Brasil, o País das startups

21 09 2012

O cenário nunca esteve tão propício para quem quer montar uma startup no Brasil. Não é por acaso que jovens de todos os cantos do planeta, como o americano Alex Tabor, cofundador do Peixe Urbano, estão deixando seus países – e  a crise na Europa e EUA para trás – para empreender no dinâmico mercado brasileiro de tecnologia e internet

Por Bruno GALO

Brasil, a garagem é aquiPieter é holandês. Davis, Kimball e Alex são americanos. Já Olivier, Estelle e Thibaud, franceses. Enquanto Franco, Frank e Guido, argentinos. Daniel, por sua vez, é hondurenho. Por fim, os Malte (sim, são dois), bem como, Kai, Max e Florian são alemães. Em comum, todos escolheram o Brasil para empreender. Muitos deixaram sua terra natal – e promissores empregos – para criar negócios milionários na área de tecnologia e internet por aqui. Outros, embora ainda não vivam no Brasil, o escolheram como foco de suas empresas digitais. Novos modelos na área de comércio eletrônico, um mercado que se aproxima dos R$ 20 bilhões em receita no País e cresce à taxa de 40% ao ano, concentra a maior parte das atenções desses empreendedores. Mas há também negócios voltados para o segmento de mobilidade, redes sociais e serviços. Para ficar em alguns exemplos bem-sucedidos, há o site de compras coletivas Peixe Urbano, a loja online de moda Dafiti e a desenvolvedora de games para redes sociais Vostu. Esse é o capítulo mais recente e menos previsível de um novo boom de startups brasileiras. Algo que não se via, ao menos, desde o período anterior ao estouro da bolha pontocom nos EUA, em 2000. E com duas belas vantagens: dinheiro para novos negócios hoje não falta e o custo para começar uma startup é ínfimo se comparado com o de dez anos atrás. O movimento despontou no ano passado, atualmente ganha tração e pode transformar o País em um grande celeiro de companhias pontocom. Uma imensa garagem digital, uma espécie de Vale do Silício verde-amarelo.

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Retaguarda – Os empresários internacionais chegam ao País apoiados por fundos de investimentos poderosos

Há muito ainda a se fazer, é claro, mas a referência não é fortuita. Algumas das maiores empresas criadas no berço mundial das novas tecnologias na Califórnia, nos EUA, como a HP e a Apple, nasceram em pequenas garagens. Além disso, o investimento estrangeiro em empresas brasileiras cresce velozmente. Em 2009, os ativos sob gestão no País chegaram a US$ 36 bilhões. Em 2004, eram apenas US$ 6 bilhões. Já o montante destinado às empresas iniciantes (não apenas as de base tecnológica) chegou a US$ 2,5 bilhões, em 2009. Os dados são do Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da FGV-EAESP. “O maior pesadelo de todo investidor não é perder o dinheiro investido em uma startup. É sim deixar passar uma grande oportunidade. Ser aquele cara que não viu o potencial de um novo negócio. E o Brasil é a bola da vez para os grandes fundos. Ninguém quer ficar de fora”, resume Patrick Kann, um dos nossos conterrâneos mais bem relacionados no Vale do Silício e que atua na incubadora de novas empresas Idealab. O fenômeno brasileiro não atrai apenas boa parte dos maiores investidores do mundo, mas também, jovens talentos de todos os cantos do planeta. Com boa formação e apetite pelo risco, elegeram o Brasil para montar seus negócios, gerando empregos e criando riquezas para eles e o nosso País. Eis outra semelhança com o Vale famoso. Gigantes como Google, Yahoo!, YouTube e Facebook, além da sensação do momento Instagram, foram cofundados por estrangeiros. Respectivamente, o russo Sergey Brin, o sul-coreano Jerry Yang, o alemão Jawed Karim e os brasileiros Eduardo Saverin e Mike Krieger.

