Editoras brasileiras vão oferecer mais audiolivros

17 08 2010

Ainda há poucos títulos e somente para venda, mas download pago deve ser disponibilizado em breve; ‘Ou você gosta ou odeia’, diz editor, sobre livros falados

Quem não se lembra? Você, ainda criança, deitado na cama, esperando ansiosamente a história que lhe seria lida naquela noite. Pois é, esse hábito, restrito aos pequenos, tem tudo para chegar aos mais velhos, graças a uma forcinha da tecnologia.

É que, com a proliferação dos tocadores de MP3, como o iPod, algumas editoras nacionais se animaram e decidiram investir nos audiobooks, já tradicionais nos EUA, de olho no vasto mercado potencial.

No Brasil, ao menos um autor é grande fã do formato. Laurentino Gomes, de 1808, ouve audiobooks em seu iPod há mais de cinco anos. Ele assina um plano da Audible (www.audible.com), empresa americana que é a maior distribuidora de “livros para ouvir” no mundo, com mais de 80 mil opções. Pagando US$ 20 por mês, ele tem direito a baixar dois livros.

“Já ouvi mais de cem tranqüilamente. Adoro livros em áudio”, conta Laurentino, que costuma ouvi-los durante os passeios matutinos com o cão da família, que estava doente no dia da foto da capa desta edição.

Nos EUA, os audiobooks movimentaram quase US$ 1 bilhão em 2006. O valor sem dúvida chama atenção, mas, em termos do mercado livreiro americano como um todo, que arrecadou pouco mais de US$ 37 bilhões em 2007, é bem menos impressionante.

De qualquer forma 2008 deve ser o ano da virada do audiobook nos EUA. É que no começo do ano a Audible foi comprada pela Amazon, pela bagatela de US$ 300 milhões. Analistas apontaram na época da compra que a aquisição seria uma forma de tentar turbinar as vendas do Kindle, que além de ler e-books, também roda audiobooks. Dessa forma, eles esperam ampliar o número de downloads de audiobooks que em 2006 representavam apenas 14% do total do mercado.

Enquanto isso, o Brasil ainda engatinha no assunto. A editora Audiolivros (www.audiolivro.com.br), lançada em 2006, é pioneira no País. O Caçador de Pipas, O Monge e o Executivo e 1808, são alguns dos títulos oferecidos pela editora. Atualmente ela não trabalha com downloads de livros, mas promete para o final do ano o começo do serviço. “Estamos trabalhando para oferecer todos os títulos por um preço de R$ 9,90”, conta Marco Giroto, dono da editora.

Já a Plugme (www.plugme.com.br), que será lançada pela Ediouro durante a Bienal, promete uma lista de best-sellers, narrados pelos próprios autores ou por nomes famosos, como José Wilker e Paulo Betti. Entre os autores que narraram o próprio livro o destaque fica para Nelson Motta que, em alguns momentos, imita o cantor Tim Maia, personagem do seu livro, Vale Tudo. Ficou curioso? Ligue para 4003-7272, fale Vale Tudo, após ser perguntado pela atendente eletrônica e pronto: você ouvirá um trecho bastante divertido em que Motta imita Tim.

Já os autores se dividem quanto à novidade. “Parece-me uma coisa natural. Afinal as pessoas perdem com o tempo esse hábito de ouvir histórias, que eu acho muito legal”, fala o escritor Paulo Lins. Já o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro revelou opinião completamente divergente sobre o tema. “Acho um horror. Para mim é o leitor que dá cara ao livro. Essa é a grande graça da literatura.”

Para Patrick Osinski, diretor-geral da Plugme, o formato não aceita meio termos. “Ou você gosta ou odeia.”

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Matéria publicada por @brunogalo no caderno Link do Estadão de 11 de agosto de 2008

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Será que o futuro do livro é multimídia?

16 01 2010

Às vésperas da Bienal do Livro, o Link entrevista editores, autores e leitores para saber como cada um deles veem a literatura na era digital

Cícero não abre mão do papel. Já Alessandro é um entusiasta dos e-books. Enquanto Carlos Alberto adora ler no PlayStation Portátil (PSP). E Nelson prefere seu Palm TX. Silvia, por sua vez, apaixonou-se pelo Kindle. E Laurentino gosta de “ouvir” um bom livro em seu iPod.

Todos têm em comum o amor pela literatura, mas cada um a consome por meio de uma tecnologia diferente. A mais antiga delas, o livro de papel, não dá sinais de esgotamento, como aconteceu com o CD. Mas, aos poucos, novas formas de ler e fazer literatura começam a ganhar força.

Apontada como incômoda por muitas pessoas, a leitura de livros em equipamentos eletrônicos não pensados para esse fim já é uma realidade. As pessoas lêem e-books no laptop, no Palm, no PSP e até no celular (o iPhone, por exemplo, possui um aplicativo para esse fim). Isso sem contar os audiobooks e os dispositivos específicos, os “e-books readers”, como o Kindle, da Amazon, e o Sony Reader.

