil

Não é todo dia que surge um negócio bilionário na internet. Na verdade, são bem raras essas datas. Ainda mais em um período tão curto de tempo. Fundado em novembro de 2008, o Groupon é a empresa com o crescimento mais rápido da história, segundo a revista Forbes, à frente da loja virtual Amazon, do Google, da rede social Facebook, e quem mais você imaginar. O site, que iniciou a febre mundial das compras coletivas, tem faturamento estimado, pelo banco Morgan Stanley, de mais de US$ 500 milhões neste ano. A marca do US$ 1 bilhão de receita deve ser rompido já em 2011. Feito que Google e Amazon levaram cinco anos para atingir. E o Facebook deve alcançar apenas este ano, o sexto após sua fundação. Já a Apple, criada por Steve Jobs em 1976, levou oito. À frente do Groupon, quem está desbancando toda essa turma de peso é um rosto ainda desconhecido do grande público, Andrew Mason, o garoto de 29 anos da foto abaixo.

Apesar do pouco tempo de vida, o Groupon (combinação das palavras “grupo” e “cupom”, em inglês) está presente em 30 países, inclusive no Brasil, operando cerca de 240 sites em diferentes cidades e com mais de 20 milhões de usuários cadastrados. O Groupon desembarcou no País em junho deste ano com o Clube Urbano. No final de outubro, será a vez do seu criador, Andrew Mason, aterrissar por aqui. O interesse pelo Brasil é fácil de ser entendido. “O seu País já é hoje um dos nossos cinco principais mercados, mas caminha para em breve ser o segundo maior”, disse Mason, em entrevista exclusiva à DINHEIRO. Um pouco mais complexo é explicar o fenômeno global criado por ele, o das compras coletivas, em que uma oferta só é válida se um número mínimo de compradores for atingido. No Brasil, o número de clones, sites que copiam o modelo criado por Mason, se aproxima de 40. No mundo, eles já são mais de mil.

Andrew conta que queria apenas conhecer lugares bacanas na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, onde ele morava. E, é claro, não gastar muito dinheiro. Corria o ano de 2008 e a eclosão da crise financeira mundial desanimaria muitos empreendedores. Mas não o jovem Andrew, então com 27 anos. Aquele momento conturbado se revelaria ideal para o Groupon começar. Ao oferecer promoções diárias com descontos que podem chegar a 90% em restaurantes, salões de beleza, hotéis, clínicas de estética, academias, shows, teatros, bares, etc., o site capturou com rara precisão os anseios e o estado de espírito de um consumidor mudado pela crise. “As pessoas se tornaram muito mais cautelosos e menos gastadores”, disse à DINHEIRO Martin Lindstrom, autor dinamarquês de A Lógica do Consumo, escolhido pela revista Time, em 2009, uma das 100 pessoas mais influentes do planeta. Mas esse é apenas um lado da moeda.

O sucesso do Groupon guarda ainda semelhanças com o do Google. Toda vez que a palavra “advogado”, por exemplo, é buscada no Google, um anúncio pago de um escritório de advocacia surge entre ou ao lado dos resultados. Isso permitiu que milhões de pequenos negócios pudessem anunciar seus produtos e serviços por meio do gigante das buscas. Não é por acaso, que a maior parte da receita de US$ 23 bilhões da Google venha justamente desses anúncios. Já o Groupon consegue atender desde grandes corporações, que querem girar seus estoques, até pequenos empreendimentos com orçamentos de marketing limitados. Oferecendo a eles um canal de vendas e divulgação. “Nunca houve nada, seja rádio, televisão, jornais ou o Google, tão eficiente em atrair novos consumidores como nós”, afirma, sem modéstia, Mason. “Somos a melhor forma de divulgação para um pequeno negócio a surgir até hoje”, conclui. A julgar pela fila de espera formada por mais de 40 mil empresas em todo o mundo e os vistosos resultados alcançados pelo site e seus parceiros, ele parece ter razão.

