Computador não é o limite: YouTube quer TV e celular

30 08 2010

Cofundador do site que se tornou sinônimo de vídeos online, Chad Hurley veio ao Brasil na semana passada e afirma, categórico: “A internet vai matar a TV”

Quinta-feira, 27, no escritório do Google, em São Paulo, Chad Hurley, de 32 anos, co-fundador do YouTube, tem 30 minutos cronometrados para conversar com o Link. No País pela primeira vez, ele disse que veio para “estreitar os laços com o importante mercado brasileiro”.

Sentado no canto de uma sala de reunião, se reclina na cadeira enquanto mexe em um surrado iPhone. Curioso. Afinal, ele é funcionário do Google desde outubro de 2006, quando o gigante da busca pagou US$ 1,65 bilhão pelo então emergente site de compartilhamento de vídeos – e apenas um ano e meio após sua criação. E a companhia, em que trabalha (ele segue como principal executivo do YouTube), desenvolve um sistema operacional já disponível em alguns celulares, o Android. Logo, ele põe o aparelho sobre a imensa mesa que ocupa quase todo o espaço, com sua tela sensível ao toque virada para baixo.

Quer dizer, então, que ele prefere o celular da concorrência? Antes de chegarmos a este ponto, ele começa a falar sobre seus planos para melhorar sua posição no mercado de vídeo online. O YouTube é hoje praticamente sinônimo deste mercado e detém cerca de 70% do segmento, mas ainda não é um negócio rentável.

É difícil acreditar que o YouTube tenha só pouco mais de quatro anos. Nesse período, ele mudou por completo a forma como consumimos vídeo na internet, a ponto de ser difícil lembrar como era antes dele.

Mais importante: deixou de ser conhecido apenas pelos seus vídeos engraçadinhos e se tornou uma – senão a mais – poderosa ferramenta de divulgação e promoção no crescente mercado digital.

“A internet matará a televisão, não o YouTube”. A frase de efeito foi dita no dia anterior, em sua palestra na conferência Digital Age 2.0, que foi realizada em São Paulo na semana passada. “Nos próximos anos, quando todas as TVs estiverem ligadas à internet, a ideia de assistir a um programa no horário determinado pela emissora estará morta”, profetizou antes de dizer que a mídia TV só serviria para veicular eventos ao vivo.

Existe, entretanto, ao menos, um grande problema na trajetória meteórica de sucesso do YouTube. O site, que em sua origem chegou a ser comparado ao Napster, pioneiro na distribuição de conteúdo pela web (no caso, música), simplesmente não dá dinheiro.

Quando isso vai mudar? “Essa é uma grande questão”, sorri. “Mas há muito exagero no que sai na imprensa. Mesmo com a crise econômica, o último trimestre foi o melhor da nossa história”, diz, sem revelar números, o executivo que aposta em uma mistura entre vídeos amadores cada vez melhores e produções profissionais.

Para tornar o YouTube lucrativo, Hurley, que garante não sofrer qualquer tipo de pressão por parte do Google para reverter essa situação, aposta em diferentes modelos de negócio para diferentes tipos de conteúdo. Isso não quer dizer que o site passará a cobrar dos usuários, mas sim criar melhores formas de espalhar a publicidade, tornando-o mais atraente para os anunciantes, bem como servir como plataforma para a compra de alguns vídeos específicos. Dois dias antes, o YouTube havia anunciado que irá começar a compartilhar uma parte da sua receita de publicidade com os usuários que postarem os vídeos mais populares do site.

A iniciativa faz parte de uma estratégia do site para manter sua relevância a longo prazo. “Tenho orgulho do site que ajudei a construir, mas ainda temos bastante a fazer. A experiência de uso do YouTube é muito aleatória, trabalhamos para envolver mais o público, melhorando a interface com o usuário e oferecer uma experiência completa do site em outras plataformas cruzadas , como o celular e a TV”, afirma.

Perto do final da entrevista, a inevitável pergunta sobre seu celular da Apple. Desconfiado, diz: “O iPhone não é ruim. Já o Android ainda é novo e tem muitos fãs no YouTube”, diz. “Pessoalmente, estou sempre conectado, e o iPhone oferece uma experiência mais completa do que os modelos que possuem o Android.” E é um funcionário do Google que diz isso…

Aplicativos

2005
Geotagging, widget para blogs com vídeos de determinadas tags, vídeos públicos e privados e a função ?embedding? foram algumas das funções implantadas.

2006
O site apresenta a possibilidade de assinar RSS por categorias, melhora a busca, permite a personalização de perfis, cria a vídeo-resposta e a conta Director.

2007
Menus ficaram mais práticos e o espaço para vídeos, maior; além de integrar-se ao Google Maps.

2008
Surge a função de subir vídeos em HD, a ?página de confirmação de idade? antes dos vídeos considerados impróprios, as anotações e as legendas em vídeos.

2009
No ano do 3D, o YouTube não poderia ficar de fora. Agora, os usuários podem gravar e fazer upload de vídeos filmados com essa tecnologia.

Destaques

2005
O site é criado em fevereiro. O primeiro vídeo entra no ar em abril. E o serviço é lançado em novembro. Em um mês atinge marca de 3 milhões de vídeos vistos por dia.

2006
É comprado pelo Google por US$ 1,65 bilhão; site é citado como uma das empresas que consagraram a web 2.0 como a “pessoa do ano”, segundo a revista Time.

2007
Segue crescendo mas ano é morno, na opinião de Chad Hurley. O clipe de “Never Gonna Give You Up”, do cantor Rick Astley, torna-se uma pegadinha popular entre internautas.

2008
Vídeo “Yes We Can” feito com discursos de Barack Obama e protagonizado por várias personalidades torna-se um dos primeiros e marcos online da campanha presidencial do então candidato democrata.