“As pessoas se adaptam à mudança com uma velocidade muito grande. Enquanto o meio demora a percebê-la”, pondera José Alcides Ribeiro, professor do curso de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e doutor em comunicação e semiótica. É uma revolução silenciosa. Mas que promete transformar o modelo de negócios das editoras. Aqui no Brasil elas parecem pouco se preocupar com essa nova realidade e afirmam que estão bem das pernas.

Aproveitando a 20ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que começa na próxima quinta-feira, dia 14, no Anhembi, o Link foi conferir de perto como anda a relação entre literatura e tecnologia. Entrevistamos autores, editores, especialistas e pesquisadores, além, é claro, de pessoas que adoram ler.

E, por falar em Bienal, ela refletirá as possibilidades abertas pela web. Quem nos conta a novidade é Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que organiza o megaevento. “Criamos para essa edição o Livro de Todos (www.livrodetodos.com.br), com o objetivo de aproximar os internautas, especialmente os jovens, da leitura e da escrita, além de desmistificar a idéia de que internet e livros não combinam”, conta.

O projeto de criação coletiva feito pela web foi acessado por 14 mil pessoas entre os dias 16 de maio e 16 de junho. O resultado final, que contou com a colaboração de 173 autores, pode ser lido no próprio site. A versão em papel será lançada durante a Bienal.

APRENDER COM O ERRO ALHEIO
“A indústria do livro não pode repetir o erro da indústria fonográfica”, afirma o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, que narra de forma jornalística a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, há 200 anos.

Mas, afinal, qual o erro a que Laurentino se refere? Em poucas palavras: subestimar a internet e as novas tecnologias. Nos últimos anos o mercado de música vem sendo obrigado a reinventar o seu modelo de negócio para sobreviver na era da música digital.

Para o diretor-geral da editora Ediouro, Luis Fernando Pedroso, ainda não é a hora de investir em e-books no País. E quando será o momento? “Esperamos estar atentos para identificá-lo”, diz. “Não acredito na leitura de livros tradicionais pelo computador ou celular”, afirma Pedroso, que prepara para a Bienal o lançamento de um novo selo de audiobooks.

Já o diretor-geral da editora Objetiva, Roberto Feith, afirma que “a venda de livros via download é uma possibilidade interessante, que no futuro não muito distante vai conquistar uma fatia do mercado”.

Enquanto, as editoras brasileiras estudam o melhor momento para entrar nesse filão, as gravadoras ainda hoje pagam o preço pela demora em abraçar o digital. Laurentino acredita que as editoras de livros estão de certa forma cometendo o mesmo erro. “Não é mais possível nos comunicarmos por uma única mídia, precisamos ser multimídia”, diz.

E como as editoras podem ser multimídias? Inúmeras são as possibilidades: de audiobooks e marketing na web a e-books e sites que complementam a experiência do leitor do livro de papel.

Um bom exemplo desse último caso é o site do livro Vale Tudo (www.objetiva.com.br/valetudo), sobre Tim Maia, do escritor e produtor musical Nelson Motta. Lá é possível ouvir, nas versões originais, todas as músicas citadas na biografia, vídeos e um álbum de fotos do cantor desde bebê. Tem também uma seção, Tim e Eu, onde as pessoas contam as suas experiências com o cantor. “O site dá vida e brilho ao trabalho”, diz Motta. “Com ele o livro se torna muito mais interessante, acaba sendo uma ‘obra aberta’, sem hora para terminar”, conclui.

Há ainda autores que interagem de forma inédita com o seu público como, por exemplo, Paulo Coelho. Ele afirma passar diariamente cerca de três horas online interagindo com os seus leitores, que chegam a lhe enviar mais de mil e-mails por dia. Leia na página L7 entrevista com o brasileiro que mais vende livros em todo o mundo.

Para o escritor Fernando Morais – autor de Olga, Chatô – O Rei do Brasil e O Mago, o último justamente uma biografia de Paulo Coelho – a principal vantagem da web é a interação com o público. “Antes o autor não tinha um feedback do leitor”, diz Morais (www.fernandomorais.com.br). “A internet aproximou as pessoas.”

ALÉM DO PAPEL
E, para fechar, confira a entrevista com o editor de projetos digitais da editora inglesa Penguim, Jeremy Ettinghausen, que se uniu à empresa Six to Start, de games de realidade alternativa (ARG), para criar o projeto We Tell Stories (wetellstories.co.uk).

A iniciativa, apontada por muitos sites e blogs como inovadora, busca recontar seis clássicos da literatura, entre eles As Mil e uma Noites, usando recursos digitais e da internet. O objetivo é ir além do formato tradicional do livro de papel.

No Japão, país pioneiro na popularização de novas tecnologias, uma das febres atuais é a literatura feita para celulares.

Interessado em saber mais sobre a interação entre tecnologia e literatura? O Link preparou uma reportagem especial sobre o assunto. Boa leitura.

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Matéria de 11 de agosto de 2008 por @brunogalo