A despeito da burocracia, do caos tributário e dos obstáculos estruturais, como falta de mão de obra qualificada, não faltam estrangeiros dispostos a repetir a história de sucesso desses empreendedores só que agora em solo brasileiro. DINHEIRO selecionou 12 exemplos e reuniu alguns deles em uma garagem em São Paulo na semana retrasada. Embora não houvesse ingleses no grupo, a pontualidade foi britânica. Já a descontração era típica dos brasileiros mesmo. Muitos já se conheciam e os veteranos, aqueles há mais tempo no Brasil, não perdiam uma chance de corrigir os que chegaram por último ao País e ainda “sambam” para falar português. Há quase três anos por aqui, o francês Olivier Grinda, de 26 anos, cofundador e CEO da Shoes4You, que vai vender sapatos para mulheres por meio de assinatura mensal a partir de outubro, zoava sempre que podia o colega alemão Kai Schoppen, de 31 anos, sócio e CEO do clube de compras Brandsclub, há pouco mais de um ano no País. “Mais grande não. Maior”, explicou Grinda a Schoppen, entre um clique e outro do fotógrafo.

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Apesar de francês, Grinda se formou na Universidade de Miami, nos Estados Unidos, e veio ao Brasil convidado por um investidor alemão para cofundar o Brandsclub, em 2009.  Ele conta que teve a ideia do novo negócio, a Shoes4You, a partir da observação dos hábitos de consumo das mulheres brasileiras, em especial da sua namorada. “Quando comprei meu apartamento aqui, achei o armário embutido no quarto muito, mas muito grande mesmo”, lembra. Já sua namorada teve outra impressão. “Onde vou guardar meu sapatos?”, perguntou, inconformada com a falta de espaço. O sucesso da Shoedazzle, que lançou o modelo de assinatura de sapatos, bolsas e acessórios femininos nos Estados Unidos, também serviu de inspiração. Por uma mensalidade de R$ 140, as consumidoras vão poder escolher um par dos sapatos disponíveis no site por mês. Todos os modelos serão criados pela equipe de estilistas e designers da Shoes4You e produzidos por fabricantes terceirizadas no Brasil. A usuária tem a opção ainda de pular uma mensalidade se não quiser um sapato naquele mês, ou guardar o valor pago para comprar um par no futuro. O negócio ainda dá os primeiros passos, mas Grinda sabe exatamente onde quer chegar. Primeiro, ele quer tornar seus produtos objeto de desejo entre as mulheres brasileiras. Em seguida, se expandir para além das nossas fronteiras e conquistar boa parte da América Latina. Sua meta mais ambiciosa, no entanto, é abrir o capital da sua empresa até o final de 2015. “Se a Arezzo fez seu IPO e captou mais de R$ 500 milhões, nós também podemos”, afirma. Para atingir seus objetivos, Grinda reuniu um time de investidores de peso, como a Accel Partners, que tem participações em empresas como Facebook e Groupon, a Redpoint Ventures, que investe na Netflix, e o espanhol IG Expansion, controladora do brasileiro Viajenet. “Rapidamente, o Brasil está se tornando um dos mercados mais importantes para as nossas empresas”, afirma Kevin Efrusy, sócio da Accel, que mantém mais de US$ 6 bilhões sob sua gestão.

