E segue a briga centenária entre música e tecnologia

31 08 2010

Lily Allen é só o capítulo mais recente da longa disputa do velho com o novo na história da indústria da música

Surgida na internet, a cantora inglesa Lily Allen surpreendeu e fez barulho ao pregar contra o download ilegal, durante o mês passado em seu blog no MySpace. Acabou crucificada na web. Mesmo tendo também se posicionado contra a postura passiva das gravadoras com relação à rede e defendido a criação de novos canais para a comercialização de música online. Cansada, ameaçou abandonar a carreira e escreveu em seu Twitter que era uma “neoludita”, em referência ao ludismo, movimento contra a Revolução Industrial. Por enquanto, largou só o Twitter, que passou a semana passada sem atualização.

Foi o capítulo mais recente de uma longa briga entre o velho e o novo na música. E que começou, acredite, muito antes do MP3 ou da internet – precisamente em 1877, ano em que o fonógrafo foi inventado.

O novo equipamento permitia gravar e reproduzir sons e causou chiadeira entre os artistas. Afinal, eles viviam de apresentações ao vivo e receavam que a nova traquitana acabasse com o seu ganha-pão. Por que as pessoas iriam vê-los se agora podiam ouvi-los em casa? O tempo mostrou que eles estavam enganados. Hoje, 142 anos depois da invenção de Thomas Edison, os shows ainda são a principal fonte de renda dos músicos.

Pouco depois, no início do século 20 foi a vez de uma nova tecnologia tirar o sono não só dos artistas, mas também das recém-nascidas gravadoras: o rádio, que durante anos funcionou sem legislação específica. O temor estava na crença de que as pessoas não comprariam mais música, uma vez que poderiam ouvir tudo o que desejassem.

Bastaria apenas uma breve manipulação no dial do rádio para encontrar uma determinada canção. Não foi o que aconteceu. No ano passado, mesmo com a internet, o compartilhamento de música e até a pirataria física, a indústria vendeu mais de 25 milhões de CDs – e isso só no Brasil.

E o que tudo isso tem a ver com o momento atual da música? Lá atrás, como agora, quem estava estabelecido resistiu – o quanto pode – para não ter seu modelo de negócios alterado. E já faz pouco mais de dez anos que o Napster inaugurou não só o compartilhamento de arquivos de músicas pela internet, mas também as discussões sobre o futuro da indústria fonográfica, que encolheu quase que pela metade neste período.

Durante esse tempo e ainda hoje, as gravadoras seguem firme na briga contra a “pirataria”, seja física ou online. O que a indústria já percebeu, no entanto, é que a solução não está apenas na repressão, é preciso oferecer alternativas atraentes ao consumidor cada vez mais conectado. E os artistas brasileiros, o que acham disso? Também falamos com eles (leia abaixo).

O caminho a seguir ainda não está claro. Gerd Leonhard é otimista. “A solução de todo esse impasse nunca esteve tão próxima”.

OPINIÕES: ARTISTAS & GRAVADORAS

“Dividir o que é seu é direito de todos. Pirataria é outra coisa. É você comercializar o que não lhe pertence. A web ajuda muito na divulgação e é um veículo de comunicação direto e democrático. Artistas novos e estabelecidos podem e devem se adequar a linguagem de comunicação e consumo de sua época.”
Chorão, líder da banda Charlie Brown Jr.

“Eu sinto como se tivéssemos regredido ao estágio tribal. Todos deslumbrados com os novos apetrechos mágicos – espelhos? pólvora? bússolas? Não questionamos nada. O ambiente urbano parece mergulhado numa espécie de fundamentalismo, um culto deslumbrado a qualquer tipo de avanço tecnológico.”
Fred Zero Quatro, líder da banda Mundo Livre S/A

“Estamos aprendendo a utilizar a internet a favor da música. Como toda ferramenta nova, existem abusos e ajustes a serem feitos, tanto de utilização quanto de regulamentação. A pirataria é o lado ruim, mas a divulgação e o contato direto são bons para artistas e para fãs.”
Henrique Portugal, tecladista da banda Skank