2009
Susan Boyle torna-se uma celebridade mundial após ter sua participação em um programa de calouros inglês colocada no site. Uso político do site continua com um enxurrada de vídeos sobre a eleição no Irã.

Foto de Joi no Flickr.

Leia original aqui.

Perfil publicado no caderno do Link do Estadão em 31 de agosto de 2009 por@brunogalo

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O ator que preferiu se desconectar

16 08 2010

Estreante na direção, em filme ‘artesanal’ como ele, Matheus Nachtergaele abriu mão do celular e foi surpreendido pela tecnologia

“Um filme lento, contemplativo, feito para as pessoas pensarem.” É assim que o ator, agora também diretor e roteirista, Matheus Nachtergaele define o seu filme de estréia. O longa em questão é A Festa da Menina Morta que concorreu na mostra “Un Certain Regard” da última edição do Festival de Cannes.

A frase com que Matheus descreve o seu filme poderia com pequenas adequações definir a ele próprio. Aos 39 anos, o ator afirma lutar contra a correria presente no nosso dia-a-dia – mas nem sempre foi assim.

Há pouco mais de três anos, Matheus conta que sentia que algo estava errado em sua vida. Ele andava agitado, sempre sem tempo. Até o dia em que esqueceu o celular no táxi. “Depois daquele dia percebi que estava ficando mais calmo”, sorri.

Após o estranhamento inicial, Matheus decidiu aposentar o aparelhinho de vez. “Se por um lado eu me isolo um pouco, por outro uma certa surpresa da vida voltou a ter lugar”, filosofa.

“Além disso, eu acho um assalto as contas de telefone celular no Brasil”, diz. “As pessoas se tornam dependentes do aparelho. E aí as operadoras vêem e cobram um preço injusto pelo serviço”, afirma.

Dez anos atrás, quando houve a privatização do sistema de telefonia brasileiro, ter um celular era um luxo. Hoje, com mais de 130 milhões de aparelhinhos em funcionamento, parece que luxo é não ter celular. Um luxo que tem lá suas vantagens. Mas sem dúvida é para poucos. Matheus é um deles.

Para se permitir não ter celular, Matheus possui um aparelho de telefone fixo “supermoderno” com uma secretária eletrônica cujos recados podem ser ouvidos de qualquer lugar, além de uma assessora que cuida de seus principais compromissos e com quem ele troca e-mails quase que diariamente.

Pois é, Matheus possui um laptop, carinhosamente apelidado de “máquina de escrever”, já que o modelo que ele ganhou há cerca de cinco anos – para deixar de “escrever a mão” o roteiro do seu filme –, está bem desatualizado.

Na internet, além de trocar e-mails com a sua assessora, ele pesquisa no Google sobre literatura e cinema, alguns dos seus assuntos favoritos. E vê ainda vídeos que outras pessoas o indicam e de trabalhos antigos seus no YouTube.

A última aquisição tecnológica de Matheus, que não tem um toca-MP3 (“Precisaria ganhar um para começar a usar”), foi um DVD Player portátil em que assiste todo tipo de filme. Animações? “Nemo eu achei uma obra de arte.” Blockbusters? “Assisto Homem Aranha amarradão.” Clássicos? “(Akira) Kurosawa, (Ingmar) Bergman, (Carlos) Saura e Woody Allen são alguns dos meus diretores preferidos.”

Desde que se mudou para o novo apartamento no Rio há uns dois anos, porém, Matheus decidiu tirar a televisão e o DVD do quarto. “Percebi que havia deixado de ler”, conta o ator, que gosta de ler sobre psicanálise, biologia, etologia e filosofia, além de muitas HQs.

Após sua passagem por Cannes (sul da França) em maio deste ano, ele foi visitar um primo na Bélgica e lembra empolgado de sua experiência com o Skype, o popular programa de telefonia pela internet.

“Meu pai adorou poder falar comigo e me ver”, conta Matheus, que prometeu a ele trocar em breve o seu velho laptop por um modelo com uma “camerita”, termo pelo qual o ator se refere à webcam.

Apaixonado por fotografia, ele possui uma máquina fotográfica digital, mas gosta mesmo é de usar sua Cannon analógica. “Gosto da surpresa de ver a foto apenas quando ela é revelada”, afirma Matheus. E videogame, você já jogou? “Não, nunca me envolvi”, responde.

CONTROLE REMOTO
Fascinado pelas coisas mais antigas, Matheus diz ainda ter verdadeira adoração pelo artesanato e lamenta quando uma nova tecnologia acaba por aposentar um método anterior. Cita como exemplo as próprias máquinas fotográficas. Não há nas suas palavras uma crítica ao avanço, mas uma nostalgia de quem diz ter sido surpreendido pelo mundo hi-tech.

“Eu me sinto em relação às novas tecnologias como a minha avó com o controle remoto”, admite rindo.

Entre a película e o digital: a história de um filme ‘artesanal’
“Eu sou um homem do artesanato”, afirma Matheus, que se diz seduzido pelas práticas manuais. Essa fascinação do ator pelo que é artesanal somado à sua surpresa frente aos avanços tecnológicos está claramente exposta nas escolhas feitas por Matheus em sua estréia na direção de um longa.

Além de “escrever a mão” toda a primeira versão do roteiro, Nachtergaele desenhou de próprio punho todos os storyboards das principais cenas de A Festa da Menina Morta.

Chegada a hora de filmar, a opção pela película parecia óbvia ao diretor estreante. Assim sendo, as filmagens ocorreram em Super 16, que, mais tarde, foi ampliado para 35 mm para só depois ser finalizado e editado. “Tomamos essa decisão porque queríamos diminuir o tamanho do equipamento para filmar na Amazônia. Além disso, há uma certa granulação que o filme ganha nessa ampliação, que me interessava”, conta o detalhista Matheus que teve como diretor de fotografia Lula Pereira, de Tropa de Elite e Lavoura Arcaica.