O Groupon fica em média com 50% do total arrecadado por cada promoção. Apenas uma oferta feita no dia 19 de agosto deste ano com a cadeia de lojas de roupas Gap em 85 cidades nos Estados Unidos gerou uma receita estimada de US$ 5,5 milhões para a empresa. No Brasil, uma oferta de um restaurante japonês em Campinas, no interior de São Paulo, chamado ClickSushi, atraiu quase 8 mil interessados, gerando uma receita estimada de R$ 70 mil para o Clube Urbano, que tem mais de 600 mil usuários cadastros.

Apesar de pioneiro e da presença global, o Groupon não foi o primeiro em nossas terras e mares. O Peixe Urbano aportou por aqui em março e desde então já amealhou mais de 1 milhão de usuários. Uma bem sucedida e surpreendente oferta do site aconteceu no Rio de Janeiro. Mais de 3 mil pessoas se interessaram por um passeio de jipe pela Floresta da Tijuca oferecido pela empresa Jeep Tour. Uma promoção que gerou mais de R$ 60 mil para o site. Além dos já citados, ClickOn e Imperdível são outros dos sites mais usados do gênero no País. “A velocidade com que as compras coletivas vem crescendo no Brasil nos surpreendeu”, afirma Julio Vasconcellos, um dos fundadores do Peixe Urbano. O grande número de sites espalhados por 25 cidades do País atraiu até empresas estabelecidas na internet brasileira e fez surgir os agregadores de ofertas, como o ApontaOfertas, ligado ao site de geolocalização Apontador, e o SaveMe, comprado recentemente pelo comparador de preços BuscaPé. “Esse é um mercado em franco crescimento no Brasil e não podíamos ficar de fora”, disse Romero Rodrigues, presidente do BuscaPé.

Em poucos meses, os sites de compras coletivas saíram do zero e já somam mais de 5 milhões de visitantes únicos no País. As lojas de varejo online, como Submarino, Waltmart e Livraria Saraiva recebem 24 milhões de internautas por mês e movimentaram apenas no primeiro semestre deste ano mais de R$ 7,8 bilhões, crescimento de 41%. “É um novo modelo de e-commerce que veio para ficar”, resume Gerson Rolim, diretor da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico.

Uma outra lição deixada pelo Groupon está no seu potencial viral, em que os próprios usuários são estimulados a fazer a propaganda e divulgação das promoções – e do próprio site -, sem custos para a empresa. Afinal, as ofertas só são válidas se atingirem um número mínimo de interessados. “O brasileiro é o que mais compartilha as promoções por meio das redes sociais no mundo”, conta o alemão Florian Otto, presidente do Clube Urbano.

A expansão internacional do Groupon teve início em maio com a aquisição do clone europeu CityDeal. Apenas um mês apôs o fundo russo de investimentos Digital Sky Technologies, que mantêm participação no Facebook e na Zynga, de jogos sociais, adquirir 10% da empresa pela bagatela de US$ 135 milhões. A transação elevou o valor de mercado do Groupon a incríveis US$ 1,35 bilhão. A única empresa a superar a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado mais rápido foi o site de vídeos YouTube, que desde 2006 pertence ao Google, mas a despeito do grande número de usuários ainda não dá lucro. Diferente de muitas companhias surgidas na internet nos últimos anos, como o microblog Twitter e o próprio YouTube, o Groupon possui um modelo de negócios claro e eficiente. Mas também fortemente enraizado no mundo real e fácil de ser copiado. O que acabou despertando muita concorrência.

Andrew, no entanto, não parece se incomodar. “Continuar inovando é uma obsessão para nós”, afirma. Para ele, a demanda das empresas tem sido muito maior do que o Groupon pode suportar atualmente. O que explicaria o grande número de concorrentes. Para resolver esse problema, o Groupon está testando um modelo de ofertas personalizadas, que vai permitir a empresa oferecer um número maior de promoções diferentes em um mesmo dia, em uma mesma cidade. Outro caminho está na divisão de grandes cidades, com diferentes ofertas para cada região. “Somos a empresa que finalmente abriu as portas do e-commerce para milhares de pequenos negócios locais. E estamos apenas no começo”, afirma. De fato, apesar da largada impressionante, Mason ainda tem um longo percurso até colocar sua empresa no hall de gigantes, como Apple, Google e Amazon.  Fortalecer a marca Groupon em todo o mundo é só um dos primeiros desafios. Para isso, até o fim do ano, por exemplo, o nome Clube Urbano deve ser aposentado por aqui. Mas e sobre os clones? “Diga a eles que não nos contentaremos em ser o nº 2”.