Como Grinda, Kai veio trabalhar no Brasil convidado. No seu caso, pelo fundo europeu Trayas, um dos sócios do clube de compras, que tem como controlador o grupo de mídia sul-africano Naspers, o mesmo que comprou o comparador de preços Buscapé por US$ 342 milhões, em 2009. “Foi um desafio muito interessante. De onde venho, na Alemanha, o e-commerce já é bastante desenvolvido. Aqui, ainda há muito a se fazer”, observa. Atento, ele começou dois novos negócios dentro do grupo brasileiro. O primeiro, a Buybuy, uma plataforma que desenvolve e opera lojas virtuais de grandes marcas de moda no Brasil, como Iodice e Hang Loose. “No longo prazo acredito que a Buybuy pode responder por até 30% do nosso faturamento. Afinal, cada vez mais as grifes vão precisar vender online”, afirma. Sua outra cartada é a Netlet, uma outlet virtual com um acervo de mais de 15 mil peças masculinas e femininas de marcas famosas, como Diesel, Ellus e Reserva, com até 70% de desconto. O setor de vestuário é um dos que mais cresce atualmente no ecommerce brasileiro, praticamente dobrando de tamanho a cada ano. Surfando nessa onda, o Brandsclub deve fechar o ano com mais de 7 milhões de usuários e receita superior a R$ 250 milhões. Sério quando o assunto é negócios, Kai faz graça sobre a sua justificável dificuldade com o português.“O Romero (Rodrigues, brasileiro cofundador e CEO do Buscapé) me disse que o melhor jeito para eu aprender rápido o português é dando entrevistas”, conta.

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Já o americano Kimball Thomas, de 32 anos, cofundador da Baby, loja online especializada em produtos para bebês que também deve iniciar sua operaração em outubro, chegou a estudar português durante oito horas por dia, mas agora reduziu para “apenas” quatro. “Aconselharam ele a diminuir para não fundir o cérebro”, brinca o também americano Alex Tabor, de 31 anos, cofundador do site de compras coletivas Peixe Urbano, que mantém um ligeiro sotaque apesar de viver no Brasil há oito anos. Além da camaradagem entre seus sócios, a Baby e o Peixe Urbano compartilham dois fundos de investimentos, o americano Tiger Global Management, que tem participação na Zynga e na Netshoes, e o brasileiro Monashees Capital. A mais nova investida do fundo nacional, aliás, é a Oppa, loja online especializada em móveis, do alemão Max Reichel, de 29 anos, prevista para começar a operar em novembro. “O design deve ser para todos”, afirma Max, que há 15 meses no País ainda luta para se expressar em português. Aos 15 anos, ele deixou a Alemanha para concluir o segundo grau no Canadá, mais tarde cursou a faculdade de economia em Londres e Munique, e fez seu MBA na prestigiada Escola de Negócios de Harvard. Antes da OPPA, ele trabalhou no escritório paulistano da consultoria McKinsey, uma das maiores do mundo, em projetos na área de e-commerce, entre outros. A ideia de montar seu negócio surgiu depois de se espantar com os preços “absurdos” praticados por algumas lojas de móveis em São Paulo. Para incluí-lo na conversa, o papo durante a sessão de fotos rolou, a maior parte do tempo, em inglês. Falar português, no entanto, é uma prioridade para todos. Eles se esforçam, perguntam sobre pronúncias, significados e gramática. “Se você quiser empreender e ser bem sucedido aqui tem que falar português”, afirma o americano Davis Smith, de 33 anos, primo de Kimball e cofundador da Baby.

A gestação do negócio deles começou há alguns anos quando ouviram de um colega brasileiro que os produtos para bebês e crianças pequenas eram extremamente caros no Brasil. Além disso, o mercado era extremamente fragmentado e sem nenhum player destacado online. Kimball havia sentido na pele essa realidade durante uma viagem de férias ao Rio de Janeiro. Ele precisou visitar três lojas até encontrar a fralda no tamanho certo para o seu filho. A maior surpresa veio mesmo quando ficaram sabendo que havia gestantes brasileiras viajando até Miami para comprar berços, carrinhos e até todo o enxoval do seu futuro bebê. De acordo com dados do Banco Mundial, todos os anos nascem 3 milhões de bebês no Brasil. Some-se tudo isso, aos sucesso da Diaspers, que foi comprada pela Amazon este ano por US$ 545 milhões, Kimball e Davis decidiram que era hora de desbravar esse mercado no Brasil. E não chegam sozinho. Além da Monashees Capital e da Tiger Global Management, eles receberam aporte do super anjo americano Ron Conway, que já investiu no Google, Foursquare e PayPal, entre outros. Para seduzir profissionais qualificados, com passagens por Wal-Mart, Submarino, entre outros, eles oferecem sociedade. Uma prática comum no Vale. O francês Grinda, da Shoes4You, ainda está montando sua equipe, mas parece concordar e aposta que “para dar certo no Brasil é preciso se cercar de uma equipe formada por brasileiros, que conheçam as particularidades e a cultura do País”.