Para Matheus, o uso do digital não cabia em seu filme de estréia, que assim como ele deveria ser o mais artesanal possível. Apesar disso o diretor admite: “Tenho consciência de que cada vez mais o digital vai imperar, até porque ele barateia o processo de filmagem.”

A idéia do filme de temática barroca surgiu durante as filmagens de O Auto da Compadecida, em 1999, quando Matheus teve contato com uma cerimônia que misturava forró com celebração de fé, no interior da Paraíba. A comunidade local atribuía poderes milagrosos aos restos de um vestido de uma menina desaparecida na região. Esse fiapo de história que ele testemunhou serviu de base para seu roteiro original.

O longa pequeno custou apenas R$ 1,2 milhões e poderia passar despercebido na opinião de Matheus se não fosse por Cannes. “O festival é lindo. Apesar do tamanho ele ainda privilegia o cinema de arte.” Arte essa que aqui foi feita por Matheus de forma artesanal.

FOTO: MARCOS D’PAULA/AE

Leia também aqui e aqui

Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 4 de agosto de 2008





Um homem fascinado pela incrível capacidade humana de inovar

9 08 2010

‘Atrapalhado’ em meio as inovações tecnológicas, bibliófilo José Mindlin aposta na web para despertar jovens para a leitura

José Mindlin tem 94 anos e não passa um dia sem se debruçar sobre um dos livros da sua imensa biblioteca particular, a maior do Brasil. Ele não é um homem conectado, sequer faz uso direto da internet. Mas, reconhece que as novas tecnologias podem ter um papel importante na democratização do conhecimento e no despertar do interesse dos mais jovens pela leitura. Pensando assim, é que ele decidiu doar em 2006 todas as obras brasileiras da vasta coleção à Universidade de São Paulo (USP). A partir de então, ela passou a ser chamada de Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

“Nunca me considerei o dono desta biblioteca. Eu e Guita (esposa já falecida de Mindlin) éramos os guardiães destes livros que são um bem público”, pondera, “não tenho o fetiche da propriedade, tão pouco da exclusividade”. A doação deu origem ao projeto Brasiliana USP (www.brasiliana.usp.br) que apenas este ano começou a ganhar seus contornos mais interessantes com a digitalização dos títulos e sua posterior disponibilização gratuita na web. Assim, desde o mês passado, qualquer pessoa pode ler ou mesmo baixar boa parte do valioso acervo, que inclui obras raras e históricas, como as primeiras edições dos livros de Machado de Assis, que entraram no ar na semana passada.

Mindlin se mostra bastante animado com o avanço do projeto. “Sempre achei o livro um instrumento de formação de pessoas e quanto maior o número de beneficiados pela digitalização, melhor”, afirma. “Cresci com o livro de papel, e no meu caso o livro eletrônico não encontrou eco. Mas acredito que essa iniciativa pode ajudar a despertar o interesse nos leitores mais jovens”, diz, otimista, ele que começou a formar sua biblioteca aos 13 anos, quando adquiriu uma edição de 1740 de Discurso sobre a História Universal, escrito por Jacques-Bénigne Bossuet.

Além disso, atualmente, a USP constrói uma grande biblioteca que irá abrigar todos os mais de 20 mil títulos doados por Mindlin. Graças a internet e ao robô Maria Bonita , o acesso ao raro acervo será universalizado e sua preservação estará garantida.

Aos 15 anos, pouco depois de comprar o primeiro exemplar que daria origem a sua enorme coleção, Mindlin ingressou no Estado como redator. A partir dos 19 anos, quando entrou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, acabou deixando o jornal.

Hoje ele acompanha com atenção as dificuldades de muitos diários ao redor do mundo. Mindlin acredita que o conteúdo produzido pelos jornais é insubstituível, mas teme que as novas tecnologias possam acabar com as suas versões em papel. Quanto tempo isso ainda vai levar, entretanto, é uma pergunta sem resposta.

Livro, uma tecnologia perfeita
O mesmo vale para o livro de papel que, para Mindlin, é uma das tecnologias mais fascinantes e duradouras criadas pelo homem. Não temos o costume de enxergar os livros dessa forma, afinal ele está aí desde sempre – ou há mais de meio milênio. Sua contribuição para a nossa cultura e sua resistência – até mesmo à era digital – é inegável. Para Mindlin, o livro de papel é uma tecnologia difícil de ser superada: é um objeto relativamente barato, pode ser levado a qualquer lugar, não usa bateria e o manuseio é simples, não requer prática, tão pouco habilidade. Tudo isso, sem falar no prazer de folheá-lo, no fetiche do tato, do cheiro, no encantamento provocado pela parte gráfica, a diagramação, etc.

“Certa vez, uma pessoa insistiu nas inúmeras vantagens que o livro eletrônico oferece, e se propôs a fazer uma demonstração. Ela veio armada de todos os equipamentos necessários, mas quando apertou o botão de ligar, nada aconteceu. Ora, isso não é uma coisa que pode acontecer com o livro de papel”, sorri. “Hoje em dia a gente se sente meio atrapalhado com o volume de inovações que não param de surgir”, afirma, ele que nunca manuseou o leitor de livros eletrônicos da Amazon, o Kindle, mas tem curiosidade de conhecê-lo.

Nas palavras de Mindlin não há uma crítica ao novo, muito pelo contrário, ele se diz fascinado pela incrível capacidade humana de inovar.

E recorda com um misto de saudosismo e admiração quando conheceu o telefone, depois, o rádio e, mais tarde, a televisão. “Todos esses avanços foram para os simples mortais, entre os quais me incluo contra minha vontade, pois gostaria de viver mais, extraordinárias inovações que aboliram as distâncias, algo que antes era inimaginável.”