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Matéria publicada por @brunogalo na revista ISTOÉ Dinheiro de 4 de outubro de 2010





“Mantenha as coisas simples”

9 10 2010

Eis a principal lição de Andrew Mason, fundador e CEO do site de compras coletivas Groupon, a nova forma de comércio eletrônico que se espalhou pelo mundo

Você pode até não conhecê-lo ainda, mas vai ouvir falar dele e de sua empresa cada vez mais daqui para frente. Em tempo recorde, Andrew Mason ergue um negócio bilionário. Fundado em novembro de 2008, o Groupon, site que iniciou a febre mundial das compras coletivas, é a empresa de crescimento mais rápido da história – à frente de Google, Amazon e Facebook. Já em valor de mercado, a única empresa a superar a marca de US$ 1 bilhão mais rápido que o Groupon foi o YouTube, que desde 2006 pertence ao Google, mas a despeito do grande número de usuários ainda não dá lucro. Diferente de muitas companhias surgidas na internet nos últimos anos, como o Twitter e o próprio YouTube, o Groupon possui um modelo de negócios claro e eficiente.

Mason que se descreve como um “típico geek recluso” cresceu no subúrbio de Pittsburgh, perto de Chicago. Aos 6 anos, ele começou aulas de piano e até os 20 poucos queria seguir a carreira musical. Programador autodidata, ele lançou em novembro de 2007 um site chamado The Point que era para fazer petições online e angariar apoio para todos os tipos de causas. O site fez algum barulho, mas não era rentável. Foi quando ele começou a madurar a ideia do Groupon. Em entrevista exclusiva, Mason, de 29 anos, fala sobre o sucesso inesperado, os planos para o Brasil e a importância de manter as coisas simples nos negócios.

DINHEIRO – Qual a sua opinião sobre os mais de mil sites no mundo que copiaram o modelo que você criou?
MASON – Não tenho nada contra os nossos clones no geral. Em muitos países, eles estão contribuindo para divulgar nosso modelo. As pessoas à frente de alguns deles são empreendedores apaixonados. E eles podem virem a se tornar nossos parceiros. Estamos nos espalhando pelo mundo rapidamente e em alguns países comprar um site já estabelecido pode ser o melhor caminho. Fizemos isso na Europa, no Japão, no Chile e na Rússia, por exemplo.

DINHEIRO – Mas não no Brasil. Por que?
MASON – Não acreditávamos que havia um líder estabelecido no seu País. E acho que estávamos certos. Em poucos meses já temos mais de 600 mil usuários cadastrados no Brasil.

DINHEIRO – Como o Groupon espera se consolidar como líder global de compras coletivas?
MASON – O mais importante é focar em acordos de grande qualidade e estabelecer boas parcerias com os melhores negócios em cada país e cidade. É isso que vai determinar nosso sucesso. É importante também tentar entender por que há tantos clones. Primeiro, não há uma grande diferenciação entre o que oferecemos e nossos concorrentes. Mas outro aspecto é que ao oferecermos apenas uma oferta por dia não damos conta de atender todos os negócios interessados. Estamos nos tornando uma marca global e as melhores marcas vão continuar querendo trabalhar conosco.

DINHEIRO – Quais os seus planos específicos para o Brasil?
MASON – Crescer o Groupon para mais cidades e regiões. Há muitas grandes áreas urbanas no Brasil. Continuar inovando é uma obsessão para nós. E vamos oferecer promoções personalizadas de acordo com o perfil de cada usuário. É algo que já começamos nos Estados Unidos. O seu País já é hoje um dos nossos cinco principais mercados, mas caminha para em breve ser o segundo maior. O usuário brasileiro é muito social e a velocidade com que estamos crescendo no Brasil é maior que em qualquer outro país no mundo.

DINHEIRO – O número de sites de compras coletivas no Brasil se aproxima de 40 e ao menos dois são fortes concorrentes ao Clube Urbano. Qual o seu recado para eles?
MASON – Diga a eles que não nos contentaremos em ser o número 2. Não posso revelar valores, mas estamos investindo de forma agressiva no Brasil. No final de outubro irei conhecer ao seu Pais ajudar nossa equipe local.

