A geração que desenha nosso futuro

15 01 2010

Meio sem querer, com naturalidade e de maneira silenciosa, crianças nascidas na era digital prometem mudar tudo

Se desde que o mundo é mundo há pais e filhos, neste momento particular, a era digital sobrepôs a essa estrutura uma outra divisão: nativos e imigrantes. Nativos digitais são aqueles que nasceram quando já existia computador, ou seja, a partir da década de 1980. Imigrantes digitais têm mais de 30 anos e se lembram de seu primeiro PC.

Enquanto os imigrantes, ou grosso modo, os pais, não estão muito familiarizados com o ambiente da web, os nativos, ou os filhos, estão no centro daquilo que promete ser uma radical mudança de comportamento. Os nativos digitais prometem uma reorganização na maneira como trabalhamos e até na alteração de conceitos cristalizados, como o do direito autoral.

“Essa geração está desenvolvendo novas formas de pensar, interagir, trabalhar e se socializar”, escreve o pesquisador Don Tapscott, em Grown Up Digital (Crescidos digitais, em inglês), ainda inédito no Brasil. O mais curioso? Eles fazem tudo isso meio sem perceber.

Se a contracultura dos anos 60 foi criação consciente dos jovens que queriam romper com o passado, as crianças digitais operam uma revolução que é silenciosa. Afinal, elas só estão agindo naturalmente.

“Os nativos digitais são aqueles que já nasceram acostumados à cultura da internet. Acostumadas ao compartilhamento de arquivos, as crianças querem espalhar aquilo com o que elas se importam, o que não raro esbarra em noções anteriores a elas, como o copyright”, explica Urs Gasser, autor do livro Born Digital (Nascidos Digitais) e professor do centro de Internet e Sociedade de Harvard. Essa relação tão próxima à tecnologia, segundo ele, afetará questões como segurança, propriedade intelectual, comunicação e aprendizado.

Para a pesquisadora Lúcia Santaella, a mudança começou lá atrás, na década de 1980, quando tecnologias como videocassete, fotocopiadora e controle remoto nos prepararam para deixar a condição de consumidores passivos e exigir produtos personalizados. “Essas tecnologias permitiram que buscássemos o tipo de informação e de entretenimento que se enquadra com nosso perfil. Não passamos direto para a cultura digital”. O ápice disso viria com a internet.

Com o crescimento demográfico, os nativos digitais deverão ser 80% da população economicamente ativa em 2020, de acordo com Don Tapscott. Não é exagero, portanto, dizer que essa geração que já nasceu familiarizada com o ciberespaço moldará a sociedade do futuro. “Quem fará as leis de amanhã são justamente as crianças que hoje baixam conteúdo”, defende Gasser, que vê na ascensão dos Partidos Piratas na Europa o começo dessa renovação, que não deve ficar só na legislação.

Segundo o Ibope, 29% dos brasileiros urbanos entre 10 e 17 anos preferem conversar pela internet. Para 45% deles, Orkut e Facebook são parte da rotina. “A tecnologia não é só parte do cotidiano, mas integra a biologia dos jovens. Isso parece explicar porque eles já nascem sabendo manipular e viver com essas máquinas que estão ficando cada vez mais sutis”, finaliza Santaella.

Para ele, tecnologia é natural
O menino Luca Albano, de 10 anos, pode ser considerado nativo digital não só pela data em que nasceu, mas pela naturalidade que demonstra ao falar sobre tecnologia e ao usá-la. Apesar de ter começado a desenhar usando papel, hoje o menino (cujos pais trabalham como ilustrador e fotógrafa) usa um software – que ele aprendeu a usar sozinho – para produzir animações, desenhadas quadro a quadro. Depois de prontos, ele publica os trabalhos em seu canal no YouTube e em seu blog. Luca diz que já perdeu a conta de quantos vídeos fez. Além dos desenhos animados, que geralmente têm como temas os gêneros aventura e ficção científica (o último, preferido, inspirou o desenho abaixo), ele faz montagens com fotos que acha na internet e baixa músicas para sonorizar e produzir suas próprias versões dos clipes das músicas de que gosta.

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Matéria de 12 de outubro de 2009 a seis mãos: @ana_freitas, @brunogalo e @rafael_cabral

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