Maria Bonita, uma ‘leitora’ mais incansável que Mindlin

Enquanto o edifício na Cidade Universitária da USP, em São Paulo, que irá abrigar e preservar a vasta coleção doada por José Mindlin, não está pronto (a inauguração está prevista para julho de 2010), o trabalho de digitalização do acervo ocorre dentro da biblioteca particular do bibliófilo. O robô (na foto sendo observado por Mindlin), apelidado pela equipe de Maria Bonita (para fazer par com o servidor anteriormente nomeado de Lampião), é que toca o trabalho mais pesado e ao mesmo tempo mais cuidadoso.

O robô custou U$S 220 mil e é capaz de folhear e escanear livros raros e delicados sem estragá-los. Ele está trabalhando a todo vapor para que o valioso acervo de José Mindlin esteja o mais breve possível disponível na internet em sua totalidade. A técnica empregada é a mesma de projetos como o Google Books. Maria Bonita digitaliza cerca de 2,4 mil páginas por hora, o que equivale a mais ou menos 40 livros por dia. Há quase três meses repete incansavelmente a rotina. Apesar dos esforços, não há previsão da conclusão dos trabalhos. Mas Pedro Puntoni, coordenador, promete que a cada duas semanas, no máximo, irá mostrar alguma novidade. “Na semana que vem deve entrar no ar todo o acervo ligado ao Correio Braziliense (considerado o primeiro jornal do Brasil, de 1808)”, conta.

Para acompanhar a evolução da digitalização dos títulos acesse o blog da biblioteca em http://www.brasiliana.usp.br/blog. O projeto já digitalizou obras raras, como a terceira edição de Os Sertões, de Euclides da Cunha, os sermões do padre Antônio Vieira (em edições dos séculos XVII e XVIII) e o primeiro dicionário da língua portuguesa (do século XVIII).

A Brasiliana Digital já está no ar com mais de 5 mil títulos disponíveis para consulta ou download. Também é possível realizar buscas por título, nome do autor, data de publicação e, até mesmo, pelo conteúdo. A biblioteca online usa uma tecnologia de reconhecimento de caracteres. “A versão atualmente no ar é de teste, queremos melhorar a navegação com a ajuda das pessoas para torná-la mais estável e rápida”, conta Puntoni.

Após a conclusão da digitalização do acervo doado por José Mindlin, o projeto pretende se expandir para outras bibliotecas.

Leia também aqui.

Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 20 de julho de 2009, sete meses antes da morte de José Mindlin





Sempre sonhando, sempre conectado

8 07 2010

Um dos principais escritores de sua geração – e autor do livro que deu origem ao filme ‘Coraline’ –, Neil Gaiman é onipresente online

Imagine um sujeito que em meio a um sonho mais interessante pensa, ainda dormindo, como aquela situação merecia um post no seu perfil do Twitter. E, ainda no sonho, começa a procurar pelo seu celular – no caso um G1, da HTC (o primeiro com o festejado sistema operacional desenvolvido pelo Google, o Android. E, que segue ainda inédito no Brasil). Ah, não preciso nem dizer que além de meio “sonhador”, nosso personagem também é super conectado.

E aí, já imaginou? A anedota descrita acima é verdadeira e seu protagonista atende pelo nome de Neil Gaiman, premiado escritor britânico que começou nos quadrinhos e hoje escreve livros e filmes. Sua vasta obra revela um interesse pessoal por temas sombrios e ocultos, mas principalmente uma predileção pelos sonhos. Não por acaso, a cultuada série Sandman, um dos seus trabalhos mais famosos – e primeira obra em quadrinhos a ganhar um prêmio literário, o World Fantasy Award, de 1991 – contava a história de Morpheus, o senhor dos sonhos, aquele que reina no mundo onírico para onde todos vamos quando… sonhamos.

Entretanto, o que seus textos não revelam é que Gaiman é um fanático por gadgets (ele coleciona iPods e computadores, e aposentou o seu iPhone assim que foi lançado o G1, afinal: “todo mundo tem o telefone da Apple, então eu tenho um Google Phone”, justifica). E, muito mais importante do que isso, ele é também um grande entusiasta das inúmeras possibilidades de interação online com seus fãs. “A internet parece criar uma ilusão de que somos todos íntimos e de que estamos mais próximos”, disse Gaiman ao Link, em entrevista por telefone.

O escritor mantém um blog (journal.neilgaiman.com), que recebe mais de um milhão de visitantes únicos por mês, há oito anos. Mas, atualmente, ele anda mesmo impressionado é com o Twitter, onde criou seu perfil em segredo há apenas dois meses e já é seguido, de perto, por mais de 26 mil fiéis: “Percebo que nele (www.twitter.com/neilhimself), eu tenho muito mais poder e responsabilidade do que no meu blog. E isso é algo que eu nunca havia imaginado”, afirmou.

Gaiman fez essa observação influenciado pela reação inflamada de boa parte de seus seguidores, no popular site de microblog. Isso, após um post seu no Twitter sobre reportagens que colocavam o cineasta Tim Burton (A Fantástica Fábrica de Chocolate) como diretor da animação em “stop-motion” Coraline (que estreou na sexta-feira, 13, no País), baseada em um livro infanto-juvenil de sua autoria. O longa é dirigido, na verdade, pelo americano Henry Selick, do cultuado O Estranho Mundo de Jack, de 1993 – este sim produzido por Burton, o que deve ter originado o tal equívoco. “As pessoas estão vendo tudo e é preciso aprender a usar isso a seu favor”, observou o autor sobre o ocorrido.