“Gravadoras estão se reinventando, adaptando-se a esta nova realidade e a este novo mercado, buscando novos modelos de negócio, além da ‘venda’ de música, como licenciamento, agenciamento de seus artistas, parcerias com patrocinadores, etc.”
Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Discos

“Somos um negócio de gestão de artistas e carreiras, nossas alternativas são ilimitadas. Um momento de transição profunda e histórica como a que estamos vivendo é só a véspera de um novo arsenal de oportunidades que, daqui por diante, vai se transformar sempre de forma vertiginosa.”
Marcelo Castello Branco, presidente da EMI Music Brasil

“O mercado da música sempre vai existir, ele apenas esta passando por uma grande transformação. Estamos vivendo talvez o momento mais excitante de todos. Precisamos de mais canais de vendas e de mais benefícios ao consumidor. O modelo do iTunes é vencedor. Precisamos de mais opções como esta.”
Alexandre Schiavo, presidente da Sony Music Brasil

Foto de musiclikedirt no Flickr.

Leia original aqui.

Matéria publicada no caderno do Link do Estadão em 4 de outubro de 2009 por@brunogalo

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Calma, o iPod só morreu como símbolo

27 08 2010

Como o MP3 player da Apple se tornou ícone da primeira década da era digital. E por que lentamente, a “era da nuvem” vai colocando um ponto final na “era do iPod”

Mais de 220 milhões de unidades vendidas. Cerca de 8,5 bilhões de músicas comercializadas na loja online iTunes Store. Tema de diversos livros, o mais famoso deles The Perfect Thing (a coisa perfeita, em inglês), do jornalista norte-americano Steven Levy. Para um aparelhinho que nasceu só para ajudar a vender mais iMacs, os computadores da Apple, e foi recebido com certa desconfiança pelo público e pela imprensa especializada, o iPod e seus indefectíveis fones de ouvido brancos foram – mesmo – bem longe. Nos oito anos seguintes ao lançamento, em 2001, o elegante e cobiçado tocador de MP3 se tornou um ícone cultural, sinônimo de música digital, objeto de desejo e, talvez, maior símbolo da primeira década de um mundo conectado.

Enfim, testemunhamos a “era iPod”, que, com a chegada de uma série de serviços que permitem o streaming ao invés do download, parece ter chegado ao fim. Para Alex Ross, crítico da revista The New Yorker e autor de O Resto é Ruído (Editora Cia. das Letras), em que faz um panorama da história da música no século 20, “um grande número de ouvintes mais jovens pensa do jeito como o iPod pensa. Eles já não veem mais o mundo de uma única maneira”, escreveu, se referindo às milhares de músicas que podem ser armazenadas no aparelho, bem como a função shuffle, que alterna de forma aleatória as músicas tocadas.

Para outros, o iPod não é nenhuma quebra de modelo; é, no fundo, apenas música para os nossos ouvidos. Ele nem foi o primeiro tocador de MP3 (ao contrário do walkman, da Sony, que, em 1979, foi pioneiro da música portátil e móvel). Ainda assim, se tornou um imenso fenômeno. Qual a explicação então para o MP3 player da Apple ter se tornado tão emblemático? “Usar a simplicidade como poder é nosso grande segredo”, arrisca Fábio Ribeiro, porta-voz da Apple no Brasil. “A especificação dos nossos produtos não revela o seu potencial”, conclui.

Simples, bonito e fácil de usar. Basicamente, o iPod empacota esses conceitos, além de trazer consigo a aura inovadora e o poder de atração presentes em todos os apetrechos da empresa de Steve Jobs (ao menos, desde o lançamento do próprio iPod). “Os aparelhos da Apple não são obras de arte, mas são obras de design com relevância museológica”, observa Marcelo Dantas, designer e criador de museus. Não por acaso, diversos gadgets da companhia fazem parte da coleção de design do Museu de Arte Moderna de Nova York. Além de tudo isso, antes do iPhone, cerca de 50% da receita da Apple chegou a vir da venda de iPods.