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Coincidência ou não, fato é que o mais bem-sucedido até agora entre os estrangeiros que estão invadindo a nossa praia é justamente o mais brasileiro deles e que há mais tempo vive por aqui. Do nada, o Peixe Urbano fundado por Tabor e mais dois amigos brasileiros, Emerson Andrade e Julio Vasconcelos, em março do ano passado, tornou-se uma das marcas mais conhecidas da web brasileira. O site já reúne mais de 13 milhões de usuários, vendeu cerca de 9 milhões de cupons, soma perto de 900 funcionários, espalhados por mais de 80 cidades no Brasil e em filiais na Argentina e México, e faturou estimados R$ 110 milhões, apenas no primeiro ano de vida. “O crescimento meteórico só foi possível graças às redes sociais e o compartilhamento das promoções pelos nossos usuários”, aponta Alex. O Peixe Urbano soma quase 800 mil fãs em sua página no Facebook. O sucesso instantâneo despertou a atenção dos fundos internacionais. O site já recebeu investimentos de gigantes, como a Benchmark Capital, que tem participações em empresas como eBay e Twitter, e fez o seu primeiro e até agora único investimento na América Latina através do Peixe Urbano, além da General Atlantic, que investe no Facebook e Mercado Livre. Outro que se tornou sócio da empreitada foi o apresentador Luciano Huck.

Nascido nos Estados Unidos, mas filho de mãe brasileira e pai americano, Alex veio ao Brasil pela primeira vez ainda criança. Por causa dos pais, na infância e adolescência, viveu em países como Paquistão, Indonésia e Índia, além dos EUA, onde se formou em ciências da computação pela University of Southern California. “O Brasil é o primeiro país que escolhi viver”, conta Alex, que no começo do Peixe Urbano, fazia às vezes de SAC do site. “Meu celular tocava o dia todo”, lembra. “Alguns usuários, acho que gravaram meu número, e me ligavam até alguns meses atrás”, sorri. Ossos do ofício de uma startup, que nasceu não em uma garagem, mas no apartamento dos próprios sócios. Tabor conheceu Vasconcelos em um voo entre o Rio de Janeiro e São Francisco, na Califórnia, há alguns anos. “Foi uma daquelas felizes coincidências do destino”, resume Julio, que por sua vez conheceu Emerson durante um MBA na Universidade de Stanford no coração do Vale do Silício. Atualmente, Alex comanda uma equipe de cerca de 50 pessoas, entre programadores, técnicos e desenvolvedores. Entre suas prioridades atuais, está a criação de aplicativos para iPhone e smartphones Android. Por meio desses apps, o usuário vai poder receber ofertas de acordo com a sua localização, por exemplo. Precursor das compras coletivas no País, o Peixe Urbano introduziu uma nova forma de consumo por aqui e, de quebra, ganhou mais de mil concorrentes.
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O maior deles, o americano Groupon, pioneiro mundial das compras coletivas, tem como sócio fundador e CEO da sua operação brasileira justamente um estrangeiro. O alemão Florian Otto, de 31 anos, “médico de formação e geek por paixão”. Ele veio ao Brasil pela primeira vez em 2004, como intercambista de medicina, viajou pelo País e trabalhou em um hospital em Salvador. Ficou fascinado. Nos anos que se seguiram, ele voltou algumas vezes para fazer trabalho comunitário em hospitais públicos. Em meados de 2008, foi contratado pela consultoria McKinsey, para atuar em projetos na área de saúde, entre outras. Finalmente, em 2010, convidado pela incubadora alemã de novos negócios digitais Rocket Internet, que havia montado em janeiro o clone alemão do Groupon, o CityDeal, ele fundou o Clube Urbano no Brasil, em junho. Um mês antes, o Groupon comprou o CityDeal. E tornou a Rocket dona de uma participação de cerca de 10% na empresa, avaliada hoje em US$ 20 bilhões. Por aqui, o Clube Urbano não tardou a ser rebatizado. “Sempre quis empreender”, conta Otto, que descreve como incrivelmente caótico, os primeiros meses da operação brasileira do líder mundial do segmento. Novos funcionários chegavam quase que diariamente para suprir a demanda crescente. “Viramos muitas noites trabalhando, mas foi um período muito rico”, resume. A operação brasileira soma hoje mais de 15 milhões de usuários cadastrados e 500 funcionários.