ROCK STAR

O investimento maciço e inteligente em ações online fez com que Gaiman se tornasse não só um dos escritores de ficção fantástica mais lidos do mundo, mas também uma espécie de “rockstar” da literatura, capaz de mobilizar uma multidão. Em 2008, na sua última visita ao Brasil, durante a 6ª Festa Literária de Paraty, a Flip, não foi diferente. Por mais de cinco horas, ele atendeu pacientemente cerca de 600 fãs.

Ainda no ano passado, Gaiman convenceu a sua editora a registrar a turnê de divulgação de seu novo livro, The Graveyard Book (ainda não editado no País). Na página há vídeos gratuitos de Gaiman lendo o livro de forma integral (www.mousecircus.com/videotour.aspx). Achou pouco? Ainda, no site da sua editora é possível ler digitalmente cerca de 20% deste e de vários outros dos seus títulos, como Coraline, Deuses Americanos, etc. Este último livro por sinal esteve disponível na íntegra durante um mês, após uma votação popular no site oficial de Gaiman (www.neilgaiman.com). A iniciativa fez a vendagem dos livros de Gaiman crescer.

De alguma forma, Gaiman se assemelha ao brasileiro Paulo Coelho, quando o assunto é afinidade com as novas tecnologias. Coelho foi até um pouco mais além, ao criar um blog em que disponibiliza links para arquivos piratas de toda a sua obra, o Pirate Coelho (piratecoelho.wordpress.com).

O fato é que queiram – ou não – as editoras, os livros de Gaiman e de inúmeros outros autores estão disponíveis na rede – ainda que de forma ilegal. “O perigo não está em livros serem lidos de graça. Mas, neles não serem lidos”, ponderou Gaiman. Sábias palavras.

‘Coraline’ sai do trivial na internet

Atualmente, qualquer filme é divulgado pela web. Por isso, o negócio é saber se diferenciar oferecendo algo novo. A animação em “stop-motion” (técnica que utiliza bonecos, figurinos e cenários reais, mas em miniatura), Coraline se saiu bem no quesito.

Além de ser a primeira produção do gênero feita em 3D, o filme, que conta a mágica e assustadora história de uma corajosa menina de cabelos azuis com apenas 11 anos, soube usar de forma bastante criativa as possibilidades abertas pela rede – mas, não só elas.

De alguma forma, a campanha de marketing precisava mostrar que o filme era muito mais do que apenas uma animação para crianças. Assim, enigmas virtuais, ações interativas em painéis espalhados por metrópoles americanas, banners online hilários, blogs falsos, um site incrível (www.coraline.com), e até um modelo de tênis da Nike exclusivo foi criado, tudo para ajudar na divulgação.

O objetivo nas palavras de Phil Knight, presidente do estúdio Laika, que produziu o filme, era: “reinventar o jeito de se divulgar um filme”. Um vídeo disponível no YouTube em http://tinyurl.com/czchur, ajuda a entender toda a criativa campanha. E, não há como discordar: eles mandaram muito bem. Juntas, todas as ações refletiam a natureza única do projeto.

Não deixe de ver ainda no popular site de vídeos, alguns clipes (destaque para http://tinyurl.com/d4etg8) que ajudam a entender a singularidade dessa bela produção feita de forma artesanal.

Que, na opinião de Neil Gaiman, resultou em “um filme maravilhoso”. E é mesmo.

Leia também aqui.

Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 16 de fevereiro de 2009.





O mundo visto pelos olhos de um romântico

4 06 2010

Conheça o cultuado, premiado e copiado trabalho desse criativo – e low tech – diretor francês, ganhador do Oscar

Criativo, esse costuma ser o adjetivo mais usado para descrever Michel Gondry, de 45 anos, e o seu trabalho. Através de truques simples, “low tech”, ele nos encanta, surpreende e cria tendências que mais tarde acabam assimiladas pela indústria do entretenimento.

O recurso de brincar com a passagem do tempo – fazendo pequenas pausas –, por exemplo, na qual Gondry foi pioneiro, em clipes como Like a Rolling Stone, com os próprios Rolling Stones, e Army of Me, com Bjork, ambos de 1995, deu as caras em Hollywood com Matrix (1999). A diferença é que, enquanto em Gondry o efeito é visceral, meio imperfeito, em Matrix ele é limpo, tecnicamente perfeito.

“Eu me sentiria limitado como criador se me submetesse unicamente à tecnologia”, disse Gondry ao Link por telefone, antes de aterrissar em São Paulo para o lançamento da exposição interativa Rebobine, Por Favor, baseada no filme homônimo, dirigido por ele.

Na comédia, com estréia prevista para a próxima sexta-feira, Jack Black e Mos Def vivem uma dupla que, após apagar acidentalmente as fitas VHS da locadora em que um deles trabalha, passa a recriar os filmes destruídos (como Robocop e Os Caça-Fantasmas) em versões toscas ou “suecadas” (sweded, em inglês), como eles chamam no filme.

Mesmo antes do lançamento, Gondry explorou, com grande sucesso, a “suecagem” (veja em http://www.youtube.com/bekindmovie) na campanha de marketing do longa. A brincadeira virou até mania no YouTube. É possível encontrar versões de fãs para Kill Bill, O Senhor dos Anéis, Forrest Gump, entre muitos outros.

“Hoje, com a tecnologia é possível fazer qualquer coisa, quase não há desafio. Gosto de trabalhar de forma mais artesanal. E, mesmo quando uso o digital, quero que as pessoas tenham a sensação de que podem tentar recriar aquilo em casa”, explicou Gondry, em coletiva para a imprensa, durante sua passagem pelo País.

Na conversa com a mídia, ele esbanjou simpatia e bom humor, apesar de sua visível timidez. Em um dos momentos mais curiosos do encontro, Gondry brincou com a mediadora/tradutora – em uma cena que parecia tirada do filme Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola. “Eu só falei isso?”, perguntou à la Bill Muray.