DINHEIRO – Qual o papel do Groupon na evolução do comércio eletrônico?
MASON – Somos a empresa que finalmente abriu as portas do e-commerce para milhares de pequenos negócios locais. E estamos apenas no começo. Acreditamos que temos o potencial de mudar a maneira como as pessoas se relacionam e compram em negócios locais assim como a Amazon mudou a maneira como as pessoas compras produtos e bens duráveis. Acho que estamos no caminho.

DINHEIRO – Mas como nasceu a ideia do Groupon?
MASON – Meu objetivo era oferecer uma maneira das pessoas – eu inclusive – descobrir lugares bacanas para ir na sua cidade. Sou um típico geek recluso que fica na frente do computador todo o tempo. E toda festa de final de ano, eu pensava sobre as coisas que não havia feito naquele ano, as experiências que não tinha tido. Seja pelo alto preço ou por não ter certeza se seria legal. O Groupon é um incentivo para levantarmos do sofá e experimentarmos algo excitante em nossas cidades e com as pessoas que gostamos. Mas a grande surpresa para mim foi o imenso apetite dos pequenos negócios por novos consumidores. E isso foi essencial para o nosso sucesso. Atendemos aos anseios dos consumidores, mas também dos estabelecimentos. 97% das empresas querem fazer novas ofertas conosco.

DINHEIRO – O Groupon está avaliado em mais de US$ 1 bilhão, onde vocês podem chegar?
MASON – Nos Estados Unidos, 80% do dinheiro gasto pelas pessoas é na sua vizinhança. Portanto, é uma grande oportunidade. E estamos focados em melhorar nossa plataforma para aproveitar esse que considero um dos maiores negócios ainda em desenvolvimento no mundo. O mercado de compras coletivas será ainda maior do que podemos imaginar. Nunca houve nada, seja rádio, televisão, jornais ou o Google, tão eficiente em atrair novos consumidores como nós. Somos a melhor forma de propaganda para um negócio local até hoje.

DINHEIRO – Mas como continuar relevante no futuro?
MASON – O próximo passo para nós é tornar a experiência mais relevante e recompensadora. Durante os últimos meses desenvolvemos um algoritmo capaz de oferecer promoções personalizadas. Mas não podemos perder a capacidade de surpreender os usuários. Esse é um grande desafio.

DINHEIRO – E qual o maior fraqueza do Groupon?
MASON – Acredito que é a incapacidade de oferecer mais de uma promoção por dia. E a demanda dos negócios locais é muito grande. Temos mais de 40 mil estabelecimentos na fila. Esperando para anunciar seus produtos e serviços. As ofertas personalizadas vão permitir oferecermos um número maior de promoções diferentes em um mesmo dia, em uma mesma cidade. Outro caminho está na divisão de grandes cidades, com diferentes ofertas para cada região.

DINHEIRO – Houve dificuldade em obter investimentos no começo do site?
MASON – Conseguir investidores interessados em participar do nosso projeto nunca foi um obstáculo. O maior desafio no começo foi provar que o nosso negócio era bom e funcionava. Encontrar parceiros dispostos a experimentar algo inovador nem sempre fácil. Mas em algumas semanas o negócio decolou.

DINHEIRO – Você tem planos de abrir o capital do Groupon?
MASON – Não temos planos de entrar na bolsa. Eu nunca me considerei um empresário antes do Groupon. Eu gosto de construir coisas e meu objetivo agora é apenas melhorar o serviço.

DINHEIRO – Qual a lição mais importante que você aprendeu com o Groupon?
MASON – Mantenha as coisas simples. Antes do Groupon tinha uma outra empresa de internet chamada The Point uma plataforma online para fazer petições e angariar apoio para todos os tipos de causas. Ela era complicada e as pessoas não a usavam ou entendiam bem. Encontrar a essência do seu negócio e garantir que qualquer um possa entende-lo em poucos segundos. Foi isso que busquei fazer com o Groupon. E acredito que se conseguir fazer isso às chances de sucesso serão sempre muito maiores.

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Entrevista publicada por @brunogalo na revista ISTOÉ Dinheiro de 4 de outubro de 2010