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O exemplo de Florian, que hoje já atua como investidor anjo em novas startups brasileira, ilustra bem a relação dos grandes fundos do mundo com o nosso País. “Não falta gente interessada em investir no Brasil, tampouco brasileiros dispostos a empreender. O que faltam são pessoas que os fundos conheçam e confiem por aí”, resume o brasileiro Amit Garg, investidor do fundo Norwest Venture Partners, que gerencia mais de US$ 3,7 bilhões, no Vale do Silício. Eis uma explicação para a vinda de tantos estrangeiros ao País, bem como de expatriados brasileiros que estão fazendo o caminho de volta, como Vasconcelos e Andrade, do Peixe Urbano. Quando um desses jovens bem formado surge disposto a empreender no Brasil e com uma boa ideia, ainda que freqüentemente decalcada de um case de sucesso internacional, os grandes fundos e investidores anjos raramente acabam por não apóia-los. Está é basicamente a história por trás de empresas, como a Baby, a Shoes4You, a Dafiti, a Vostu, além do Peixe Urbano, e o site de reservas em restaurantes, Restorando. E essa é uma notícia extremamente positiva. Historicamente, uma startup de internet no Brasil nascia da cabeça de um grupo jovem, desprovido de capital e com pouca experiência profissional, que precisava se virar para atrair investidores e viabilizar seu negócio. O que está ocorrendo agora é justamente uma evolução do nosso mercado. “Imitar modelos já testados em outros países faz parte do processo de amadurecimento da indústria digital no Brasil”, aponta a brasileira Bedy Yang, fundadora do Brazil Innovators, grupo criado para aproximar startups brasileiras e empreendedores estrangeiros, e que acaba de se unir ao super anjo Dave McClure, da 500 Startups, para investir no Brasil.

A explicação para o interesse crescente de fundos e empreendedores é fácil. A pujança da nossa economia, com a ascensão de uma nova classe média, a baixa competição online e a crise nas economias desenvolvidas, com mercados saturados ou estagnados, tornou o Brasil extremamente atraente para os investidores. Mas há ainda outros fatores, como o grande interesse dos brasileiros pelas redes sociais, a popularização da banda larga e dos smartphones. Já do lado dos empreendedores e suas famílias pesa ainda um outro quesito. “O Brasil tem hoje a melhor relação oportunidade versus qualidade de vida para um empreendedor em todo o mundo”, aponta Davis, da Baby. “Sem dúvida, dos países dos Brics, o Brasil é o mais receptivo para um estrangeiro”, aponta o holandês Pieter Lekkerkerk, de 36 anos, cofundador da corretora de seguros online Escolher Seguro, com foco no consumidor emergente, que pode fazer cotação online e receber a resposta de pelo menos cinco seguradoras diferentes em 24 horas. Ele trocou seu emprego na consultoria McKinsey (não perca as contas, já são três), para desbravar esse imenso mercado ainda bastante fragmentado e pouco explorado, e espera faturar R$ 3 milhões já no ano que vem.