A idéia do “faça você mesmo” está na essência da exposição, que fica no MIS, em São Paulo, até 11 de janeiro. Lá visitantes previamente inscritos no site do evento (www.rebobineporfavorexposicao.com.br) podem criar os seus próprios curtas em cenários reais do filme.

Essa vontade de incentivar as pessoas a “botarem a mão na massa” já é antiga no trabalho do diretor. Nos extras do DVD do mais famoso longa de Gondry, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), o diretor mostra de forma minuciosa diversos truques usados na produção, que lhe rendeu o Oscar de melhor roteiro. Em http://www.tinyurl.com/brilhoeterno é possível ver um pequeno e interessante exemplo.

INVENTOR

Ainda criança, Gondry adorava brincar com o seu irmão de “fingir de filmar”. Mas ele queria mesmo era ser inventor – criador de traquitanas, assim como seu avô. O trabalho como diretor começou meio por acaso em 1988. Gondry era baterista da banda de rock francesa Oui Oui, quando começou a produzir clipes em animação – sua preferência – para divulgá-la. “Considero a animação o veículo ideal para expressar as minhas idéias”, conta. Não demorou até a cantora Bjork se encantar pelo suas criações e convidá-lo para dirigir o seu primeiro trabalho solo, Human Behavior (1993). A partir daí, Gondry não parou mais. E o número de obras notáveis desse socialista assumido é impressionante (conheça algumas no box ao lado).

A sua fértil imaginação está presente em praticamente toda a sua obra, não como um fim em si, mas como um meio para embalar a sua visão romântica e autobiográfica de mundo. Da luta para ser aceito, de Na Natureza Quase Humana (2001), à força de um amor sem fim, de Brilho Eterno (2004), passando por um sujeito que vive “no seu mundo”, de Sonhando Acordado (2006), até a declaração de amor a magia do cinema, em Rebobine, Por Favor (2008), é possível identificar sempre a faceta romântica de um sujeito que se confessa antiquado. “Gosto de escrever a mão. Acho até mais fácil”, conta ele, que proibiu seu filho de 11 anos de ter um videogame em casa e não é muito ligado em gadgets. “Não tenho paciência”, diz.

Gondry é o primeiro a não se levar muito a sério e àqueles que vêem o seu trabalho como uma forma de arte ele diz: “Não tenho essa pretensão, tampouco de ensinar alguém. Quero fazer as pessoas se divertirem e quem sabe estimulá-las”.

Passados tantos anos desde o seu sonho infantil, ele não se tornou um criador de traquitanas, mas de certa forma acabou se tornando um inventor. Só que de imagens e conceitos inovadores.

Os delírios visuais de Gondry na web

O metódico francês Michel Gondry (www.michelgondry.com) ficou famoso por privilegiar truques de edição e animação, além de belíssimos planos seqüência (uma das suas principais marcas) a ousados efeitos digitais. Conheça – ou relembre – um pouco do melhor desse diretor de clipes, comerciais e filmes, que no tempo livre gosta de aprontar umas brincadeirinhas online:

CUBO MÁGICO – Em 2006, o francês deixou muita gente de cabelo em pé ao resolver o cubo mágico com os pés em menos de um minuto (veja em http://www.tinyurl.com/gondrycube). Para descobrir o truque, confira o vídeo em tinyurl.com/gondryfeet. Mais tarde ele voltou ao cubo mágico agora para resolvê-lo com o nariz e depois para Jack Black (estrela de Rebobine, Por Favor) resolver dez cubos ao mesmo tempo;

CLIPES MUSICAIS – Alguns dos trabalhos memoráveis do diretor que merecem ser vistos são: em 1994, Lucas With the Lid Off (www.tinyurl.com/yppbvp), de Lucas. Em 1996, Sugar Water (www.tinyurl.com/28at3y), de Cibo Matto. Em 1997, Around the World (www.tinyurl.com/28daqa), de Daft Punk. Em 1999, Let Forever Be (www.tinyurl.com/39eqbf), de The Chemical Brothers. Em 2002, Come Into My World (tinyurl.com/2jhxow), de Kyle Minogue, e Fell in Love With a Girl (www.tinyurl.com/he987), de The White Stripes. Ufa! A lista poderia ser bem maior – acredite – mas ficaremos apenas nesses. O documentário The Work of Michel Gondry (2003), com 300 minutos de duração, traz todos os clipes do francês, além de making-offs e entrevistas;

COMERCIAIS – Em 1994, ele dirigiu Drugstore (www.tinyurl.com/5m4xh8) para a Levis. O comercial é considerado pelo Guinness Book o mais premiado de todos os tempos. Outros comerciais notáveis foram feitos para a Smirnoff (www.tinyurl.com/557y23), a HP (www.tinyurl.com/34shwd), a Coca-Cola (www.tinyurl.com/5l4mv4), a Air France (tinyurl.com/5b387l) e a Motorola (www.tinyurl.com/62br8y).

Leia também aqui ou aqui.

Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 8 de dezembro de 2008.





O que ele quer é questionar

4 06 2010

O Google está nos tornando estúpidos? Esta é só uma das provocações deste pensador da era digital que nem Twitter usa

Nicholas Carr, de 50 anos, é um provocador. Um iconoclasta, para a revista inglesa The Economist. Articulado, convincente, preciso nos argumentos e competente na forma. Não raro é cético, por vezes brilhante, frequentemente polêmico. Enfim, um provocador lúcido e cativante. Duvida?

TI não importa e O Google está nos tornando estúpidos? são os mais famosos artigos deste jornalista americano. Ambos, cada um a seu tempo, foram assunto obrigatório da imprensa mundial e, é claro, de todos que se interessam por tecnologia e pelas mudanças provocadas por ela. Cinco anos separam os dois textos.