Passado o longo encantamento inicial, no entanto, o aparelho – e a própria Apple – precisava evoluir para continuar atual, e foi isso que aconteceu. Em 2003, Jobs deu sua derradeira cartada no mercado fonográfico – e na distribuição de conteúdo legal. Com uma base crescente de fiéis usuários, ele convenceu as gravadoras – atordoadas com o impacto do Napster e o início da pirataria digital – de que o melhor lugar para vender música digitalizada era a Apple. Inaugurada em abril daquele ano, a iTunes Store virou a maior vendedora de música do mundo em apenas cinco anos. Mas esse sucesso todo não resolveu o problema da pirataria. Pelo contrário, ampliou a questão.

Como observa Chris Anderson, editor da revista Wired, em Free (Editora Campus), “o iPod (…) só faz sentido se você não precisar pagar milhares de dólares pela sua biblioteca musical. O que, é claro, muitas pessoas não fazem”. Uma rápida conta – divida o número de músicas vendidas via iTunes pelo de iPods vendidos – comprova a tese. Portanto, como observou ao Link o mídia futurista alemão Gerd Leonhard, “a grande maioria das músicas nos iPods são ilegais”.

Para a Apple, isso não é um grande problema. A sua principal fonte de renda é a venda de hardware (neste caso de iPods) e não de músicas. Assim, nos anos que se seguiram, o gadget foi se transformando. Ainda que a conta-gotas, incorporou novas funções, mais espaço de memória e novas cores. Em 2007, veio a grande transformação. Com o lançamento do iPhone e, pouco depois, do iPod Touch, o aparelho abandona em definitivo sua primeira encarnação – a de um simples tocador de MP3 – para se tornar um marco da convergência. Um único dispositivo para ouvir música, ver filmes, acessar a internet, etc.

“A principal diferença é que no iPod eu colocava conteúdo baixado, enquanto no iPhone eu consigo baixar ou consumir conteúdo diretamente nele”, observa hoje o teórico Henry Jenkins, autor de Cultura da Convergência (editora Aleph). “Foi uma dramática revolução”, conclui.

Apenas no início de 2008, no entanto, com a criação da App Store, loja de aplicativos da Apple (que é modelo para todas as fabricantes e, até para o Google, com o Android) é que a transformação ganhou seus contornos atuais e cristalizou o seu alcance. Uma série de aplicativos para leitura de livros, por exemplo, se popularizam. Em 2009, inúmeros serviços de música baseados na nuvem, ou seja, em que não se precisa baixar nada, como Last.fm e Spotify, lançaram aplicativos para o iPhone e o iPod Touch.

Lentamente, a “era da nuvem” vai colocando um ponto final na “era do iPod”. A queda na venda dos iPods tradicionais é um sinal disso. Mas, atenta, a Apple já reinventou o seu antigo tocador de MP3. Hoje, em sua versão, mais avançada, o iPhone (sim, o smartphone da Apple é hoje o melhor iPod) e o iPod Touch (muito popular com games), ela está pronta para competir com seus incontáveis concorrentes – em suma, todo dispositivo portátil com acesso à internet. Na verdade, talvez até esteja em vantagem. Atualmente, os dois aparelhos são responsáveis pela metade do tráfego de dados por dispositivos móveis no mundo. Ainda assim, a Apple guarda uma carta na manga.

“Tenho certeza de que sempre haverá dispositivos dedicados, e eles podem ter algumas vantagens em fazer apenas uma coisa”, disse Steve Jobs ao The New York Times, em setembro, questionado sobre o Kindle, da Amazon. “Mas acho que aparelhos com múltiplas funções vão ganhar o dia”, concluiu, talvez prenunciando sua próxima cartada, o tão esperado tablet, que, entre outras, promete esquentar o mercado de distribuição de livros e filmes digitais. Um detalhe: ninguém confirma o aparelho, que já se convencionou ser chamado de iPad. Jobs sabe bem o que diz e a discreta morte e a reinvenção do conceito do iPod comprovam isso.

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Leia original aqui ou aqui.

Matéria publicada no caderno Link do Estadão de 6 de dezembro de 2009 feita a quatro mãos por: @brunogalo e @rafael_cabral