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Já as pretensões da Dafiti são bem maiores. A empresa fundada em janeiro quer chegar ao final do ano como líder brasileira no comércio online de moda. Os investimentos liderados pela Rocket Internet superam R$ 35 milhões na startup, que já soma cerca de 300 funcionários. O grupo de fundadores formado pelo brasileiro Philipp Povel, o francês Thibaud Lecuyer e os alemães Malte Horeyseck e Malte Huffmann exibem currículos com passagens por escolas renomadas, como Harvard, e experiência profissional em bancos, como o JP Morgan, e consultorias da Europa. Povel e Huffmann sabem bem o caminho das pedras para ter sucesso neste mercado. Em 2009, eles fundaram a MyBrands na Alemanha. O site logo chamou atenção da Zalando, uma das maiores empresas do setor de moda online na Europa, que comprou a MyBrands no ano passado. Desde então, eles planejam montar um negócio similar no Brasil. O site que nasceu especializado em sapatos femininos, já atende homens e crianças, além de oferecer acessórios, bolsas e roupas. A oferta de lingerie, relógios e óculos também estão nos planos. Atualmente já são mais de 8500 produtos diferentes. E a meta é superar os 25 mil até o final do ano. Entre as marcas oferecidas estão Puma, Crocs, Calvin Klein, CNS, Biondini e Capodarte. Para seduzir os consumidores, a Dafiti oferece frete grátis, prazo de 30 dias para troca e devolução do dinheiro, caso o cliente não goste do modelo comprado. “Nesse tempo que estou no Brasil sinto que ainda há uma certa aversão em criar empresas entre os jovens. Acredito que as escolas e as universidades deveriam ensinar mais sobre empreendedorismo”, aponta Thibaud.

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Foi justamente na faculdade que o hondurenho Daniel Kafie, de 29 anos, decidiu empreender. E seu foco sempre foi o Brasil. Ele lembra que a ascensão dos países do Bric, em especial as oportunidades na web brasileira, era assunto recorrente em Harvard, onde ele viu nascer o Facebook. “Ainda tenho o e-mail que recebi de Mark (Zuckerberg, CEO da rede social). Fui um dos 100 primeiros usuários do Facebook e Eduardo (Saverin, brasileiro cofundador do site) é um bom amigo”, conta Kafie. A sua Vostu, hoje uma gigante do setor de games sociais, avaliada em US$ 300 milhões e 50 milhões de usuários ativos, passou por muitas mudanças até encontrar o seu caminho. “O Daniel sempre se mostrou capaz de se adaptar as mudanças, além de uma vontade incansável de fazer o negócio dar certo”, conta Ricardo Arantes, da Intel Capital, o primeiro fundo a investir na Vostu, no início de 2008. À época, a empresa cofundada por Daniel e mais dois sócios, um alemão e um americano, queria fazer frente ao Orkut. Não deu certo. Mais do que o modelo de negócios, o que chamou a atenção da Intel Capital era a qualidade do time de empreendedores. E quando eles decidiram desenvolver games sociais especialmente para o mercado brasileiro o sucesso foi imediato. Entre os jogos mais populares da Vostu estão o Mini Fazenda e o MegaCity. “Os jogos sociais tem potencial para se tornar um entretenimento de massa assim como a tevê é hoje”, afirma Kafie, que conta ser freqüentemente procurado por empresas e agências de publicidade interessadas em anunciar e fechar parcerias de conteúdo com a Vostu. Entre os fundos que investem hoje na Vostu, além da Intel Capital, há a Accel Partners e a Tiger Global Management. Os três sócios ganharam também a companhia de uma verdadeira legião de quase 600 funcionários, divido entre Argentina, Brasil e Nova York. O mercado de games sociais é um fenômeno global que deve movimentar perto de US$ 6,1 bilhões em 2011, segundo a ThinkEquity. No Brasil, a previsão da empresa Real Games é que o setor movimente cerca de US$ 220 milhões.