O primeiro, de 2003, foi publicado na Harvard Business Review (em que Carr era editor) e deu origem a um livro no ano seguinte, que só agora chega ao Brasil. Será que TI é Tudo? (Editora Gente) levou executivos de todo o mundo a discutir a real importância dos computadores e da tecnologia da informação (TI) nos negócios.

O segundo, publicado na tradicional Atlantic Monthly, também vai virar livro. O aguardado The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains (‘Os Superficiais: O que a internet está fazendo com os nossos cérebros’, em inglês), a ser lançado no ano que vem. “Não penso mais do jeito que costumava pensar”, escreveu, no artigo.

Para Carr, a internet e o Google, em especial, estão remodelando o nosso cérebro de forma a torná-lo mais eficiente em buscar informação. Ao mesmo tempo, contudo, estamos perdendo a habilidade de contemplação, reflexão, concentração. Uma perda ruim para cada um de nós e para todos nós, como sociedade, segundo ele.

“A informação não é um fim em si. O sentido, o significado que damos a ela é que realmente importa”, disse Carr ao Link, em entrevista, por telefone, na semana passada, antes de aterrissar em São Paulo para uma palestra, nesta terça-feira (1) no evento empresarial Expomanagement 2009, da HSM.

“Os meios de comunicação que usamos ao longo do tempo nos tornaram o que somos hoje. Os livros, por exemplo, nos obrigam a nos concentrar”, observa Carr. Para ele, o Google sacrifica tudo isso ao nos oferecer uma abundância de informações, relevantes ou não, com a qual temos dificuldade de lidar.

Com a internet se tornando nosso principal meio de comunicação, Carr defende que precisamos pensar nas consequências dessa mudança, o que perdemos e sacrificamos neste processo. Não por acaso, ele é um dos raros pensadores da era digital que não está no queridinho do momento, o Twitter. “Ainda que ele faça sucesso com tantas pessoas. Não estou certo do quão útil ele me pode ser”, disse Carr que, no entanto, mantêm há anos um concorrido blog, o Rough Type. Não pense, portanto, que Carr seja uma espécie de neoludita, longe disso.

“A internet traz uma série de benefícios reais que não devem ser desprezados”, apressa-se em afirmar. Questionado sobre o próximo grande avanço que veremos na área tecnológica, ele apontou a integração cada vez maior da rede com todo tipo de produtos e serviços. Nada mais natural. Afinal, no ano passado, ele lançou o livro A Grande Mudança (Editora Landscape), em que defendia que a computação em nuvem está mudando a sociedade e a cultura de forma tão profunda como a energia elétrica o fez nos últimos cem anos. “A computação está virando um serviço, e as equações econômicas que determinam a maneira como vivemos e trabalhamos estão sendo reescritas”, escreveu.

Foi durante a pesquisa para este livro que Carr se interessou em estudar mais profundamente as implicações sociais e culturais que a internet poderia ter em cada um de nós com o passar do tempo. Um dos capítulos mais interessantes – e também divertidos – de A Grande Mudança é o que trata dos profetas da energia elétrica, que faziam toda sorte de previsões mirabolantes.

Ah, sim, Carr não se considera um provocador. “Sou apenas uma pessoa que não foi completamente seduzida pelas novas tecnologias”, defende-se.

DESCRENTE

Pare um pouco e pense. Para que afinal foi criada boa parte das tecnologias em qualquer tempo? Da primeira ferramenta à roda, do carro ao e-mail, do computador pessoal ao celular, todos foram criados para trazer, de um jeito ou de outro, mais conforto e facilidade para o dia a dia. Os seus efeitos a longo prazo, no entanto, costumam fugir das previsões mais otimistas. O e-mail nasceu para substituir as cartas, seria muito mais prático e rápido. E de fato é. Hoje, no entanto, muitas pessoas não conseguem desgrudar das suas caixas de entrada de mensagem, estejam elas de folga ou até de férias.

Enfim, os efeitos colaterais, de certa forma são bastante visíveis hoje e estão desassociados dos positivos. Primeiro nas empresas, depois na sociedade e, enfim, na mente de cada um de nós. Nicholas Carr decidiu mostrar que “já tem gente demais fascinada pelas novas tecnologias”. Em 2003, quando escreveu TI não Importa, para a Harvard Businnes Review, a Newsweek o chamou de “o inimigo público N°1 da tecnologia no mundo”. Um exagero. Carr é apenas um cético pensador da era digital em dúvida entre suas vantagens e desvantagens.

Em Será que TI é Tudo? (editora Gente), Carr afirma que “como ocorreu com muitas outras tecnologias largamente adotadas, como ferrovias ou energia elétrica, a tecnologia da informação se transformou em commodity. Com seus preços acessíveis a cada um, essa tecnologia não tem mais valor estratégico a qualquer empresa ou usuário”.

Depois, em A Grande Mudança (editora Landscape), ele fazia um paralelo entre a ascensão da energia elétrica barata, que provocou uma reação em cadeia de transformações econômicas e sociais que gerou o mundo moderno, e da computação em nuvem, que, segundo ele, vai mudar a sociedade de forma igualmente profunda. No livro, ele tenta ponderar sobre os seus possíveis benefícios e efeitos colaterais também.

Enfim, em The Shallows (ainda inédito), ele expande seu artigo O Google está nos tornando estúpidos para, segundo ele, explicar como a internet redistribui os nossos caminhos neurais, substituindo a mente sutil do leitor do livro pela mente do observador distraído das telas. Para isso, ele promete misturar ideias da filosofia, da neurociência e da história.

Leia também aqui ou aqui.

Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 30 de novembro de 2009.





Contra o ‘capitalismo de Estado’

4 06 2010

Blog Generación Y ganha o mundo ao mostrar o cotidiano de restrições em Cuba e rende à autora prêmios e perseguição


A cubana Yoani María Sánchez Cordero, de 34 anos, queria apenas começar sua terapia ou “exorcismo pessoal”, como diz. Não imaginava que suas consultas poderiam interessar a tantas pessoas – milhares delas.