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Também de olho nesse mercado está a francesa Estelle Rinaudo, de xx anos. Cofudadora Museworld, misto de rede social educativa com mundo virtual, o site é voltado para meninas entre 6 e 14 anos. A proposta é similar a do Club Penguin comprado pela Disney em 2007, por US$ 700 milhões. A startup ainda dá os seus primeiros passos, mas Estelle aposta no Brasil para fazer o negócio crescer. “Estamos em busca de investidores. Se tudo der certo, o escritório brasileiro será a nossa sede”, conta Atualmente, Estelle, que fez intercâmbio na FGV e viveu no Brasil entre 2004 e 2006, prepara sua mudança para cá. O argentino Guido Kovalski, de 42 anos, por sua vez, vive no Brasil desde 1999 e atualmente mora em Florianópolis, com a família. “Sou praticamente um brasileiro, menos na Copa, que aí não tem jeito”, brinca. Empreendedor experiente, com passagens pela consultoria McKinsey (mais um!) e tendo estudo na Universidade de Berkeley, na Califórnia,  ele atualmente aposta no mercado móvel, com a criação de aplicativos na área de educação e livros. Com escritórios em São Paulo (recém aberto), Buenos Aires e Miami, e mais de 80 funcionários, Guido conta que a prioridade da empresa é o Brasil. Ele aposta na medida provisória que reduz o imposto sobre tablets e pode baratear o produto em até 36%, para que seu negócio deslanche por aqui. “Com os tablets chegando a menos de R$ 1 mil no Brasil, pode haver falta de conteúdo”, aponta. Entre os clientes da empresa estão a Barnes&Noble e a Saraiva. Já seus conterrâneos, do Restorando, precisam superar a falta de hábito do brasileiro de fazer reserva em restaurantes com bastante antecedência. Ainda assim, Frank Martin, de 27 anos, e Franco Silvetti, de 26 anos, chamaram a atenção de Niklas Zennström, cofundador do Skype, e CEO do fundo Atomico Ventures, que abriu um escritório em São Paulo no ano passado para investir no Brasil. “O Restorando foi criado para o mercado brasileiro, começamos na Argentina apenas para testarmos o modelo”, explica Franco. O serviço espera fechar o ano, com mais de 1600 restaurantes parceiros, entre Brasil,e Argentina. Atualmente, já é possível reservar um lugar em restaurantes de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, entre outros lugares.

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Como se vê exemplos de estrangeiros empreendendo no Brasil na área de tecnologia e internet não faltam. Os votos de DINHEIRO é que eles possam, quem sabe, servir de exemplo e inspiração para que mais jovens brasileiros sigam este caminho tão necessário. “O empreendedorismo sempre desempenhou um papel fundamental na expansão de nossa economia e na geração de novos empregos”, declarou o presidente americano Barack Obama, em janeiro deste ano, durante o lançamento do programa Startup America, que visa estimular a criação de novos negócios nos Estado Unidos. A iniciativa é uma das apostas de Obama para tirar seu país da crise. O momento brasileiro é totalmente diferente, como demonstra
esse novo capítulo da história da imigração no Brasil, mas a importância dos empreendedores para a saúde da nossa economia no futuro não. Para Davis, da Baby, o Brasil enfim parece caminhar para cumprir a velha promessa de ser o “país do futuro”. Ele conta que ainda criança ouviu de um amiguinho quando vivia no Equador a velha máxima. “Aquilo nunca saiu da minha cabeça”, garante Davis. “Hoje, tenho a impressão que os brasileiros acreditam que esse momento nunca esteve tão próximo”, afirma. Como a experiência no País de gente como Smith; Lecuyer, da Dafiti; Tabor, do Peixe Urbano; e Grinda, da Shoes4You; entre outros, demonstra, o Brasil entrou de vez na rota mundial das start-ups. E não há dúvida de que somos hoje um país de muitas oportunidades. Mas, para que nos tornemos de fato o “País do futuro”, ao menos, quando o assunto é tecnologia e internet ainda está faltando uma pitada de inovação.

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Versão completa de matéria escrita por @brunogalo, com @flaviagianini, e publicada em 05 de outubro de 2011 na revista ISTOÉ Dinheiro

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