Após guardar, durante anos, um sentimento confuso e às vezes conflitante – que a clareza de seu discurso não deixa transparecer – em relação a seu país e seu governo, ela abriu um blog em abril de 2007.

Já havia iniciado uma revista (Consenso), em 2004, e um portal (Desde Cuba), pouco antes do blog. Em Geracion Y – o nome do blog faz referência às pessoas que, como ela, tem a letra Y no nome, por influência soviética – Yoani discorre sobre o cotidiano do povo cubano, a escassez de gêneros de primeira necessidade e, é claro, a ausência de liberdade.

O desejo de externar sua insatisfação e frustração, não refletida nos órgãos oficiais da imprensa cubana, amadureceu durante uma estada na Suíça, entre 2002 e 2004, em que Yoani trabalhava no site de uma livraria. “Longe, o sentimento de que é possível fazer algo para mudar as coisas ganharam força”, contou, em entrevista ao Link, por telefone, na semana passada.

De volta a Havana, Yoani buscou na rede um espaço livre para escrever. “A lei cubana não nos impede de dar opiniões na internet”, garante. Talvez por isso, quando, em maio de 2008, Raúl Castro autorizou a venda de computadores, a de máquinas fotocopiadoras, por exemplo, continuou proibida, assim como o acesso à internet. Ironias de uma país em lentíssima adaptação.

TWITTANDO

Atualmente, ela anda encantada com o Twitter – onde ela é @yoanisanchez. “É um serviço muito personalizável, que permite seu uso para inúmeros fins. Aqui, como no Irã, usamos o Twitter como ferramenta de transformação social. Um espaço perfeito para contar de forma rápida e eficiente nossa situação”, defende ela, que tenta twittar ao menos duas vez por dia a partir do seu celular e lamenta não ter tempo para se relacionar de forma mais frequente com os seus quase 15 mil seguidores internacionais.

Para ela, o Twitter permite ampliar sua presença online, antes restrita a seu blog, que é bloqueado em Cuba, e, portanto, não pode ser lido no país, tampouco atualizado por ela mesma.

No entanto, desde maio do ano passado, ela não precisa mais entrar disfarçada nos hotéis a que ia em busca de acesso à internet, luxo distante da realidade local. Agora, ela escreve no laptop, salva os textos e os envia por e-mail para amigos no exterior que tratam de manter o site atualizado. Há também versões traduzidas de seu blog, inclusive em português, mantidas por voluntários.

A repercussão mundial do blog rendeu a Yoani inúmeros prêmios e menções Ela foi citada, pela revista norte-americana Time, como a 31ª pessoa mais influente do mundo e recebeu o prêmio The Bobs de melhor blog. Por este último, ganhou o laptop que usa atualmente.

Apesar de repetir que não pretende sair de Cuba, em todas essas oportunidades lhe foi negado o direito de receber pessoalmente os prêmios.

AGRESSÃO

O reconhecimento conquistado por seu trabalho, que, apesar do grande número de apoiadores também recebe críticas, como do ex-presidente Fidel Castro, não lhe garante uma vida muito melhor em Cuba.

No último dia 6, Yoani conta que foi abordada e agredida por dois agentes cubanos, quando ia, com outros blogueiros, para uma pequena marcha contra a violência em Havana. Teve ferimentos na lombar e passou alguns dias andando de muletas.

Aos críticos afirma que “a televisão, o rádio e os jornais oficiais já fazem o trabalho de falar bem de Cuba. Não teria motivo, portanto, de fazer o mesmo”. E pondera: “Preciso mostrar o outro lado, mas não sou dona da verdade”.

A verdade que os textos de Yoani revela é a de um país em frangalhos (“um capitalismo de Estado”, resume), de um governo ineficiente e das consequências do embargo norte-americano. Suas crônicas mostram, entre muitas outras coisas, que em oposição a tudo que é proibido no país há um forte mercado negro, que ao contrário do costumeiramente repetido a educação e a saúde não vão mais tão bem por lá.

Há um componente fortemente político nos prêmios que recebe, não há dúvida. Isso, no entanto, não tira a relevância da sua manifestação. Yoani vive de trabalhos como guia turística, tradutora e professora de espanhol para estrangeiros. E afirma: “Não me considero opositora, nem tanto dissidente. A história que vivo todos os dias é que nega o discurso oficial”. Yoani não sabe o que deve vir depois da era iniciada há 50 anos com a Revolução Cubana. “Sei, no entanto, que as coisas não podem continuar como estão”.

O blog que deu origem a um livro

O livro De Cuba, Com Carinho (tradução de Benivaldo Araújo e Carlos Donato Petroni Jr., 208 páginas, R$ 29,90), que a editora Contexto lançou recentemente no Brasil, é uma coletânea de posts publicados no blog Geracion Y, mantido pela cubana Yoani Sánchez, formada em filologia. No livro, ela escreve: “Para evitar endeusamentos e futuras crucificações, deixo claro em uma das páginas que o meu blog é um exercício pessoal de covardia: dizer na rede tudo aquilo que não me atrevo a expressar na vida real”.

E continua: “Meus textos são passionais e subjetivos, cometo o sacrilégio de usar a primeira pessoa do singular e meus leitores sabem que só falo daquilo que vivi”.

Seu texto – bem escrito e desencantado –, convida o leitor a conhecer uma Cuba sem folclores, mais real. Graças ao blog, ela diz, “meus textos fazem o que eu não poderia: mover-se e expressar-se livremente”. Convidada para vir ao Brasil para o lançamento do seu livro, ela teve, como de costume, a autorização negada pelo governo cubano.

Leia também aqui ou aqui.

Perfil publicado por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 16 de novembro de 2009.